Opinião (pág. 13)
Jornal de Espiritismo nº 93 · Março 2019Página 134 min
À primeira vista a sua derrota parece impiedosa. Que ele se considere um vencedor e que ainda dê esse exemplo glorioso como motivação para enfrentar as agruras que a vida nos coloca, é uma preciosa oportunidade de reflexão. Todas as épocas têm os seus desafios, mas o contexto social, cultural e político em que Jesus viveu foi particularmente difícil: um país em guerra e novamente ocupado, um povo dividido em tribos que ora se uniam ora se guerreavam, empestado de violência crua, pobreza extrema, fome e doenças terríveis, em que a corrupção económica, política e moral eram formas naturais de estar em sociedade.
Jesus não viveu como ermita, ele viveu como um judeu comum, foi um homem do seu tempo como qualquer outro. Teve a sua família, profissão, vestiu as mesmas roupas, respeitou as tradições e estabeleceu profundas relações de afeto com aqueles que partilharam os seus dias. No entanto, colocado diante dos desafios, dificuldades e seduções que a vida em sociedade lhe impunha, ele soube discernir o que tinha de ser feito, o que era certo e errado, o que lhe era benéfico e prejudicial.
Jesus venceu o mundo porque não se deixou conspurcar por ele, mantendo a integridade dos seus princípios íntimos como pedras basilares da sua vida. Integridade vem do latim “integritas” que significa completo, inteiro. “Para ser grande, sê inteiro”, escreveu Fernando Pessoa. A integridade exige verdade, ser autêntico e fiel a Eu venci o Mundo! si próprio, bem como manter-se eticamente coerente, escolhendo o que é certo em detrimento do que é aparentemente mais fácil ou benéfico.
É necessária uma dose extra de coragem para ser honesto no meio da desonestidade, verdadeiro no meio da mentira, manter-se compreensível no meio da traição e autêntico quando se está rodeado de hipocrisia. Mas sem essa integridade, a sombra do desconforto vai estendendo o seu manto, como se nos faltasse o eixo central que dá estabilidade às nossas vidas. Acabamos impelidos para uma vida ao sabor daquilo que ditam os costumes, as modas, as outras pessoas ou até a sociedade.
Aceitamos ser um pouco desonestos porque “toda a gente o faz”, impiedosos e autoritários porque “é a única forma de ser respeitado nesta vida”, evidenciamos atitudes egoístas porque “é algo perfeitamente normal hoje em dia”. Só que o desconforto não dá tréguas e para o varrer para debaixo do tapete usamos aquilo que aparentemente funciona para o resto das pessoas: o dinheiro, o prazer físico, o sucesso, a procura da beleza, a popularidade, a aprovação dos outros.
É um logro tão grande como tentar ficar confortável vestindo uma roupa dois números abaixo do nosso tamanho. Só é possível com uma elevada dose de dor e fingimento. Vivemos numa gigantesca sociedade de consumo, repleta de estímulos e que se mantém a girar à custa da criação de insatisfação. Desconforto, pois claro. Tentando suprir esta insatisfação ocupamo-nos de muitas coisas, de demasiadas coisas, sem privilegiar o essencial.
Jesus contou uma parábola sobre um comerciante de pérolas que, um dia, ao descobrir uma pérola de grande valor, vendeu tudo o que tinha e comprou-a. O caminho para a integridade passa também por aí: perceber o que é essencial e não o largar, custe o que custar. Há uns anos, esquecido num amontoado de caixas velhas do sótão do avô da minha mulher, encontrei um dos livros mais extraordinários que tive a felicidade de abrir.
Ressurreição, o último grande romance escrito em vida pelo pacifista russo Leon Tolstoi. É um livro notável que trata do caminho de redenção do personagem principal, o príncipe Dimitri Ivanovich, um aristocrata russo. Em jovem, numas férias no campo, seduziu a filha de uma criada que vivia em casa das tias. Já depois de Dimitri regressar a Moscovo, a jovem Máslova ficou a saber que engravidara. Ao tomarem conhecimento do sucedido, as tias colocaram-na fora de casa, foi rejeitada pelos pais, perdeu a criança e tornou-se uma prostituta.
Uns anos mais tarde, acusada injustamente de assassinato, ela é julgada em tribunal e o rico e bem-sucedido Dimitri é um dos elementos do júri. Mesmo reconhecendo - -a e tentando impedir que fosse acusada, ela é enviada para a Sibéria. Só então, Dimitri ficou a conhecer os pormenores do que acontecera depois de deixar a casa das tias e o seu papel naquele desfecho. Um sentimento de culpa irresistível toma conta dele.
Para além de mostrar as injustiças do sistema judicial e criminal russo, o livro trata dos conflitos morais que se estabelecem em Dimitri por se sentir responsável pelo que aconteceu a Máslova. O que ele faz para recuperar do desconforto íntimo revela-se surpreendente, deixando tudo de lado para se concentrar no que era essencial. Já depois de o conseguir, diz ele pela pena de Tolstoi que “a sua serenidade devia-se tão só ao facto de ter deixado de pensar no que lhe poderia acontecer para só atentar no que lhe cumpria fazer.
” Eis uma das mais belas e simples definições práticas para o caminho de serenidade, que não pode deixar de ser o da integridade, a pacificação da relação connosco, com os outros e com o mundo à nossa volta. A paz de espírito é uma conquista daqueles que, aceitando o mundo em que vivem, não permitem que ele determine a sua conduta nem influencie o rumo das suas decisões, orientando a bússola das suas escolhas, não por aquilo que podem ganhar ou perder com elas, mas por aquilo que sabem ser certo.
São esses que vencem o mundo. E por mais exigentes que sejam as dificuldades e os desafios que a vida coloca no nosso encalce, agindo com integridade, sobretudo nos momentos de crise, também nós poderemos sair deste mundo com a certeza de que somamos mais três pontos para o campeonato da evolução. Texto: Carlos Miguel foto pixabay MARÇO.ABRIL.
