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Memória

Jornal de Espiritismo nº 95 · Maio 2019Página 154 min

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Sem fazerem caso do apelo do rei, uns foram para os campos, outros para os seus negócios e alguns ousaram insultar e até matar os mensageiros reais. O rei indignou - -se. Enviou as tropas, matou aqueles assassinos e incendiou-lhes a cidade. Disse depois aos servos: “O festim está pronto. Ide às encruzilhadas e convidai para as bodas todos quanto achardes.” Dessa forma, a sala do banquete ficou repleta de convidados.

O rei entrou no recinto e viu ali um homem que não trazia a veste nupcial. Perguntou - -lhe: “meu amigo, como entraste aqui sem a veste nupcial?” O homem não proferiu palavra alguma. Disse então o rei aos servos: “Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes. Porque muitos são os chamados, e poucos os escolhidos.” Lida de uma forma literal, a parábola do Grande Banquete parece incorporar a ideia de um Deus cruel e impiedoso.

De uma forma simplista, ouvimo-la ser truncada à sua última expressão, repetida quase como uma ameaça velada a todos os que se mantêm renitentes em ouvir o que “Deus quer”. Durante muito tempo esta história causava-me confusão. A violência nela existente não se compadecia com um Deus sábio, justo e paciente. Mesmo reconhecendo a linguagem simbólica utilizada, estranhava a possibilidade de Deus se mostrar seletivo. A imagem que me vinha à cabeça era de quando, em catraio, nos encontrávamos na rua para jogar à bola e se começava a escolher à vez aqueles que formariam as equipas.

Os últimos a serem escolhidos eram os mais desajeitados e, quando havia mais meninos do que lugares disponíveis, eram esses que ficavam de fora. A expressão dos preteridos, às vezes resignados, outras vezes tristes, zangados ou desiludidos, perseguia-me quando pensava no grande banquete. E se na vida eu não fosse um escolhido? O que era preciso para envergar a veste nupcial? Como é que Deus tinha coragem de escolher para o seu reino só os melhores e rejeitar os andrajosos e desastrados que trocavam os pés pela vida fora?

Se os meus pais me passavam umas gáspeas quando eu fazia as costumeiras patifarias mas, daí a pouco, já riam comigo, me acarinhavam e permitiam que me sentasse à mesa com eles, porque é que Deus se mostrava tão severo e intransigente? Com os anos, as minhas reflexões sobre esta parábola foram amadurecendo e a forma como entendo o reino também. Fui aprendendo que é indispensável libertar Deus da nossa limitada e pobre humanidade, como escreveu Agostinho da Silva.

Deus não privilegia ninguém, Deus não tem prediletos. Os primeiros a quem o convite foi estendido talvez representem os que teriam melhores condições para entender o que era o Reino mas que, tantas vezes, ainda se mantêm iludidos por alguma forma de materialidade, prisioneiros do egoísmo, da soberba ou do conformismo. A própria vida conspirará para que aprendam a reconhecer os apelos mais sublimes, às vezes das formas mais difíceis.

Todos são convidados para o reino de Deus. O Reino não é um lugar elitista lá de cima onde seguranças nos perguntam pelas credenciais dos eleitos divinos. O reino de Deus realiza-se em toda a criação. As suas sementes foram plantadas na Terra e crescem entre os homens. Mas para desfrutar desse reino não basta ser convidado, é preciso estar preparado para ele. Envergar as vestes nupciais é a simbologia para essa preparação: conquistarmos a lucidez e consciência da graça que nos envolve, a atenção e sensibilidade para desfrutar dela em plenitude e a motivação para irmos além dos nossos condicionalismos agindo pelo que é certo.

Sem estas vestes nupciais, enfatuados nas vulgares perturbações dos dias, caminharemos em pleno reino sem nos apercebermos por onde andamos. Cada vez mais modernos, seguindo sempre as tendências das modas, multifacetados, As vestes nupciais Naquele tempo, Jesus contou uma história em que comparou o Reino dos Céus a um rei que celebrava as bodas do seu filho. Entusiasmado, o rei enviou os seus servos para chamar os convidados, mas eles não quiseram ir.

munidos de aparelhagens tecnológicas tendencialmente mais poderosas, vivendo em modo multitarefa, a sociedade parece que está também cada vez mais dependente, exausta e insatisfeita. A vida parece gerida ao sabor do imediato, com cada vez menos sensibilidade e, sobretudo, tempo para o processo de introspeção interior. Torna - -se uma vivência sufocada pelas vidas que escolhemos viver e nada pode estar mais em contracorrente com o que é necessário para tecer as vestes nupciais.

Precisamos de tempo e sensibilidade para reconhecer a centelha divina que se elabora em nós. Não menos importante, é indispensável aprender a ter olhos que enxerguem essa centelha nos outros, compreendendo que mesmo em suas limitações e dificuldades, são projetos divinos em elaboração. É sobretudo sermos capazes de compreender a vida como um laboratório de Deus com vista à sublimação dos seus filhos, ensinando-os a distinguir o acessório do essencial e empurrando-os para uma sabedoria que os estimule a escolher melhor, a agir melhor e a viver melhor.

Enquanto não nos apresentarmos com os melhores trajes de cerimónia para o banquete do Reino, ainda viveremos confusos e iludidos, corroídos pela perturbação e pela consequência das próprias ações. Não é má vontade divina, apenas um mecanismo transformador e de aprendizagem para que um dia possamos brilhar resplandecentes. Por Carlos Miguel foto pixabay Fui aprendendo que é indispensável libertar Deus da nossa limitada e pobre humanidade, como escreveu Agostinho da Silva.

Deus não privilegia ninguém, Deus não tem prediletos. JULHO.AGOSTO.