Consultório
Jornal de Espiritismo nº 97 · Setembro 2019Página 43 min
foto pixabay Retratado nas artes, na literatura, nas ciências humanas, foi fazendo parte da tradição intelectual do Ocidente e foi descrito por Friedrich Nietzsch, na obra “A Vontade do Poder” . As primeiras ocorrências do termo remontam à Revolução Francesa, quando foram definidos como “niilistas” os grupos que não eram nem a favor nem contra a Revolução. Por outro lado, indo além da pretensa paternidade do termo atribuída ao escritor russo TURGUENIEV, no livro “Pais e Filhos”, o primeiro uso propriamente filosófico do conceito ocorreu no final do século XVIII.
Esse mesmo vazio existencial pode ser vivido de diversas formas, e qualquer um de nós pode ser confrontado em algum momento da nossa vida com uma circunstância que nos pode levar a equacionar o valor da nossa existência. Muitas vezes este valor é posto em causa quando experienciamos uma vivência subjetivamente sentida como catastrófica, de perda, de dor emocional; ou por um sofrimento mantido; ou mesmo de falta de perspetiva de solução para os problemas, como a morte prematura ou inesperada de algum ente querido que nos parece tirar o sentido da vida, muitas vezes sentida como um sentimento de vazio ou mesmo falta de sentido existencial.
O Niilismo ainda pode ser entendido como um “movimento positivo” quando pela crítica nos convoca diante da nossa própria liberdade e responsabilidade perante a vida, agora não mais garantidas, nem sufocadas ou controladas por coisa alguma. Mas, também pode ser entendido como um “movimento negativo” - quando nesta dinâmica prevalecem os traços destruidores, da incapacidade de avançar, da paralisia, do “vale-tudo”, como descrito por Dostoiévski.
No conceito do niilismo existencial, “A vida é sem sentido, propósito ou valor intrínseco”. E postula que um único ser humano ou mesmo toda a espécie humana é “insignificante, sem propósito e irrisória”. O que é um contra-senso face aos valores espiritualistas, perante aos quais tudo na vida tem uma razão e um propósito de ser e existir. Essa falta de sentido foi citada pelo filósofo Italiano Giovani Reale como “a raiz de todos os males de hoje”, no prólogo de seu livro “O Saber dos Antigos”: “A própria existência, toda acção, o sofrimento e sentimento é, em última instância, sem sentido e vazia!
”. Embora, tenha sido Nietzsch quem teorizou o niilismo, outros autores antes dele também o definiram “como algo que acompanha o ser humano em seu conflito consigo mesmo e com a ordem cósmica que o envolve”, dentre deles o escritor russo Fiódor Dostoiévski. Segundo Nietzsche, no niilismo ativo ou clássico, os valores metafísicos são renegados, redirecionando a sua força vital para a destruição da moral. Não afirma que não existe nada, mas afirma que tudo é desprovido de sentido opondo-se frontalmente a autores socráticos e, obviamente, à moral cristã.
Nietzsche, baseando-se nas ideias de Dostoésvski, definiu o niilismo passivo ou anarquismo, que nega que a vida deva ser regida por qualquer tipo de padrão moral tendo em vista um mundo superior. É neste cenário, do final do século XIX, qua a Espiritualidade preparou a humanidade para o advento do Espiritismo. Era preciso o surgimento de uma doutrina forte e consistente que viesse devolver o sentido da vida ao ser humano.
Neste contexto de uma vida sem propósito e fim útil e de um homem sem espiritualidade, é que emerge por toda a parte o desabrochar da fenomenologia mediúnica, chamando a atenção da comunidade científica para a busca de explicações para a mediunidade. Surge a mediunidade a abrir portas para a espiritualidade, nos EUA, através dos fenómenos de Hydesville, das Irmãs Fox; das mesas girantes na Europa; dos fenómenos da materialização de espíritos, como as materializações de Katie King pela médium Florence Cook, estudadas por William Crookes.
Os fenómenos mediúnicos produzidos por médiuns famosos, como a médium Eusápia Paladino que foi sobejamente investigada pela comunidade científica da época, com nomes famosos como Alexandre Aksakof, César Lombroso, Charles Richet, Enrico Morselli, Pierre Curie e outros. Era a mediunidade a abrir portas para a codificação da doutrina espírita em 1857, através do professor Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), o eminente Allan Kardec.
A doutrina espírita veio trazer as luzes sobre à realidade do espírito, numa sociedade inundada pelos valores niilistas onde “o nada” fazia sentido, dando sentido ao vazio existencial vigente na filosofia contemporânea. O vazio existencial é universal, atemporal, transversal e presente em todas as épocas da humanidade, mas, no mundo contemporâneo, tomou a forma conceptual do “niilismo”, definido como “ a desvalorizaçãoea morte do sentido, o vazio, a ausência de finalidade e de resposta aos porquês existenciais ”.
