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Opinião

Jornal de Espiritismo nº 96 · Setembro 2019Página 135 min

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São quase cinco detenções por dia. Cerca de 70% dos casos estão relacionados com violência no contexto de uma relação amorosa e em que as mulheres são as vítimas, existindo alguns casos em que é o homem que sofre violência e também casos de violência sobre idosos e sobre crianças. A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), através da sua Rede de Apoio a Familiares e Amigos de Vítimas de Homicídio, publicou no seu relatório anual que em 2018 existiram 87 casos de homicídio em Portugal, sendo que em cerca de 37% dos casos existia uma relação de intimidade entre vítima e agressor.

Será possível erradicar a violência da nossa sociedade sem antes eliminar os gérmenes dos comportamentos agressivos que existem dentro do círculo da intimidade? A 3.ª parte de «O Livro dos Espíritos» trata das Leis Morais, leis divinas ou naturais que regem o universo. Uma dessas leis é a Lei da Sociedade, que estabelece um conjunto de princípios de relacionamento, mostrando como eles são preciosos para potenciar o crescimento e desenvolvimento saudável a nível mental, intelectual e espiritual.

Fomos e somos moldados pelos nossos relacionamentos. Para o ser-humano, o contacto com o outro não é uma escolha, é uma necessidade, já que se sabe que o isolamento social provoca alterações biológicas que deterioram a saúde do corpo, tornando-o mais suscetíveis a infeções, cancro e doenças mentais. O isolamento é tão penalizador que se torna insuportável. Os críticos das celas solitárias, usadas como uma punição para os encarcerados que violam as regras dos estabelecimentos prisionais, referem-se a esse castigo como uma “tortura psicológica”.

A Amnistia Internacional tem-se batido pela abolição desta prática que devora as suas vítimas sem piedade, conduzindo à alienação quando é prolongada no tempo. A presença de um outro é tão indispensável que, crescendo sem referências ou com referências desequilibradas, o próprio desenvolvimento se torna desestruturado. Vejam - -se os casos documentados de crianças selvagens, que por algum motivo cresceram apartadas do convívio social.

Sem referências sociais em momentos críticos das suas fases de crescimento, elas não assumiram a postura corporal dos seres humanos, o desenvolvimento mental permaneceu atrofiado e não foram capazes de desenvolver a linguagem. Perderam algumas das características que associamos à condição humana. Todas as relações que estabelecemos, quer seja no trabalho, na comunidade, com os amigos ou na família, são extraordinariamente ricas nessa capacidade de estimular o nosso progresso.

E quanto mais profundos e íntimos forem os laços de relacionamento, maior é a sua força para serem enriquecedores na nossa vida. No entanto, nem sempre as nossas relações são saudáveis. Aliás, alguns dos principais problemas que afetam os nossos dias estão relacionados com relações perturbadoras que sugam as energias, alimentando emoções do espectro mais negro como raiva, humilhação, ansiedade, medo, vergonha, frustração e angústia.

Quando estas relações tóxicas ocorrem num contexto de intimidade, o potencial destruidor é de efeitos imprevisíveis. A tendência para a dominação, controlo e manipulação ainda prevalecem na forma como as pessoas se relacionam, mesmo com aqueles que dizem amar e, em alguns casos dramáticos, isso chega até à forma de agressões verbais, físicas ou emocionais Como espíritos imortais que somos, possuímos um passado em vidas sucessivas em que nos relacionamos das formas mais díspares que conseguirmos imaginar.

Se os relacionamentos de hoje são particularmente exigentes, repletos de desafios por vezes maiores do que a nossa capacidade para os resolver, no passado as coisas não foram melhores. Pelo contrário, em sociedades mais brutalizadas, autoritárias, dogmáticas e repressoras, os relacionamentos eram também eles orientados por esses princípios. Se em pleno século XXI ainda andamos à procura de incorporar os princípios O fim da violência de justiça, igualdade e respeito pelas diferenças na forma como nos relacionamos com os outros, mesmo em intimidade, em diferentes épocas do passado isso era algo muito mais insipiente.

O mais forte e poderoso dominava e subjugava física e emocionalmente os restantes, criando uma dualidade opressores/oprimidos. Em reencarnações passadas, fomos percorrendo esse longo caminho, às vezes opressores, outras vezes oprimidos, gravando no psiquismo essas experiências perturbadoras de dominação que ainda hoje condicionam a forma como se desenrolam os relacionamentos e que são expressos através do medo, da desconfiança, ciúme, possessividade, inveja e, infelizmente, por vezes também através da agressividade e da violência.

A tendência para a dominação, controlo e manipulação ainda prevalecem na forma como as pessoas se relacionam, mesmo com aqueles que dizem amar e, em alguns casos dramáticos, isso chega até à forma de agressões verbais, físicas ou emocionais. A violência é uma doença da alma ainda entorpecida em padrões comportamentais do passado, perturbada em si mesmo e incapaz de purgar de outra forma as emoções corrosivas que lhe conspurcam a mente.

Produto da ignorância, resquício dos instintos agressivos da animalidade, a violência só pode ser eliminada através da educação e de hábitos comportamentais como o respeito por todos e a adoção da não-violência como um princípio inabalável em qualquer situação. Essencialmente educativo, o Espiritismo convida-nos ao amor e ao conhecimento que ajudarão a modular uma nova mentalidade entre os homens. Apesar do alarmismo de alguns noticiários, a violência tem uma predominância cada vez menor na nossa vida e no nosso mundo.

Não havendo qualquer justificação para o seu uso, seja em que situação for, e reconhecendo a necessidade de nos batermos pela sua extinção o mais rápido possível, precisamos ao mesmo tempo compreender que ainda nos encontramos a dar os primeiros passos em relações livres, saudáveis, de respeito mútuo e que têm como base fundamental a confiança, a igualdade e o amor. Aos poucos, adquirindo experiência em relacionamentos assentes nestas bases, sentindo e saboreando a riqueza de emoções e sentimentos que elas têm para nos oferecer, novos hábitos serão criados e as raízes da agressividade tenderão a mirrar e a ser uma exceção no quotidiano das nossas sociedades.

Por Carlos Miguel Segundo o jornal «Público», desde o início do ano e até ao dia 10 de maio, a Polícia de Segurança Pública e a Guarda Nacional Republicana detiveram 618 pessoas na sequência de processos relacionados com violência doméstica. foto pixabay SETEMBRO.OUTUBRO.