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Editorial / Conto

Jornal de Espiritismo nº 93 · Março 2019Página 24 min

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EDITORIAL / CONTO Que paz tão boa nesta fria noite de inverno! O padre desencarnado, confuso na vida espiritual em que nem sabia já ter entrado, tinha sido levado pela mãe desencarnada, feliz: o filho finalmente tinha conseguido vê-la, depois de tanto velar por ele. Nas palavras deste Espírito, ela estava tão linda, vestida de luz. Agora, o médium em transe psicofónico dava lugar a um menino desencarnado, Carlos, que mentalmente acreditava ainda estar na praia, perdido do pai, e preocupado, à procura dele.

Quem o atendia, com vista a despertá-lo suavemente para o auxílio necessário, tenta uma mentalização. Sugere-lhe que agora, no momento adequado do esclarecimento, deveria estar a surgir-lhe na proximidade um banheiro ou salva-vidas, a pessoa cuja tarefa na praia consiste em ajudar as aflições de quem não respeita o mar. Feita a sugestão, alguns segundos de observação refletem-se no rosto do médium atuado pelas emoções da criança desencarnada, até que esta diz: «Não vejo nenhum banheiro.

Está aqui um… parece um vendedor de gelados». Ali ao lado, confesso que nunca tinha ouvido uma referência assim em reunião deste jaez e sorri. Descrever um amigo espiritual com funções notáveis de reconforto e esclarecimento na vida espiritual como um vendedor de gelados foi especial. Algumas pessoas sabem que as crianças desencarnadas, assim como incontáveis adultos, recebem proteção na entrada na vida espiritual. Algumas pessoas sabem que as crianças desencarnadas, assim como incontáveis adultos, recebem proteção na entrada na vida espiritual.

Mas isso não quer dizer que ao serem levados para um ambiente refazedor saiam como que por artes mágicas das suas realidades subjetivas ou estados mentais fechados, solidamente introspetivos, por um tempo variável, algo longo se ajustado ao calendário terreno. Nestes casos específicos, podem ser transportados a este tipo de reuniões, se adequado, e catalisar a reabilitação mental para a vida normal na dimensão espiNão perdoar ritual, de onde todos viemos enquanto seres espirituais em aprendizagem no corpo físico.

É de sublinhar também que a idade espiritual não tem a ver com a idade material, pelo que o mérito decorrente das conquistas e hábitos mentais de cada um deverá refletir-se nas limitações ou liberdades que caracterizam cada caso em dado momento evolutivo. Embora não nos possamos dar ao luxo de pedir a um destes abnegados vendedores de gelados que envolvam os nossos leitores nessa psicosfera de imensa paz, fazemos votos de que o esforço dos colaboradores do «Jornal de Espiritismo» possa atingir as metas de serviço fraterno a que nos propomos em cada edição.

Por isso, boa leitura! Pela Redação Errata: Por lapso involuntário a autoria de dois artigos no JDE anterior não foi mencionada, pelo que passamos a indicá-la. Na página 5, «Como entender a medicina psicossomática na visão espírita?», de Gláucia Lima, a autora não foi mencionada; passou-se o mesmo com o artigo da página 12, «Haverá outras implicações numa autópsia?», de Joana Santos. Apesar de ambas não terem referido o erro, pelo facto pedimos desculpa às autoras, cuja colaboração nos é preciosa, bem como aos leitores deste jornal.

foto pixabay Bezerra de Menezes, já devotado à doutrina espírita, almoçava, certa feita, em casa de Quintino Bocaiúva, o grande republicano, e o assunto era o espiritismo, pelo qual o distinto jornalista passara a interessar-se. No meio da conversa, aproxima-se um serviçal e comunica ao dono da casa: – Doutor, o rapaz do acidente está aí com um polícia. Quintino, que fora surpreendido no gabinete de trabalho com um tiro de raspão, que, por pouco, não lhe atingiu a cabeça, estava indignado com o servidor que inadvertidamente fizera o disparo.

– Manda-o entrar – ordenou o político. – Doutor – roga o moço preso, em lágrimas -, perdoe o meu erro! Sou pai de dois filhos… Compadeça-se! Não tinha qualquer má intenção… Se o senhor me processar, que será de mim? A sua desculpa livrar-me-á! Prometo não mais brincar com armas de fogo! Mudarei de bairro, não incomodarei o senhor… O notável político, cioso da própria tranquilidade, respondeu: – De modo algum. Mesmo que o seu ato tenha sido de mera imprudência, não ficará sem punição.

Percebendo que Bezerra se sentia mal, vendo-o assim encolerizado, considerou, à guisa de resposta indireta: – Bezerra, eu não perdoo, definitivamente não perdoo… Chamado nominalmente à questão, o amigo exclamou desapontado: – Ah! Você não perdoa! Sentindo-se intimamente desaprovado, Quintino falou, irritado: – Não perdoo erro. E você acha que estou fora do meu direito? O Dr. Bezerra cruzou os braços com humildade e respondeu: – Meu amigo, você tem plenamente o direito de não perdoar, contanto que você não erre… A observação penetrou Quintino como um raio.

foto pixabay O grande político tomou um lenço, enxugou o suor que lhe caía em bagas, tornou à cor natural, e, após refletir alguns momentos, disse ao polícia: Meu amigo, você tem plenamente o direito de não perdoar, contanto que você não erre… – Solte o homem. O caso está liquidado. E para o moço que mostrava profundo agradecimento: – Volte ao serviço hoje mesmo, e ajude na cozinha. De seguida, lançou inteligente olhar para Bezerra, e continuou a conversação no ponto em que haviam ficado.

Texto: obra de Hilário Silva (espírito) psicografada por Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira. MARÇO.ABRIL.