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Opinião

Jornal de Espiritismo nº 92 · Janeiro 2019Página 134 min

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O espírito de grupo é uma característica muito valorizada, representando a capacidade de várias pessoas trabalharem como uma equipa para que, em colaboração e partilha, possam construir maiores benefícios para algo maior que eles próprios. Não é com certeza por falta de experiência nesta área que os nossos talentos em dinâmicas de grupo não se desenvolvem mais rapidamente. É que nós pertencemos a muitos e diferentes grupos, uns maiores, outros mais pequenos.

E a relação que mantemos com eles é tão intensa que se torna um pêndulo na construção de quem somos. O tribalismo teve um valor evolutivo considerável. Os nossos antepassados mais sociáveis e com tendência para se agruparem em tribos usufruíam de uma enorme vantagem competitiva na proteção, segurança, alimentação e cuidados com a prole. E o grupo era tão precioso que era defendido com a própria vida se as situações assim A Minha Tribo o exigissem.

Os cientistas acreditam que a oxitocina influencia o comportamento gregário que os mamíferos revelam, argumentando que essa hormona é a responsável pela mudança de um comportamento reptiliano, mais isolado, frio e nada protetor com as crias, para o comportamento mamífero, em que o grupo, o afeto e o cuidado com a prole é uma referência. Havendo razões biológicas e sociais que empurram o ser - -humano a agrupar-se, a vivência no seio dos grupos é também um desafio que por vezes agudiza algumas tendências inatas que ainda revelamos.

“O Deus das Moscas” é um livro chocante neste aspeto particular. É o romance mais conhecido do escritor inglês William Golding, laureado com o nobel da literatura em 1983 e que retrata a violência desencadeada por um grupo de estudantes presos numa ilha deserta sem a supervisão de adultos. A rivalidade eoódio criados induzem-nos a uma reflexão profunda sobre a natureza humana e o comportamento tribal. No mesmo ano em que o “O Deus das Moscas” foi publicado, 1954, o psicólogo social Muzafer Sherif, levou a cabo uma famosa experiência com dezenas de miúdos de doze anos numa colónia de férias no parque estatal “Robbers Cave”, em Oklahoma.

À chegada, dividiu-os em dois grupos que permaneceram isolados durante vários dias. Durante esse tempo, cada grupo desenvolveu atividades que procuravam estabelecer os laços de amizade, deram um nome ao seu grupo e desenharam uma bandeira. Após esse período, os rapazes de cada um dos grupos foram apresentados e colocados diante de uma série de jogos e competições para incitar a rivalidade entre os membros de grupos diferentes.

Os conflitos não tardaram a surgir, desencadeando violência física e destruição de propriedade. Bandeiras, casernas e bens pessoas não foram poupados à fúria da rivalidade. Isto não é bem uma novidade para quem anda minimamente com o que acontece à sua volta. Com a crescente polaridade entre alguns dos variadíssimos grupos que existem na nossa sociedade, é cada vez mais fácil distinguir e identificar características tribais que nos empurram para uma vivência num grupo de forma pouco racional, tornando-nos suscetíveis a situações perturbadoras ou prejudiciais.

De um lado os “nossos”, os donos da razão e da verdade, os bons. Do outro, “eles”, os que carregam com os males do mundo. Esta divisão maniqueísta tão acirrada, compromete irreversivelmente a racionalidade e a objetividade. Assuntos complexos e delicados ficam limitados ao pensamento do grupo, reduzidos a uma retórica simplista e a uma lógica quadrada que em nenhum momento questiona a própria certeza. É o caldinho perfeito para desencadear o conflito.

A reflexão, a dúvida, a ponderaçãoea tolerância parecem atitudes completamente descabidas por entre preconceitos, lugares comuns e acusações daqueles que cerram fileiras de um lado e do outro da barricada. Os estereótipos são típicos de uma sociedade tribal ou polarizada. Um estereótipo é uma imagem comum aos membros de um determinado grupo, representando uma visão simplificada e normalmente preconceituosa sobre os elementos de outro grupo.

E este comportamento torna-se um ciclo vicioso: a divisão prolifera a criação de estereótipos, que por sua vez acentua a polarização, que irá potenciar a criação de ainda mais estereótipos… e por aí adiante. Continuaremos a viver em grupo, a pertencer a vários grupos e a sentirmo-nos mais próximos de uns do que de outros, é inevitável. No entanto, os grupos e os seus membros são mais saudáveis e ricos na medida em que aprenderem a derrubar os arames farpados das suas fronteiras, souberem reconhecer as suas fragilidades, se tornem mais diversos, abertos e recetivos à mudança.

As principais ameaças a um grupo não são encabeçadas pelos outros grupos nem pelas suas idiossincrasias, mas sim pela dificuldade em comunicar abertamente, questionar sem preconceitos e permitir que os seus membros sejam livres de mostrar a sua singularidade sem medo da rejeição. É que, analisado de uma perspetiva espírita, o comportamento tribal é ainda mil vezes mais incongruente. A reencarnação vai-nos oferecendo múltiplas vivências em contextos sociais distintos, deambulando entre diferentes grupos, culturas e pertencendo a diversas “tribos”, aprendendo com todas as experiências e sentindo-nos cada vez mais parte de uma gigantesca e maravilhosa tribo: a da fraternidade humana.

Carlos Miguel foto arquivo DIVULGUE OS ACONTECIMENTOS DA SUA ASSOCIAÇÃO Envie as suas notícias para adep@adeportugal.org e, para além de ser enviada por e-mail, será inserida na Agenda do movimento espírita português, no respectivo dia e mês, facilitando assim a consulta de eventos espíritas nacionais. Aceda a essa agenda em www.adeportugal.org. CUPÃO DE ASSINATURA Desejo receber na morada que indico o “Jornal de Espiritismo” durante uma ano, pelo que junto cheque ou vale postal a favor da Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal, JE, Apartado 161 – 4711-910 BRAGA (portes incluídos).

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