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Opinião

Jornal de Espiritismo nº 97 · Setembro 2019Página 134 min

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Na remota terra da Palestina, um bondoso carpinteiro ousou quebrar os paradigmas existentes e semear a ideia da paz diante da violência, do amor em oposição ao ódio, do perdão em vez da vingança, da compreensão em vez do preconceito, da humildade e do desapego à matéria, falando de um Deus benévolo e justo a quem tratava carinhosamente por Pai. Este homem não se limitava a falar nos sinédrios ou para as classes privilegiadas.

Ele ia pelas aldeias acarinhando aqueles a quem a sociedade excluía, ficava hospedado em casa dos discriminados, aproximava-se dos sofredores, compreendia os criminosos e perseguidos, falando-lhes da implantação do Reino de Deus na Terra, da igualdade entre todos os homens e da compaixão como princípio fundamental. No mundo Ocidental, a ideia de que todos os homens são iguais em essência, e que nenhuma das características que nos definem como indivíduos únicos e especiais deveria ser alvo de discriminação, nasceu com Jesus de Nazaré.

O movimento cristão, promovendo a tolerância, a igualdade e a compaixão entre todos os seres humanos, teve uma enorme repercussão, principalmente entre as classes mais desfavorecidas, levando a uma rutura ideológica e provocando uma profunda revolução cultural no mundo antigo. Mas, tal como muitas outras ideias extraordinárias, também o Cristianismo foi corrompido pelo egoísmo, pela ganância e pela sede de poder. É paradoxal que numa cultura que se diz cristã, 2000 anos depois, ainda haja tantas desigualdades, preconceitos, ódios, nacionalismos e contendas.

Apesar de preciosas conquistas e dos esforços efetivos de transformação, ainda vivemos numa época onde as boas intenções predominam. A igualdade de direitos e oportunidades está consagrada na Constituição, mas não nos comportamentos, pensamentos e palavras. Existe um crescente número de seres humanos que vivem à margem da sociedade, párias dos tempos modernos que são repelidos e desprezados como humanos de segunda categoria.

A igualdade, tal como a conhecemos, ainda é uma igualdade parcial onde, em teoria, todos têm direitos consagrados pela lei, mas na realidade as oportunidades são diferentes em virtude do lugar em que se nasceu, do nível económico ou da conformidade evidenciada com o que é “normal”. Ainda somos uma sociedade de classes extremamente desigual e injusta em que realidades distintas entram em conflito, onde alguns se julgam no direito de ter privilégios enquanto outros não possuem o essencial para sobreviver.

O egoísmo, a indiferençaea corrupção minam as relações sociais desencadeando cada vez mais desigualdades. Para chegarmos a esse mundo novo, não se esperem intervenções divinas ou transformações abruptas. Será um processo longo, repleto de desafios e obstáculos difíceis de superar. No capítulo III de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” é referido que “a situação material e moral da Humanidade terrena nada tem que espante, desde que se leve em conta a destinação da Terra e a natureza dos que a habitam.

” Mesmo compreendendo que a razão para a existência de tantos desequilíbrios se encontra sobretudo nas imperfeições e limitações humanas, isso não significa que nos devemos conformar a elas. A Doutrina Espírita aponta rumos claros para a batalha de transformação do mundo. Como disse Herculano Pires no fabuloso livro “O Espírito e o Tempo”: “O próprio Espiritismo é um gigantesco esforço de educação do mundo, para que a humanidade regenerada de amanhã possa substituir, o quanto antes, a humanidade expiatória de hoje.

” Como é expresso em “O Livro dos Espíritos”, a igualdade de bem-estar é possível e todos poderiam gozá-lo se houvesse compreensão e fraternidade. Todos desejamos esse novo Mundo de Regeneração onde, segundo as palavras de Santo Agostinho em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, “A palavra amor está gravada em O mundo de regeneração todas as frontes; uma perfeita equidade regula as relações sociais.” Todos sonhamos com essa sociedade regenerada em que a liberdade, a igualdade e a fraternidade governarão o modelo social, em que a base dos indicadores de riqueza de um país deixem de ser o crescimento económico e passem a ser o valor humano, o desenvolvimento das aptidões e talentos do indivíduo e a proliferação do bem-estar.

Quem nunca sonhou com um mundo em que a indiferença à dor e ao sofrimento deixem de existir, em que a cooperação substitua a competição e onde os privilegiados, sem precisarem de ser lembrados, chamarão a si a enorme responsabilidade de proteção e elevação dos mais frágeis? Um mundo em que ninguém é medido por aquilo que pode comprar, pelo poder que possui, pelos títulos de propriedade que ostenta, pelos diplomas académicos que conseguiu ou pela sua aproximação ao que é “normal”.

Para chegarmos a esse mundo novo, não se esperem intervenções divinas ou transformações abruptas. Será um processo longo, repleto de desafios e obstáculos difíceis de superar. Auxiliados pela Espiritualidade amiga que procura empurrar-nos para a frente na senda do progresso, o novo mundo de regeneração depende da capacidade da Humanidade para construí-lo e da preparação moral e intelectual dos homens para lhe pertencer.

A Doutrina Espírita não tem como finalidade, nem capacidade, para levar à imposição de comportamentos estereotipados, nem à criação de modelos sociais específicos ou a algum modelo económico determinado. O seu único objetivo é educar e esclarecer os homens e mulheres de hoje, para que através de uma visão mais transcendente do mundo e da vida, eles possam liderar um processo natural de renovação da sociedade em direção à tão desejada regeneração.

É esse o caminho. Não paremos de caminhar! Por Carlos Miguel Durante a hegemonia do império Romano ocorreu um fenómeno que transformou a conceção do Homem sobre a igualdade, influenciando de forma decisiva os séculos que se seguiram. foto pixabay NOVEMBRO.DEZEMBRO.