Crónica
Jornal de Espiritismo nº 92 · Janeiro 2019Página 145 min
Sendo uma ciência filosófica de consequências morais, como ciência de observação investiga os chamados factos espíritas, como filosofia explica esses mesmos factos, e como moral apresenta um roteiro para a Humanidade, de modo a que esta se espiritualize mais depressa. Sendo a Doutrina dos Espíritos e estando assente em valores universais, bem como nas leis imutáveis da vida, jamais poderia a Doutrina dos Espíritos ser mais um joguete dos seres humanos, que a utilizassem a seu belo prazer.
Allan Kardec, estruturou muito bem os ensinamentos dos Espíritos, compilando-os na sua obra, que engloba os 12 volumes da “Revista Espírita” e oito livros (considerando-se o livro “Obras Póstumas” e “Viagem Espírita em 1862”), deixando bem vincado o carácter universalista e universal desta doutrina. Léon Denis, o filósofo do Espiritismo, referia a seu tempo que o Espiritismo seria aquilo que os Espíritas dele fizessem.
A obra de Kardec permanece segura, bem estruturada, e ainda não é bem entendida pela grande maioria de nós, o que é natural tendo em conta que é algo muito recente, apenas com século e meio de idade. Os espíritas (adeptos da ideia espírita) entendem a Doutrina dos Espíritos de acordo com a sua capacidade de entendimento, que varia em grau e em profundidade, o que é perfeitamente normal, saudável, desde que haja bom senso, discernimento, lucidez, equilíbrio e uma normal troca de ideias, dentro da assertiva espírita da fraternidade, da caridade, do amor entre todos.
Pelo processo da reencarnação, muitos de nós, espíritas, somos ex-padres e ex - -freiras, oriundos do catolicismo dominante no Ocidente, desde sempre. Ainda presos aos atavismos do passado, vamos levando para os centros espíritas muitas coisas que nada têm a ver com a essência universal do Espiritismo, como toalhas brancas para a mesa (saudades dos altares?), fotografias de Jesus e de vultos espíritas (saudades dos santos das Igrejas?)
, rezas em coro e cânticos igrejeiros (reminiscências do catolicismo?), o “ámen” no fim de uma prece, posturas igrejeiras e castradoras (saudades do clero?) por parte de dirigentes espíritas (tudo isto criticado por Kardec, in “Viagem Espírita em 1862”, cap. XI e seguinte). Paralelamente, ao nível da divulgação espírita, em termos locais, regionais, nacionais e internacionais, vamos perdendo a essência do espiritismo, o estatuto de livre-pensador, para começarmos a criar organizações, grupos, por vezes sectários, dentro dos movimentos espíritas, feitos pelos homens, que muitas vezes vão contra a essência da Doutrina dos Espíritos (que não é sectária).
É fundamental que as organizações de divulgação espírita, seja a que nível for, as federações espíritas em todos os países, não se tornem uma reedição dos bispados de outrora, assim como é importante que o Conselho Espírita Internacional (CEI) não seja entendido como um “papado” espírita. No entanto, todas estas organizações são muito úteis e necessárias no processo de divulgação do espiritismo, mantendo-se uma estrutura horizontal, em rede, sem necessidade da tradicional estrutura piramidal, papal.
O ser humano, espírita, habituado a ser “orientado” pelos padres de outrora, sente - -se perdido, sem saber o que fazer ou como fazer, agora que usufrui do estatuto de livre-pensador. Então, num movimento de “retrocesso” temporário, o espírita refugiaEspiritismo ou espiritismos? -se em organizações que reeditam vícios e erros do passado, criando-se regras rígidas, outras absurdas, supostas hierarquias, fazendo-se com o Espiritismo o mesmo que os homens fizeram com o Cristianismo, descaracterizando-o e catolicizando-o.
Os centros espíritas pequenos, como preconizava Kardec, um em cada bairro, com 20, 30 pessoas, vão dando origem a “igrejas” com 400, 800, mil ou mais pessoas, descaracterizando a essência do centro espírita, que aponta no conhecimento mútuo, no amparo entre todos, na entreajuda e companheirismo (in “O Livro dos Médiuns”, cap. XXIX, “Reuniões e Sociedades”). Saudosos dos grupos divergentes dentro do catolicismo, em vidas passadas, divergências essas que deram origem às várias ordens religiosas e aos vários grupos dentro do Catolicismo, os espíritas menos atentos agrupam-se em torno dos seus “santos” espíritas, criando “grupos de amigos” deste ou daquele espírita mais proeminente, num claro desacerto com o rumo da Doutrina dos Espíritos, compilada por Allan Kardec.
Não existem espiritismos, nem existem correntes espíritas. “Espiritismo só há um, o de Kardec e mais nenhum” costuma referir pessoa amiga, em jeito de brincadeira, mas falando a sério. Espiritismo é uma coisa. Os espíritas podem ser outra bem diferente. Em caso de dúvida, peguemos nos livros de Allan Kardec, estudemo-los, usemos o nosso espírito crítico, com amor, fraternidade, e prossigamos vivendo, amando, servindo, na certeza de que no actual estado evolutivo, jamais conseguiremos agradar a gregos e troianos.
Por José Lucasjcmlucas@gmail.com “O Espiritismo é a ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como das suas relações com o mundo corporal”, refere Allan Kardec no livro “O que é o Espiritismo”. foto arquivo Léon Denis, o filósofo do Espiritismo, referia a seu tempo que o Espiritismo seria aquilo que os Espíritas dele fizessem. Informação relativa aos dados pessoais dos assinantes do JDE O JORNAL DE ESPIRITISMO (JDE), publicado periodicamente pela Associação de Divulgadores de Espiritismo (ADEP), possui uma modalidade de chegar aos seus Leitores através do pagamento de uma assinatura anual, para a qual se torna necessário o preenchimento de um Cupão de Assinante onde consta por razões óbvias sobretudo o nome, a morada e a forma de contacto, enquanto dados pessoais de identificação.
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