90 — índice de conteúdos

Editorial / Conto

Jornal de Espiritismo nº 90 · Setembro 2018Página 25 min

Partilhar
Idioma

EDITORIAL / CONTO Há dias o meu amigo Manuel, dirigente espírita que conheço desde a década de 1970, teve uma séria crise de vesícula. Chegado ao hospital, ficou logo por lá para ser operado de urgência. Nem meia dúzia de dias depois, ao visitá-lo em casa, faz o resumo dos inesperados acontecimentos e a dada altura comenta que «quando vi, antes da operação, a conversa do cirurgião, percebi logo que a anestesia geral estava quase a fazer efeito», e remata plenamente convicto: «Aquilo foi muito rápido!

», referindo-se à duração da cirurgia. A maneira como ele o disse, confesso que me fez sorrir por dentro. A razão liga-se aos diálogos fraternos estabelecidos nas reuniões mediúnicas com Espíritos desencarnados ainda em estado de confusão, muitos deles desconhecedores da morte do seu corpo físico, transferidos que já se encontram para a vida espiritual. Como têm na mesma um corpo parecido, o perispírito ou corpo espiritual, por vezes demoram a perceber esse facto até mesmo meses ou anos, não poucas vezes décadas, a experiência o diz.

Quando suavemente se insinua a ideia de que a vida continua e todos lá chegaremos inevitavelmente, porém, nem sempre cientes disso, nem mesmo assim muitos deles percebem com clareza que é o caso deles, ali a falarem connosco através do médium psicofónico, sem saberem. Mais tarde ou mais cedo, quando se convencem da veracidade do que está a ser explicado, invariavelmente agarram - -se à ideia de que o acidente ou a moléstia terminal que os vitimou terá acabado de ocorrer há apenas umas horas, quando muito um dia ou dois, dependendo dos casos.

Juntar a pergunta «Sabes em que ano estamos?» é criar um subcapítulo de alto A lenda das duas tílias relevo no esclarecimento, pois não acreditam que já tenha passado uma dúzia de anos ou até virado o século e no ano 2000 o mundo não ter de facto acabado! Quando suavemente se insinua a ideia de que a vida continua e todos lá chegaremos inevitavelmente, porém, nem sempre cientes disso, nem mesmo assim muitos deles percebem com clareza que é o caso deles, ali a falarem connosco através do médium psicofónico, sem saberem.

Nesta circunstância, a noção do tempo, fora da objetividade dos ponteiros do relógio, é verdadeiramente rala. O tempo subjetivo na vida espiritual assume uma hegemonia exacerbada sobre os parâmetros da consciência vigil, ou seja, de quando estamos bem acordados e conscientes do que se passa à volta, mas na vida material em que incluímos um roteiro de aprendizagens mil, também marca muitos pontos, não concorda? Afinal, é tal qual ouvi na voz do nosso Manuel: «Aquilo foi muito rápido!

». Esperamos que esta leitura não seja assim tão fugaz e que tire gosto e proveito do esforço dos colaboradores que lhe oferecem o seu melhor trabalho nos artigos publicados. Boa leitura! A Redação foto pixabay Conta-se que no pórtico da cidade de Listra, na velha Grécia, havia duas tílias plantadas. Os ramos das imensas árvores enroscavam-se uns aos outros, parecendo uma única copa dotada de dois troncos. Um dia, um ilustre visitante passou por ali e quis saber sobre as árvores de galhos entrelaçados.

Viu, perto dali, uma mulher da região que recolhia água de um velho poço, e perguntou-lhe sobre as árvores singulares. A mulher, sentindo-se homenageada pela curiosidade do estrangeiro, deteve-se e começou a contar: “Dizem senhor, que nos idos tempos da Licaónia, depois de ter sido construída pelos deuses, eles resolveram visitá-la para saber se tudo corria bem por aqui. Dois desses deuses, o pai dos deuses, Júpiter, e o seu auxiliar direto, Mercúrio, transformaram-se em comuns mortais.

Vistoriaram a região e, ao entardecer do dia, começaram a bater à porta das casas. Viram que ninguém lhes oferecia pousada. Por isso, foram-se afastando até que, nos confins, chegaram a um casebre. Era uma casa muito velha, tosca. Bateram na porta e uma mulher assaz idosa, veio atender. Era Balsis, uma pastora, esposa de um lavrador que ainda estava no campo. Ao ouvir os homens a pedir guarida, Balsis foi tocada no seu sentimento e abriu-lhes as portas.

Fê - -los entrar e serviu-lhes água fresca. Logo depois, o esposo, Filémon, chegou dos campos e juntou-se à esposa, alegre por hospedar aqueles homens. Não tinham muito para oferecer, mas Balsis pediu ao esposo que fosse à horta e colhesse algo para preparar um caldo. Balsis puxou, de junto da parede, a única mesa que tinha no casebre, velha, de tampo esburacado. Cobriu-a com a toalha que tinha guardada para ocasiões especiais, enquanto Filémon retirou do armário frutos secos e uma bilha de vinho.

Depois, sentaram-se junto com os visitantes para a ceia da família pobre. Começam a tomar o caldo, a comer os frutos secos e perceberam que quando Júpiter e Mercúrio quanto mais vinho retiravam da bilha, mais vinho aparecia nela. Entreolharam-se: essa era uma prerrogativa dos deuses. Aquilo em que tocassem multiplicava - -se. Júpiter percebeu e deu-se a conhecer. Apresentou Mercúrio, que era considerado deus dos oradores e pediu aos velhos que não falassem da sua estadia.

No dia imediato, antes de se despedirem, Júpiter abraçou os dois velhos e propôs: “Pela gentileza da hospedagem, gostaria de deixá-los à vontade para pedir o que quiserem”. Era o deus dos deuses falava. Filémon olhou a esposa, esta retribuiu o olhar. Estavam envelhecidos, tinham vivido na pobreza desde a juventude, quando se casaram. Aquela idade não lhes pedia mais nada. Filémon disse a Júpiter que não necessitavam de nada, mas Balsis lembrou-se de algo.

Voltou-se para Júpiter e disse: “Senhor, já que podemos pedir alguma coisa, gostava de rogar que não permitas que um de nós venha a chorar a morte do outro. Gostaríamos de pedir que quando um vier a tombar nas mãos da morte, o outro o possa acompanhar imediatamente”. Júpiter comoveu-se e garantiu que o pedido seria atendido. No dia em que Filémon tombou, arrastado pelas mãos da morte, Balsis tombou sobre o seu corpo.

E Júpiter, para homenagear o amor de ambos, plantou-os no pórtico da cidade de Listra, na entrada da Licaónia, e os converteu em duas tílias, que estão floridas quase o ano inteiro. Isso tudo para dizer que o amor é assim, é capaz de estar sempre florido, é capaz de doar-se perpetuamente. Fontehttp://www.caminhosluz.com.br foto pixabay SETEMBRO.OUTUBRO.