Crónica
Jornal de Espiritismo nº 97 · Setembro 2019Página 143 min
“Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Nas nossas vidas abundam conflitos de variadíssima ordem. Fazem parte da dialética da própria VIDA. Divergências, conflitos, encerram pontos de convergência, mínimos que sejam, mais latentes ou menos latentes. A contradição dialética entre tese e antítese contém germes de aproximação com tendência para uma SÍNTESE de ambas, em plano mais elevado. Esse processamento sucessivo, no tempo, vai produzindo harmonia, gerando progresso.
Jesus de Nazaré, Príncipe da Paz, foi mestre e exemplo sublime da gestão de emoções em conflito. A sua vasta, sublime, farmacopeia psíquica podia resumir-se na palavra PERDÃO. A ideia de perdão foi constante no discurso e na vivência do divino Amigo, sobretudo na paixão e morte. Para bem avaliar a importância do perdão, bastaria ponderar quanto o não-perdão é nefasto, lesivo da saúde emocional e orgânica, a níveis quer individual quer social; e fonte sucessiva de novos confliNOVAS DE ALEGRIA - 22 Terapia de conflitos existenciais tos.
Um poema de Rudiard Kipling canta mansamente: “fogo não apaga o fogo”. Perdão verdadeiro, autêntico, mais do que proferido deve ser sentido – elucida “O Evangelho segundo o Espiritismo” (cap. 10.º), e deduz-se do próprio magistério de Jesus. Perdão real é um sentimento: muito mais do que palavras ou atitudes externas, de mero agrado a possíveis amigos comuns ou eventuais intermediários das “pazes”. “Deus não perdoa, porque nunca condenou”.
O avanço da ciência (física quântica, neurociências, psicologia…) ampliou o entendimento e divulgação do sublime perdão ensinado por Jesus. Helen Schucman e William Thetford, professores de psicologia médica da Universidade de Columbia, N.Y., EUA, publicaram nos anos 70 um livro extraordinário, hoje conhecido em todo o Mundo: UM CURSO EM MILAGRES. O seu estudo é facilitado no elucidativo “Manual de Apoio”, publicado em 2004 por uma terapeuta e formadora de excelência, compatriota nossa.
Sem ligação a Espiritismo ou confissões religiosas, descrevendo-se como conservadora, com ideias ateístas, Helen Shucman começou a obter comunicações espontâneas, ocasionais e esparsas, depois regulares, do modo que o Espiritismo designa psicografia (para ela, ditado interno). O crivo da revisão científica da sua especialidade académica, aplicado por ambos os docentes à escrita que ia chegando, mostrava coerência nas ideias expostas e estimulava-os.
A nota dominante no conteúdo da obra, com exercícios diários muito simples, é sem dúvida o PERDÃO. O texto analisa e aprecia amplamente a ideia de perdão, sob várias perspetivas, exalta-lhe a relevância e instante necessidade. Eis alguns entre inúmeros conceitos do atraente livro de Schucman e Thetford: “Ninguém é culpado, mas sim responsável.” “Deus não perdoa, porque nunca condenou”. “Perdão genuíno é não perdoar” (por se compreender e SENTIR que não há nada a perdoar).
“Mundo real: o estado mental unificado com Deus e as suas leis”. “Inferno: estado mental e emocional totalmente condicionado pela culpa e pelo medo”. “Milagre: mudança radical, instantânea, da perceção de algo”. A obra analisa amplamente a dinâmica do perdão e apresenta o “modus faciendi” para o construir: como trabalhar no nosso psiquismo a mágoa, o ressentimento, o conflito, até o desvanecermos; mais: sentirmos a repulsa inicial transformar-se em cordialidade.
Mais ainda: agradável sensação íntima da reciprocidade do “perdoado” ou do “perdoador”, consoante os casos. Técnicas mentais simples podem medir o atenuar da emoção inicial, até à sua dissolução completa numa paz deliciosa. O precioso livro de Schucman e Thetford não menciona qualquer fonte, religiosa ou não, mas deixa entrever a conotação cristã do seu teor. Não tardou em ser muito conhecido nos Estados Unidos, depois noutros países, traduzido em várias línguas.
A partir talvez dos anos 80, os seus luminosos conceitos e técnicas mentais, muito citados por outros autores, teem sido divulgados em variados formatos: seminários, preleções, cursos, workshops, retiros, livros, vídeos – nos moldes do conteúdo original, ou metodizados em “Mindfullness”, “Life coaching”, “Barras de Access”, Constelação familiar, Relaxamento… beneficiam e valorizam não só indivíduos, diretamente, como também a psicosfera da Terra, contribuindo para a desintoxicar da enorme acumulação de conflitos pessoais, sociais, internacionais.
Tudo isso na base duma mudança de atitude mental, fazendo lembrar António Gedeão: “Quando o homem sonha / O mundo pula e avança / Como bola colorida / Entre as mãos duma criança”. Descondicionar um número sempre crescente de mentes individuais, higieniza a atmosfera psíquica do nosso planeta, incrementa o processo da sua transformação profética na Terra Prometida, um “Admirável Mundo Novo” sonhado e vislumbrado por Aldous Huxley, no talvez mais célebre romance do século XX.
Por João Xavier de Almeida foto pixabay NOVEMBRO.DEZEMBRO.
