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Jornal de Espiritismo nº 94 · Setembro 2019Página 126 min
Muitas vezes o conceito da evolução ou progresso da humanidade coloca-se tendencialmente numa perspetiva científica e tecnológica. Da pedra lascada aos microprocessadores, da observação ancestral dos fenómenos celestes às viagens espaciais, da alavanca à robotização, da gestação do método científico às conquistas da ciência, o progresso parece ser interpretado primordialmente, na sua componente mais material.
Raras vezes o ser humano reflete esta trajetória evolutiva na substância do pensamento ético individual ou coletivo que no fundo estabelece uma referência da nossa relação com o universo. Poderemos considerar que o percurso ético da humanidade tem seguido uma linha evolutiva idêntica ao progresso científico e tecnológico? Segundo a lei do progresso, estas duas formas evolutivas não caminham lado a lado, e enquanto o progresso científico e tecnológico atingiu um grau considerável, ao progresso ético falta muito para atingir esse nível (ver questão 785 de «O Livro dos Espíritos»).
Apesar deste desfasamento, desde tempos recuados que foram enviados espíritos geniais que deixaram as suas ideias para o enriquecimento ético da humanidade. Sem esquecer de forma alguma, dois vultos da filosofia setecentista cujas ideias se constituíram como percursoras da filosofia espírita, Emanuel Swedenborg (1688-1772) e Immanuel Kant (1724-1804), que deixaremos para outra oportunidade, dedicamos este artigo ao autor do «Manual de Xefólius», obra referenciada no catálogo racional das obras para se constituir uma biblioteca espírita.
Esta obra foi publicada em 1788 com uma tiragem de apenas 60 exemplares, sendo muito desconhecida dos domínios da filosofia, da ética e até das instituições espíritas. Segundo o catálogo racional de Kardec esta obra expõe um vasto conjunto de princípios éticos notavelmente concordantes com os do espiritismo. A relevância do estudo desta obra foi demonstrada pela sua referenciação na «Revista Espírita» de agosto de 1865, publicando que se trata de uma nova prova da fermentação das ideias esManual de Xefólius: precursor setecentista do espiritismo píritas.
Não reflete uma apresentação de pensamentos esparsos, mas antes um conjunto de instruções plasmadas na doutrina espírita. Já Allan Kardec tinha referido que os grandes pensamentos que assentam sobre a verdade têm os seus percursores que vão paulatinamente desbravando o caminho. Apesar da obra ser atribuída a Louis Félix de Wimpfen, tal como aparece nas edições atuais, o seu autor revelou-se numa reunião mediúnica, ocorrida em 29 de junho de 1865, na Sociedade Espírita de Paris: «Eu não fui Félix de Wimpfen, creiam-me; se o fosse, não hesitaria em dizê-lo (...)
quando me evocardes especialmente eu me farei reconhecer; mas se eu vier instruir-vos como no passado, apenas me reconhecerão como um dos espíritos da Ordem de São Luís». A análise do conteúdo do «Manual de Xefólius» merece uma atenção muito particular, pois o seu autor é sem dúvida, um dos precursores setecentistas da doutrina espírita. Esta obra foi publicada em 1788 com uma tiragem de apenas 60 exemplares, sendo muito desconhecida dos domínios da filosofia, da ética e até das instituições espíritas.
A obra começa por formalizar uma grande questão: «Perguntei-me um dia, por que via chegaste tu a pensar como tu pensas? Quais são os acontecimentos, os prazeres, as dores morais que modificaram o teu sentimento e determinaram a tua opinião?». Esta pergunta está em sintonia com a necessidade do ser humano perseguir o seu progresso nas suas vertentes, moral e intelectual. A conformação da alma ou a modificação da forma de pensar deve estar em consonância com o que o autor chama de «ponto harmonioso».
Diz-nos o autor que a criação deu-nos por guias, a razãoeo sentimento para serem concordantes, porque cumprindo - -se este propósito, esconde-se uma verdade imutável. Esta concordância entre a razão (intelectual) e o sentimento (moral) é o «ponto harmonioso», cujo limite sendo ultrapassado, somente nos traz incerteza, problemas e confusão. O autor considera uma prova de sabedoria, a consulta prévia ao «ponto harmonioso», antes de se agir; uma prova de ciência quando conhecemos os nossos deveres; uma prova de força quando o interesse magno é o do sentimento, para vivermos e morrermos de acordo com as nossas leis, porque assim é a virtude, o segredo da felicidade e da saúde.
Nas suas palavras, a virtude é uma alavanca do sentimento, pois considera que quem não ama a virtude, não sabe odiar o vício. Como vem explicitado em «O Livro dos Espíritos», questão 278, neste mundo de pálido reflexo, «a virtude eovício acotovelam - -se sem trocarem palavra». Sublinhamos neste ponto que nunca é demais reforçar o conceito de virtude, como uma disposição constante do espírito para discernir entre o bem e o mal.
O «Manual de Xefólius» fala-nos das consequências sobre a ignorância do «ponto harmonioso». Retrata as pessoas dotadas de uma sensibilidade brilhante, que se encontram muito próximas do limite da sua modificação ou transformação moral, mas que ainda se encontram desorientadas pelos logros do espírito e, desgastadas de acessórios insuficientes, revoltadas pelas discordâncias sociais, não encontram satisfação, repouso e refúgio neste mundo supurativo, culminando no recurso ao suicídio, tão simplesmente porque ignoraram o «ponto harmonioso».
O autor desperta para o estudo da natureza do nosso ser, como lembrando a máxima de Sócrates (séc. V a. C.) «Conhece-te a ti mesmo», para nos tornarmos mais ricos, usufruindo da calma nascente em nossos corações e vislumbrarmos a beleza e a satisfação na nossa natureza, para afirmar: «na minha velha distração eu me indispunha por tudo e, hoje tudo me sorri, tudo me lisonjeia, tudo me acolhe». Encoraja - -nos a fazermos a revisão da nossa jornada antes de adormecermos, para reconhecermos as faltas cometidas e agradecermos a Deus as graças que nos foram doadas.
Diz-nos também que é necessário reverter a nossa ignorância e os nossos preconceitos, observar os nossos semelhantes, estudar «o ponto harmonioso», porque assim não tardaremos a reconhecer o sol da verdade nas suas aparências tenebrosas. Ainda sobre o «ponto harmonioso», o autor refere que podemos adquirir a ciência e estabelecer a nossa própria maneira de reconhecer essa harmonia entre a razãoeo sentimento, em redor do qual andaram os filósofos antigos, mas de onde os filósofos modernos estão tão afastados.
Exemplifica com o bom génio de Polemo (séc. IV-III a.C.), um mestre da Academia de Platão, o qual afirmava que «a filosofia deve ser praticada e não apenas estudada e o maior bem era viver de acordo com a natureza». Também recorre ao exemplo de Epicteto (séc. I-II) quando este se dirigiu ao deus romano Júpiter, apelando à moderação, à justiça, à bondade, ao amor, à confiança, à resignação, à esperança, ao pensamento sobre a brevidade da vida, ao sentimento do nosso destino infinito, para buscar as ligações da harmonia e da felicidade.
O autor do «Manual de Xefólius» exorta o valor da harmonia individual e social, alicerçados pelo amor e justiça porque nada é bom para o homem que não seja parte da harmonia. E adianta que sem a harmonia, o desespero instala-se e aumenta o sofrimento, mas com a harmonia vem a resignação que o suaviza e, é ainda por isso que devemos desprezar as lamentações inúteis, quando admiramos um doce silêncio. O autor faz insistentemente emergir a importância do conhecimento da natureza do nosso ser e do ponto harmonioso, porque a ignorância, na qual vive a maior parte dos seres humanos, induz evidências para uns, enquanto absurdos para outros.
No fundo pretende transmitir como são diversos os graus de modificação onde chegaram todos os seres humanos. Os pontos de encontro desta obra com a doutrina espírita são múltiplos, que não seria possível explanar neste breve artigo. Para uma elucidação mais ampla desses princípios constantes ao longo da obra, citamos a lei da caridade e piedade, as reminiscências das existências passadas, as leis consubstanciadas na ação - -reação, a importância da indulgência nas relações sociais, a severidade e repulsão do orgulho, a lei do amor, a influência que temos uns sobre os outros e a sua ação no fluido universal e a necessidade do equilíbrio das paixões, tal como vem interpretado na questão 908 de «O Livro dos Espíritos»: «As paixões são como um corcel [cavalo de batalha], que só tem utilidade quando governado e que se torna perigoso desde que passe a governar».
Quando citamos o autor do «Manual de Xefólius», seja Louis Félix de Wimpfen ou simplesmente um membro da Ordem de São Luís, estamos perante um espírito de elevada dimensão moral e intelectual, que nos deixou esta preciosidade bibliográfica, autêntico tratado prático de ética, cujos princípios estão harmonizados com os da doutrina espírita. Texto: Carlos Paiva Neves foto arquivo MAIO.JUNHO.
