Consultório (pág. 5)
Jornal de Espiritismo nº 97 · Setembro 2019Página 58 min
Chama a atenção para a: 1. Imortalidade da alma; 2. Existência de um corpo espiritual; 3. Pluralidade das existências; 4. Pluralidade dos mundos habitados e 5. Lei de causa e efeito. E, sobretudo, dando-nos uma nova visão sobre os problemas do ser, do seu destino, da dor e do sofrimento humano, na transitoriedade vida na Terra. Um dos aspetos relevantes que aqui vamos ressaltar: 1. A transitoriedade do sofrimento humano.
Diz respeito ao facto de que apesar de sermos imortais, a nossa vida na Terra é transitória, logo, todo o sofrimento também será transitório. Essa dimensão da dor apazigua e remete-nos para uma realidade que é a vivência do presente e não a antecipação permanente do futuro desagradável na perspetiva do sofrimento mantido e irresoluto. E, também, a não fixação a um passado que já não podemos mudar. Dá - -nos uma dimensão da resignação, porque o sofrimento não é vivido como algo que é eterno.
2. O sentido de Responsabilidade. Da mesma forma que somos responsáveis pelas nossas escolhas, somos os autores do nosso destino. Os responsáveis pela felicidade e infelicidade vivida em nossas vidas. E cabe a cada um transformar a sua vida num palco de realizações mais felizes. Quanto mais maduros e conscientes estivermos, mais donos das nossas vidas e dos nossos destinos. Deixamos a postura infantil de aguardar que a vida, o destino e Deus resolva os nossos problemas e somos nós os autores principais da nossa própria história.
O ser consciente responsabiliza-se pelo seu destino e pelas suas escolhas, percebendo que o nosso passado é o nosso presente vivido. Viktor Frankl, dizia que “O ter sido é a mais segura forma de ser”. Todos temos em nós as potencialidades que podem ser transformadas em realidades, no momento em que as concretizamos. E as nossas realidades vividas permanecem em nós de forma indelével. O ser humano está constantemente a fazer opções existenciais e tem de as tornar conscientes.
Viktor Frankl (26/03/1905 - 02/09/1997) escreveu no livro “Em busca do sentido” as suas experiências no campo de concentração em que perdeu o pai, a mãe, o irmãoea esposa. Foi reduzido a um número, e perdeu tudo que para ele tinha valor. Conseguiu encarar a vida como algo que tinha sentido. Foi professor de Neurologia e Psiquiatria na Universidade de Viena; fundador da Logoterapia, “Terceira escola Vienense de psicoterapia” – sendo a primeira a psicanálise de Freud e a segunda a psicoterapia individual de Addler – e Professor de Logoterapia na Universidade Internacional da Califórnia.
Cita Dostoiésvsky: “Temo somente não ser digno do meu tormento”. E fala das suas experiências-limite e a descoberta do sentido da existência. Inerente ao sofrimento, há uma conquista que é uma conquista interior. A liberdade espiritual do ser humano, a qual não se lhe pode tirar, permite-lhe até ao último suspiro, configurar a sua vida de modo que tenha sentido (…) não há sentido apenas no gozo da vida, que permite à pessoa realizar valores na experiência do que é belo, na experiência da arte ou da natureza.
Também há sentido naquela vida quecomo no campo de concentração (…) lhe reserva apenas uma possibilidade de configurar o sentido da existência, na atitude com que a pessoa se coloca… Se é que a vida tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá. Afinal de contas, o sofrimento faz parte da vida, de alguma forma, do mesmo modo que o destino e a morte.” Questionamos: o sofrimento é indispensável à vida? E para a descoberta do sentido da mesma?
Sabemos que vivemos num mundo de prova e expiação, a caminho de um mundo de regeneração, porém teremos de sofrer para dar significado à existência? Sabemos que todo o sofrimento é único e indivisível. E para cada um terá um significado e valor, na forma de o sentir. Entretanto, o sentido está disponível através do sofrimento como objeto de evolução, mas não é o único sentido da vida. Não vivemos só para sofrer. Vivemos também para amar, para sermos felizes.
Enfim, para evoluirmos. Podemos dizer apenas que a mediunidade não funciona como um telefone em que mediante a aplicação de um número obtemos uma ligação com quem desejamos. E se o sofrimento puder ser evitável, o sentido é remover a sua causa. Sem culpa e sem remorso. Entretanto, nas situações em que não podemos mudar a causa, poderemos mudar a nossa atitude. Podemos ainda entender que a vida terá muitos sentidos! Que não o fim único do sofrimento.
“Viver não significa outra coisa senão arcar com a responsabilidade de responder adequadamente às perguntas da vida, pelas exigências de cada momento”. A vida questiona-nos através das nossas melhores respostas, através da nossa ação, da nossa conduta mais correta face às exigências às quais somos expostos! A questão do sentido da vida ou do que esperar da vida deixa de fazer sentido, posto que o que realmente é importante é o que a vida espera de nós!
“Diante do sofrimento, a pessoa precisa conquistar a consciência de que ela é a única responsável pelo seu destino. Ninguém a pode substituir no seu sofrimento. Mas na maneira com que suporta esse sofrimento está também a possibilidade de uma realização única e singular”. Precisamos de ter a coragem de sofrer e não sucumbir… E pedir ajuda quando for necessário. É isso que a vida espera de nós! Vitor Frankl certa vez perguntou a um colega como ele irá curar os seus edemas de fome e ele disse: “Curei-os chorando”.
Também é preciso ter coragem de chorar as nossas dores. E quando a desesperança nos abate? Noutra situação, dois colegas do campo de concentração de Viktor Frankl revelaram intenção suicida, ambos alegaram tipicamente “nada mais tinham a esperar da vida”. Importou mostrar a ambos que a vida esperava algo deles. Um deles esperava o seu filho, que o idolatrava, e o outro esperava uma grande obra. Não é relevante se a pessoa tem uma “grande” ou “pequena” missão!
Cumprir a sua obra no papel da vida é o que importa. É a sua tarefa será sempre grandiosa! “Essa unicidade e exclusividade que caracterizam cada pessoa dá sentido à existência do indivíduo, ilumina em toda a sua grandeza a responsabilidade do ser humano pela sua vida e pela continuidade da mesma”. Como Dizia Nietzsche: “Quem tem um porquê pelo qual viver, pode suportar quase qualquer como”. O caso Rodrigoqual o sentido?
Um dia de domingo estava de serviço de urgência e fui chamada à Unidade de Internamento de pacientes agudos e um jovem ligado às máquinas chamou-me a atenção. Perguntei ao colega de serviço o que irá acontecer ao jovem, tendo sido informada de que se tratava de um caso de “encefalite herpética”. Tratava-se de um jovem de 30 anos, com um prognóstico muito reservado e que estava em coma. A partir daquele dia, todos os dias ao chegar ao hospital ia ver o diário clínico do jovem para ver a sua evolução.
Até que um dia a psiquiatria foi chamada de urgência para medicar os pais do jovem em crise pela morte do mesmo após 12 dias em coma nos cuidados intensivos. Perguntei-me várias vezes: como encararia aquela família a morte daquele jovem? Que sentido teria a dor daqueles pais? Como entender se não tivesse a noção da espiritualidade? Passados seis meses, estava novamente de urgência e a psicologia chamou-me para atender uma mãe que estava a pensar reiteradamente em suicídio por não encontrar razão de viver.
Tratava-se de uma jovem senhora de 47 anos, que perdera o seu filho de 30 anos há seis meses. Era a mãe do Rodrigo. A Fernanda perdera o sentido para a sua vida. Referia que já não encontrava razão para viver. Perdera o seu filho mais velho há seis meses. O filho era o seu pilar. Dizia que o Rodrigo sempre fora um exemplo de filho. Seguiu os seus passos, saiu de casa aos 18 anos, era trabalhador, responsável e já estava a viver com uma jovem.
De repente vira a vida do seu filho desparecer em tão poucos dias. Referia ser uma mulher forte e já ter passado muitos eventos de vida difíceis e neste momento não encontrava mais forças para continuar. Viu desde a sua infância a sua mãe a sofrer de violência doméstica e o pai a bater na mesma. Foi molestada na infância, tendo sofrido de abusos sexuais. Casou-se aos 18 anos para sair de casa, mas casou-se também com um homem violento e também sofreu de violência doméstica.
Voltou a viver aos 19 anos em casa dos pais, mãe de um filho de um ano. Nessa altura, perdeu o seu irmão com 30 anos de idade. Refere ter sido sempre uma pessoa depressiva e ter sempre uma vida difícil. Casou-se uma segunda vez e teve problemas no trabalho. Há sete anos teve novo episódio depressivo face à perda da mãe. Há seis meses sofreu a perda do filho, sentida como uma dor irreparável e insuportável, na forma de uma depressão profunda com perda do sentido para a vida.
Todos os eventos de vida da Fernanda carregam um peso, um significado, mas se calhar o sentido de todo o sofrimento, só o iremos ter nas últimas cenas deste filme ou mesmo quando todo o filme acabar e formos capazes de o enxergar como um todo. Aí entenderemos com maior lucidez os pormenores de cada passagem. Muitas vezes não conseguimos responder a todos os porquês de cada situação perante a qual somos colocados. E não conseguimos entender a realidade de cada momento.
Cabe-nos dar a melhor resposta a cada situação, segundo os nossos conhecimentos e crenças individuais, pois essa resposta em cada momento fará diferença na apreciação do todo. Por outro lado, não podemos entender o filme todo, sem entendermos todas as partes, integrando-as no entendimento da espiritualidade e da necessidade de viver esses momentos de dor. Essa vivência dá sentido e significado ao sofrimento vivido e entendido como uma necessidade evolutiva.
Convido-vos a enfrentar a vida, numa postura optimista, de uma forma ativa, como quem vai destacando cada folha do seu calendário e guardando-a cuidadosamente, mas fazendo no verso apontamentos sobre o dia que se passou, de uma forma consciente e refletindo o que poderia ter sido feito melhor e mais gratificante, mas sem culpa e sem medo. O que importa se a juventude acabou, quantos anos já passaram? Se é tarde para recomeçar?
Ou quantos anos tenho para viver, se o espírito, este é imortal? O que importa o que passou, senão pelo trabalho realizado, pelo amor vivido, pelos sofrimentos suportados, pela dor superada ou pelo que posso aprender face às minhas dores? Importa saber como quero viver cada dia da minha existência? Como posso fazer uma realidade diferente e ser mais feliz? Acima de tudo aprendendo a realizar o exercício da gratidão por tudo que nos acontece na nossa existência.
E parafraseando Fernando Pessoa: “Ser feliz é encontrar força no perdão, esperanças nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros. É agradecer a Deus a cada minuto pelo milagre da vida”. Tendo em conta que o nosso maior desafio é continuarmos a fazer a nossa melhor opção a cada momento, no compromisso de realizar o melhor de nós próprios. Texto: Gláucia Lima NOVEMBRO.DEZEMBRO.
