94 — índice de conteúdos

Saúde

Jornal de Espiritismo nº 94 · Setembro 2019Página 56 min

Partilhar
Idioma

Essa abstração permite que vivamos como se a morte só fosse real para os outros – para os que vão morrendo. Nessa ilusão muitos dirigem a sua força, a sua inteligência e a sua energia para as conquistas puramente terrenas, até que a decrepitude ou uma doença lembre a sua inevitabilidade. Pode-se morrer de repente e nessas situações não se tem tempo de pensar e preparar a morte, mas, na maior parte dos casos, há um processo mais ou menos prolongado que culmina com a morte que se faz acompanhar pelo sofrimento.

E, apesar do sofrimento ser uma experiência única e individual, podem identificar-se, de forma geral, várias dimensões do sofrimento perante uma situação ameaçadora da vida (Clark 1999). A dimensão física do sofrimento pode ser a mais visível e carece de uma atenção imediata para o seu alívio. O controlo de sintomas é prioritário e, muitas vezes, só quando ele é eficaz é que emergem as outras dimensões do sofrimento que, simbolicamente, podem ser comparadas à zona submersa de um icebergue que sabemos ser muito maior que a sua parte imersa.

Assim, existe uma dimensão psicológica do sofrimento, sendo a sua expressão muito variável e modificável no decurso do tempo. A tristeza, a labilidade emocional, a depressão, a ansiedade, as perturbações do sono, a raiva e a revolta são algumas das suas manifestações e esta dimensão é bem mais complexa do que a dimensão física. A dimensão social é outra dimensão do sofrimento, muitas vezes negligenciada, que se relaciona com a perda de papéis – perda do papel profissional – ontem era uma pessoa reconhecida na sua profissão e agora é “apenas” um doente, por vezes é quase só uma doença despida da sua identidade de pessoa – é o doente da cama 30 ou o doente do cancro do estômago; perda de papel na família enquanto cuidador, enquanto esteio afetivo ou económico; perda de papel em diferentes atividades sociais, perda da sua imagem física ou intelectual.

Por fim, existe ainda a dimensão existencial do sofrimento – o confronto com a proximidade da morte leva a uma análise retrospetiva da vida e muitas vezes surgem ou reacendem-se questões dolorosas, objetivos não atingidos, atitudes e opções de que se arrepende; surgem questões sobre o momento que se está a viver e uma busca da sua causa; surge o medo do que irá acontecer – medo de sofrer mais, medo do desconhecido, medo da morte, medo do que poderá estar para além dela.

Perante a proximidade da morte e do sofrimento nestas diferentes dimensões torna-se essencial encontrar um sentido, porque sofrer não é o que mais custa – o que mais custa é não encontrar um significado, um sentido para o sofrimento. Quando se possui ou quando se encontra um significado, o sofrimento torna-se suportável. Como encontrar um significado para a vida e para a morte? Todas as grandes tradições espirituais do mundo dizem explicitamente que a morte não é o fim.

Todas elas nos transmitem uma ideia de algum tipo de vida futura para além da morte física. Mas apesar destes ensinamentos por vezes deixamo-nos viver num deserto espiritual, onde se acredita que a Terra e a vida física é tudo o que existe. Sem nenhuma fé na vida depois da morte pode ser difícil reencontrar um significado para viver o processo de morrer (Rinpoche 2016). A consciência da sobrevivência da alma permite encontrar um sentido para a vida e para a morte.

Essa compreensão é um potente instrumento para lidar com a nossa finitude física e com a finitude dos que amamos auxiliando no cuidar. A consciência da sobrevivência da alma permite encontrar um sentido para a vida e para a morte. Hoje o efeito positivo da espiritualidade/religiosidade na saúde e na doença, de uma forma geral, já está bem documentado. Muitos são os artigos publicados sobre o assunto e a sua grande maioria concluiu, de forma inequívoca, existir um efeito positivo da espiritualidade/religiosidade do doente e dos familiares na vivência de situações de fim-de - -vida (Bryson 2004) .

É interessante salientar que alguns artigos já analisam questões mais específicas como seja a influência de experiências espirituais na fase de fim-de-vida. Esses artigos concluem que os doentes que passaram por esse tipo de vivências atingem uma grande pacificação e bem-estar interior perante a proximidade da morte (Fenwick, Lovelace et al. 2010) (Renz, Reichmuth et al. 2018), com certeza pela maior consciência da sobrevivência da alma que essas experiências lhes permitiram.

Estes estudos contribuem para a busca de provas sobre a sobrevivência da alma e essas provas vão fortalecendo os que vivem a proximidade da morte, os que se despedem daqueles que amam, mas também podem fortalecer os que, apesar de ainda viverem na abstração e na incerteza da sua hora, a sabem certa. Sabendo que todos morremos, estas são provas que nos trazem coragem e alento para seguir em frente, com a consciência que morrer é apenas deixar de ser visto, é uma curva na estrada como disse Fernando Pessoa.

Mas se ao exposto ajustarmos o conhecimento trazido pela doutrina espírita o que se pode acrescentar? Se a espiritualidade nos dá uma ideia de algum tipo de vida futura para além da morte física e se a ciência nos vai trazendo algumas evidências, a doutrina espírita traz-nos um alicerce sólido, baseado na lógica, sobre a sobrevivência da alma. Assente no raciocínio filosófico e numa metodologia de experimentação científica, traz evidências sobre a existência de Deus, sobre a imortalidade da alma, sobre a comunicabilidade dos espíritos, sobre a pluralidade dos mundos habitados, sobre a lei de causa e efeito e, assim, mais do que o consolo da sobrevivência orienta moralmente a nossa existência terrena.

“Abençoado aquele que mesmo sem ver crê, mas ai daquele que mesmo vendo não crê”. Jesus Texto: Maria Paula SilvaAME Norte Referências: Arantes, A. (2005). “Tratamento da dor e assistência ao sofrimento: resgate da humanização do cuidar.” Rev Prática Hospitalar 41(7): 80-84. Bryson, K. A. (2004). “Spirituality, meaning, and transcendence.” Palliative & supportive care 2(3): 321-328. Clark, D. (1999). “Total pain’, disciplinary power and the body in the work of Cicely Saunders, 1958–1967.

” Social science & medicine 49(6): 727-736. Fenwick, P., et al. (2010). “Comfort for the dying: five year retrospective and one year prospective studies of end of life experiences.” Archives of gerontology and geriatrics 51(2): 173-179. Mazzarino-Willett, A. (2010). “Deathbed phenomena: its role in peaceful death and terminal restlessness.” American Journal of Hospice and Palliative Medicine® 27(2): 127-133. Morita, T.

, et al. (2016). “Nationwide Japanese survey about deathbed visions:“my deceased mother took me to heaven”.” Journal of pain and symptom management 52(5): 646-654. e645. Osswald, W. (2016). Sobre a morte e o morrer, Fundação Francisco Manuel dos Santos. Renz, M., et al. (2018). “Fear, Pain, Denial, and Spiritual Experiences in Dying Processes.” American Journal of Hospice and Palliative Medicine® 35(3): 478-491. Rinpoche, S.

(2016). O livro tibetano da vida e da morte, Editorial Presença. Apesar de sabermos que a morte é certa, a hora e o modo como ela chegará é incerta e essa incerteza, dá-lhe um carácter abstrato e impessoal, tal como acontece com as certezas que dizem respeito às verdades cósmicas – sabemos que a Terra gira em torno do Sol e que a Lua é um satélite da Terra, mas essas certezas não fazem parte do nosso pensamento e do nosso sentimento quando contemplamos o pôr-do-sol ou o luar de uma noite de verão.

(Osswald 2016) foto pixabay MAIO.JUNHO.