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Opinião (pág. 16)

Jornal de Espiritismo nº 96 · Setembro 2019Página 165 min

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Por séculos e séculos o Homem procurou em vão uma fórmula mágica ou um poder Divino que fosse capaz de o libertar das amarras da doença e da morte, transformando-o num ser feliz, perfeito e eterno, não percebendo que, afinal, ele tinha sido criado com o destino marcado de atingir a perfeiçãoea felicidade, e que dispunha de um tempo eterno para o conseguir. Mas os apelos da matéria, apesar das repetidas experiências, fizeram- no esquecer a sua Essência Divina e a procurar externamente o que só no seu íntimo poderia encontrar – a felicidade, resultante da conquista progressiva e laboriosa de qualidades e virtudes, num processo de mudança constante alicerçado no autoconhecimento e autoaperfeiçoamento.

Atualmente, o Homem está cada vez mais consciente da necessidade de percorrer esse caminho interno de mudança, mas tem também consciência do quanto ele oferece resistência e dificuldade – por mais simples que pareça ser uma mudança, esta confronta-se com quedas e falhas que muitas vezes levam ao desânimo. Por isso, o propósito deste pequeno texto é relembrar que todos os caminhos de mudança são atravessados pelas montanhas milenares dos nossos erros e imperfeições e que atingir a meta implica ultrapassar essas montanhas, o que exige esforço e perseverança.

Se desistirmos nunca conseguiremos ver a paisagem serena da dificuldade vencida. Consciente das dificuldades de transformação do ser humano, Allan Kardec escreveu: “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.” Não disse que o verdadeiro espírita tinha de ser perfeito, nem tão pouco que tinha de vencer suas imperfeições, mas que tinha de se esforçar para as vencer, pressupondo, desta maneira, que seria um processo com dificuldades e quedas a exigir esforço constante.

O Prof. Doutor Bruce Lipton, biólogo, no seu livro “A biologia da crença”, escreve sobre esta questão, afirmando que para cada decisão consciente, existem milhares de informações a nível do subconsciente que dificultam a sua concretização. Também o Prof. Doutor Pedro Calabrez, neurocientista, aborda esta questão dentro da sua área de estudo e faz 10 sugestões concretas para ajudar a vencer a dificuldade de mudança, tendo em conta as características da mente e cérebro humano: Consciente das dificuldades de transformação do ser humano, Allan Kardec escreveu: “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.

” 1) A 1.ª dificuldade que ele aponta como obstáculo à mudança é “confiar na vontade imediata” – segundo este neurocientista, é fundamental termos consciência da existência de uma vontade imediata que apela à inércia e à acomodação e que é necessário contrariar partindo para a ação especifica de acordo com a decisão. 2) A 2.ª dificuldade é a confusão frequente entre sonhos, objetivos e metas – podemos sonhar, é preciso sonhar, mas para a concretização de um sonho, que pode ser uma mudança interna, é necessário estabelecer objetivos e pequenas metas muito concretos.

Conforme as metas se vão cumprindo avança-se nos objetivos. 3) O 3.º obstáculo é não reconhecermos os gatilhos dos nossos hábitos – se sabemos que uma determinada situação vai despoletar uma ação que não desejamos por constituir um obstáculo à mudança, então devemos evitar esses gatilhos, pelo menos enquanto não temos o domínio sobre a situação. 4) O 4.º obstáculo é o autoengano – apesar de, à primeira vista, parecer mais fácil mudar um comportamento do que uma crença, uma vez que estas frequentemente têm raízes muito antigas, constata-se que acontece o contrário – somos capazes de mudar uma crença para apoiar um comportamento e assim permanecermos na nossa zona de conforto.

Mas o mundo não muda com crenças e vontades, mas com ações. Se se quer mudar tem de se dar o primeiro passo – curto, mas firme. 5) O 5.º obstáculo é culpar os outros pelas coisas negativas que acontecem na nossa vida. Isto não quer dizer que não haja pessoas e circunstâncias que estejam a interferir negativamente foto pixabay Crença e comportamento: o desafio de melhorar nos nossos propósitos, mas como não conseguimos atuar sobre essas variáveis, depois de as identificarmos, temos de ter a serenidade de pensar e agir de acordo com o que depende de nós.

6) O 6.º obstáculo é não ter foco – vivemos numa sociedade com muitos estímulos, mas se pretendemos mudar temos de aprender a dizer não e mantermos o foco no nosso propósito – disse-nos Jesus: “seja o teu falar sim, sim, não, não”. 7) A 7.ª dificuldade assinalada por este neurocientista é o medo ou vergonha de se mostrar vulnerável e em consequência não pedir ajuda. A sociedade atual criou uma ideia de falsa felicidade, de tal forma que quando estamos com problemas sentimos ser sinal de fraqueza.

Mas, na verdade, todos somos vulneráveis e não devemos esconder as nossas dores. Falarmos das nossas dores, das nossas dificuldades é ainda um exercício de humildade perante Deus e perante o nosso próximo. 8) O 8.º obstáculo é o medo de dizer adeus – muitas vezes temos consciência que determinadas situações nos fazem mal, que nos estão a prender, mas temos dificuldade em libertar-nos das âncoras que nos prendem, quantas vezes por apego ou por não querermos sair da nossa zona de pseudoconforto.

É preciso ser capaz de dizer Adeus. 9) O 9.º obstáculo é achar que o conhecimento é suficiente para a transformação. O conhecimento sem ação é vazio. O conhecimento sem amor não chega para mudarmos. Allan Kardec nos adverte dizendo: “Amai e instruí-vos”. 10) O último obstáculo é ficarmos presos na comparação com os outros em vez de nos compararmos connosco –olhemos para nós e comparemos a cada dia quem somos hoje com o que fomos ontem e façamos a análise justa do caminho da nossa mudança.

Eis, assim, a lista adaptada de sugestões de ajuda enunciadas pelo Prof. Doutor Pedro Calabrez, lembrando a frase de Jesus: “Ajuda-te que o céu te ajudará”. Texto: Maria Paula SilvaAME Norte Bibliografia: O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec. CANAL CASA DO SABER, Pedro Calabrez. A biologia da crença, Bruce Lipton. A proposta da doutrina espírita é, sem dúvida, uma proposta de esperança – não de esperança nos milagres de Deus, mas sim de esperança num “milagre” que está ao alcance de cada um de nós: ser feliz.