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Opinião

Jornal de Espiritismo nº 94 · Setembro 2019Página 134 min

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E por mais repetida que seja a experiência, a frescura e a sensação retemperadora que ela proporciona é quase sempre motivo para um pequeno espanto. Conta a história, que há cerca de 2500 anos, Nabucodonosor, Rei da Babilónia, preocupado com a tristeza profunda que a sua esposa Amyitis manifestava por viver numa terra abrasiva e árida, decidiu construir um conjunto de jardins que recriassem a paisagem bucólica da terra natal da rainha.

Os jardins ficaram então assentes em vários níveis de terraços, repletos de cursos de água e cachoeiras, inundados pelo verde de incontáveis árvores que produziam frutos suculentos como tâmaras e damascos, outras enormes que ofereciam sombra e enfeite como as acácias, salgueiros e carvalhos. O espaço restante era dividido entre caminhos pedestres, imponentes esculturas de animais míticos e coloridos canteiros de azáleas e outras flores.

À volta dos jardins, bandos de pássaros buliam em azáfama, nidificando nas árvores, alimentando-se e bebendo nas inúmeras fontes espalhadas por uma obra de arte que, nos dias de hoje, só conseguimos recriar na nossa imaginação. Erigidos para atenuar a saudade e a tristeza de uma Rainha, os Jardins Suspensos da Babilónia foram, possivelmente, os primeiros jardins terapêuticos da história da Humanidade. Estudando cientificamente algumas práticas que o senso comum do ser-humano já utiliza há séculos, a medicina tem vindo a incorporá-las aos seus recursos terapêuticos, percebendo a vital importância da mente no processo curativo do organismo físico.

No caso específico dos jardins terapêuticos, há algum tempo que se compreendeu a enorme influência do ambiente na recuperação dos doentes. A harmonia da Natureza, os odores intensos e perfumados, a transcendência colorida das flores, os sons mágicos dos pássaros e o canto das folhas ao compasso da brisa, são verdadeiros remédios sem efeitos secundários. Da mesma forma, é conhecido como a degradação ambiental e a privação do contacto com a natureza afetam negativamente a saúde humana.

Em estudos realizados no final do século passado, o professor de arquitetura Roger Ulrich verificou que os pacientes que se encontravam em pós-operatório em quartos com vista para um jardim, tiveram recuperações mais rápidas, com menos complicações e menores doses de analgésicos, do que os pacientes que se encontravam a recuperar de pós-operatório em quartos com vista para uma parede de tijolo. Outros estudos identificaram alívio de stress e ansiedade, bem como recuperação de humor, após os pacientes passarem algum tempo num jardim.

Segundo Ulrich, o contacto com a natureza “promove melhorias no estado emocional do perceptor, conseguindo bloquear ou reduzir pensamentos de preocupação e provocar alterações fisiológicas benéficas, tais como, baixar a pressão arterial e a produção de hormonas de stress”. A medicina tem vindo a incorporá-las aos seus recursos terapêuticos, percebendo a vital importância da mente no processo curativo do organismo físico.

A ciência circunscreve o termo ambiente ao espaço físico que nos envolve, mas o Espiritismo, compreendendo que a vida não se esgota na matéria, possui uma visão ainda mais abrangente deste conceito. O pensamento é energia que irradiamos constantemente. Estas ondas mentais, dinamizadas pela intensidade do que sentimos e da vontade com que o fazemos, estão permanenNatureza terapêutica temente a influenciar o ambiente que nos rodeia.

O nosso comportamento, as nossas atitudes, as palavras, o que imaginamos, o que pensamos e não dizemos, o que criticamos, o que maldizemos, as nossas emoções, a felicidade que sentimos, a alegria que extravasamos, a tristeza alimentada, a raiva incontida, tudo isso são fenómenos energéticos que o nosso pensamento exterioriza, criando vibrações mentais e formas pensamento que modelam o espaço em que nos encontramos. Através do pensamento, somos decoradores de interiores para ambientes espirituais.

Somos arquitetos paisagísticos do mundo invisível: Podemos decorá-lo com cores vibrantes, sensações de alegria, alimentadas pela força da nossa confiança e pinceladas de serenidade, ou então empestamo-los com um aspeto descuidado, sombrio, reforçando o temor, o ressentimento e a tristeza. Em todos os lugares em que nos encontramos poderemos ser uma boa ou má influência para o meio que nos envolve apenas pela qualidade e intensidade do que pensarmos e sentirmos.

Como nos locais em que nos movimentamos ainda predominam sobretudo pensamentos e sentimentos pouco sublimados, o contacto com locais onde predominam as energias neutras da natureza torna-se um bálsamo para corpo, mente e espírito. A sensação é muito parecida à de nos banharmos numa cascata de água fresca e cristalina após uma caminhada de vários quilómetros debaixo de sol. Numa época de degradação ambiental, a preservação de espaços de contacto com a natureza deverá ser cada vez mais uma preocupação.

Ao abandonarmos locais impregnados de emoções mais ansiosas e interagindo com os ambientes saudáveis e refrescantes que a natureza nos proporciona, abundante em vitalidade, oxigénio, harmonia e beleza, ficamos com melhores condições para transformar o estado anímico, libertando endomorfinas que aumentam a sensação de bem-estar e modificando a sintonia espiritual. Aproveite o bom tempo, passeie e divirta-se. Por Carlos Miguel Aproveitando as manhãs ensolaradas que os domingos de março proporcionaram, certamente que o leitor não deixou passar a oportunidade para dar um passeio à beira-mar ou deambular por algum dos parques e jardins que as nossas cidades procuram preservar.

foto loucomotiv MAIO.JUNHO.