Opinião
Jornal de Espiritismo nº 89 · Abril 2018Página 134 min
Muitas pessoas interpretam esta frase como premonitória, no entanto, é apenas uma possibilidade. O próprio Leon Denis assegurou isso mesmo numa outra citação: “O Espiritismo será aquilo que dele fizerem os espíritas.” O Espiritismo é um instrumento fantástico para nos ajudar a compreender a natureza da criatura humana de uma forma integral, um ser imortal que participa das dimensões física e espiritual, que evolui através de sucessivas reencarnações, que traz consigo uma herança de talentos e conquistas, de vícios e hábitos enraizados que têm a sua influência nos comportamentos presentes.
É uma ciência da alma que não está apenas focada no mundo espiritual ou naquilo que nos aguarda do lado de lá do véu, mas que, a partir de uma compreensão transversal da realidade biológica, cultural, social e espiritual, nos ajuda a construir vidas mais belas, mais significativas e mais felizes. O espiritismo possui uma identidade bem definida e que foi a base em que Allan Kardec se suportou ao longo da sua obra. Sem essa identidade, o Espiritismo pode ser qualquer coisa e transfigurar-se à medida dos interesses de cada um.
Será que defender de forma acérrima a pureza doutrinária faz parte dessa identidade? É que as ideias-base da Doutrina Espírita estão assentes em cima de pilares muito mais profundos que não podem ser ignorados, sob pena de estarmos a falar de uma outra coisa qualquer, mas não de espiritismo. Identidade para além das ideias-base Um dos exemplos mais gritantes é que o trabalho no espiritismo é realizado em parceria com a espiritualidade.
E isto é tão precioso que na génese da Doutrina Espírita está uma parceria bem-sucedida com a espiritualidade. O espiritismo não é uma revelação pura, é um trabalho conjunto, uma obra a várias mãos. Muitas vezes, há uma tendência para colocarmos os louros da proposta Espírita nos Espíritos superiores, tornando menor o trabalho de Allan Kardec. A colaboração de Allan Kardec na elaboração da Doutrina Espírita foi muito mais extensa e significativa do que grande parte do movimento ainda gosta de admitir, como se a interferência humana fosse um ponto desfavorável para as teses espíritas.
A interferência humana é sempre indispensável porque, no espiritismo, a revelação nunca se sobrepõe à razão. Allan Kardec estruturou a filosofia Espírita, analisou, discutiu, organizou, interpretou, deu um enquadramento lógico à informação fornecida. Para além disso, ainda criou uma metodologia de abordagem científica para se relacionar com as revelações dos Espíritos e, não menos importante do que tudo isto, como um educador, humanista, discípulo do grande pedagogo Pestalozi, direcionou esses conhecimentos para o objetivo de aperfeiçoamento e educação da Humanidade, usando uma linguagem própria da didática, sendo simples e sabendo como se fazer entender, sensibilizando a alma e a razão, colocando a doutrina à disposição de todos sem rodeios linguísticos inchados, usando a linguagem dos sábios: a simplicidade.
Allan Kardec esteve muito longe de ser um secretário dos espíritos e o Espiritismo surgiu desta parceria bem-sucedida entre a sabedoria e lucidez da espiritualidade superior e o trabalho, talento, compromisso e responsabilidade de Allan Kardec. O espiritismo possui uma identidade bem definida e que foi a base em que Allan Kardec se suportou ao longo da sua obra. Outros dos pontos indissociáveis desta identidade espírita são o seu caráter dinâmico, progressista e ecuménico.
O espiritismo é dinâmico porque foi criado como um movimento que, em vez de ficar cristalizado nos seus dogmas, refém das suas posições anteriores, vai acompanhando o progresso, oferecendo a sua valiosa contribuição para abrir a mente humana a outras perspetivas que ampliem a sua busca pela verdade. Não uma verdade absoluta e inquestionável que nos torne fanáticos e nos impeça de enxergar o óbvio mesmo quando está à nossa frente, mas uma verdade sempre relativa e conquistada à medida dos progressos alcançados, sem menosprezar as diversas religiões, os seus papéis e as suas ideias, antes procurando uni-las nos seus pontos fundamentais.
É necessário, por isso, abandonar a pretensão de ter respostas para tudo e querer explicar tudo. Ainda estamos muito longe de compreender toda complexidade que nos rodeia, habitamos uma ilha de conhecimento rodeada por um oceano de desconhecido. Não menos importante, tendo sempre na ponta da língua os conceitos de aprendizagem, progresso e evolução, o Espiritismo é uma doutrina de educação para a liberdade, uma doutrina de libertação.
Se alguma vez, alguém em nome do espiritismo se colocar ao serviço do medo para manipular o comportamento das pessoas, nem que seja com as melhores intenções, “para protegê-las delas próprias”, é preciso parar e refletir. O Espiritismo consola, esclarecendo; ajuda a crescer, educando; não controla nem condiciona, liberta; não nos torna vítimas, responsabiliza-nos; não acusa, compreende; ajuda-nos a compreender melhor hábitos antigos, vícios muito estranhos, adquiridos nesta e noutras vidas, que castram a nossa potência de vida, limitam-nos, constrangem-nos, tornam as nossas vidas mais tristes, mais pequenas, angustiantes, mais conflituosas.
Allan Kardec, como um educador, queria educar as pessoas para uma nova forma de espiritualidade, em que elas deixassem de ser meros instrumentos passivos a quem estava reservado o papel de pedir clemência ou favores, submissos aos humores de Deus, para torná-las pessoas mais conscientes de si mesmas e do universo em que vivem e, através dessa maior lucidez, pudessem compreender melhor as vicissitudes a que estão sujeitas, tomar melhores decisões e viverem melhor.
A divulgação das ideias espíritas não poderá ser bem realizada se não estiver sempre assente nesta identidade da Doutrina Espírita: Uma ciência da alma progressista, dinâmica, ecuménica e não proselitista, que potencia a educação para a liberdade em parceria com a espiritualidade, e que, usando a sua mensagem de forma simples, fraterna e humilde, mostra às pessoas a realidade de uma outra dimensão da vida ao mesmo tempo que as procura orientar em direção a vidas mais belas, livres, significativas e felizes.
Por Carlos Miguel Numa expressão muito difundida no movimento espírita, Leon Denis afirmou que o espiritismo não seria a religião do futuro, mas o futuro das religiões. foto pixabay JULHO.AGOSTO.
