Entrevista
Jornal de Espiritismo nº 97 · Setembro 2019Página 96 min
Idealizou também o teatro móvel Cornélio Pires, companhia de teatro que realiza representações gratuitas sobre prevenção do suicídio em pequenas cidades do interior do Brasil. Depois de visitar dias antes a Federação Espírita Portuguesa (Amadora), o Centro Espírita Perdão e Caridade (Lisboa), a Associação Espírita Rosa Branca (Marinha Grande), a Associação Cultural Espírita de Santarémeo Centro Cultural Espírita de Caldas da Rainha, no último fim de semana de setembro de 2019 representou duas peças* nas Jornadas de Cultura Espírita do Oeste, em pleno Centro de Congressos.
Uma delas intitulava-se “Todos somos mochileiros”, a outra “Acorda, Serafim”. Num dos intervalos, conversou connosco. – Para si faz sentido interligar arte e espiritismo? Edmundo Cezar – Faz todo o sentido. Tanto que na origem, essa ligação já existiu com Allan Kardec. Ele convivia com artistas. Kardec conhecia o movimento artístico da França, e questionou os Espíritos quanto à arte. Há uma pergunta em «O Livro dos Espíritos», entre outras que falam sobre arte, uma especificamente sobre a música (questão 251).
A preocupação dele com a arte esteve presente na codificação do espiritismo. Penso que na contemporaneidade, quando passamos por um instante tão delicado no planeta, precisamos da emoção. Porque a razão esclareceu-nos, deu a tecnologia, deu notáveis avanços, mas não nos transformou na essência, até porque para haver transformação íntima é necessária uma renovação emocional. A arte tem o sentimento e a emoção como instrumento de trabalho.
No meu entendimento, não temos como desligar arte do espiritismo. Estão juntos e contribuem para o nosso progresso espiritual. – Fará sentido falar de arte não espírita e de arte espírita? Edmundo Cezar – Só por uma questão didática, para se compreender que, quando se fala de arte espírita, estamos a referir a arte de que Kardec falou, a expressão da arte a partir da visão do espiritismo, da compreensão do Plano Espiritual, da reencarnação, da visão do mundo que temos com o espiritismo.
A arte é uma forma de ver a vida e ela não tem separação. Fazemos isso para a estudar e ponderar sobre ela. Falamos da nossa visão da arte e há uma diferenciação, não no seu resultado estético enquanto artista, mas o seu procedimento de construção, de inspiração, de consideração da presença da Espiritualidade no processo criativo, com a possibilidade do sono, dos sonhos como algo inspirador, de se desdobrar e ter acesso a conteúdos espirituais como descreve André Luiz nalguns dos seus livros, e outros Espíritos também.
Tudo isso é um olhar do Espírito, que não nos faz diferentes no resultado artístico, mas o processo de construção e de inspiração, aí cabe aplicar a expressão arte espírita para destacar que é diferente do que fazemos não sendo espíritas. – Como se interessou pelo espiritismo? Edmundo Cezar – Por causa do teatro, com 16 anos de idade. Fazia teatro amador e havia um amigo que era espírita. Isso aconteceu no subúrbio do Rio de Janeiro, no Bairro de Santa Cruz, no Brasil.
Ele convidou-nos a fazer parte do grupo e fui conhecê-los. Era um grupo de teatro dentro do centro espírita. Passei a participar da juventude espírita. Descobri esse mundo que já estava nas memóEdmundo Cezar, ator e professor de Artes Cénicas, é autor do livro “Círculo de Estudos Arte e Espiritismo” e foi presidente da Associação Brasileira de Artistas Espíritas (ABRARTE). foto ulisseslopes rias e que já vinha estudando lá na Espiritualidade.
Ainda me lembro da primeira reunião, quando se leu a primeira pergunta de «O Livro dos Espíritos» - O que é Deus? Foi o primeiro estudo. A partir daí foi só deixar fluir essa realidade e essa ligação: teatro e espiritismo. – Teve contacto com outras associações espíritas portuguesas esta semana. A experiência foi interessante? Edmundo Cezar – O movimento espírita português possui uma simplicidade e ao mesmo tempo uma força, uma potência espiritual interessante.
Em cada associação que visitei pude perceber experiências distintas da Espiritualidade, quando há uma suavidade, uma energia do ambiente, uma grande dedicação de quem está ali à frente, dirigindo, um interesse no estudo, um conteúdo rico de estudos. Foi uma experiência marcante. Para mim, além de conhecer uma casa espírita, conhecer uma cidade, conhecer gente diferente, conhecer uma cultura diferente da minha... para mim que convivo com a diversidade no nosso país por natureza, isso é encantador.
Esta é a melhor palavra para expressar essa experiência. Encantamento – é assim que me estou a sentir agora. – O teatro será uma forma de incentivar os jovens a estudar espiritismo? Edmundo Cezar – Não usaria a palavra atrair, mas é uma maneira pela qual ele pode sentir-se à vontade para a maior riqueza que o teatro tem: a brincadeira, o jogo de viver outras personagens, outras situações. Precisamos disso, especialmente nessa faixa etária do Espírito encarnado, ele precisa de ter espaço para se exprimir.
Então, o teatro é um poderoso recurso, assim como também são as artes e a tecnologia de que dispomos hoje em dia. Mas isso só funciona se o jovem – falarmos na palavra jovem é uma espécie de carimbo, mas o Espírito que está nessa faixa etária, que já passou por uma infância, descobre a vida, que já traz experiências de outras vidas e que está Edmundo Cezar: espiritismo e arte neste momento de transformação de impulsos que são até da química do corpo – for protagonista desse “fazer”, que ele encontre na casa espírita espaço para colocar a opinião dele e a juventude, 14 a 21 anos, entende o mundo de uma forma diferente da minha geração – tenho 48 – e principalmente das gerações de mais idade.
Não há como receber esses Espíritos se estivermos fechados e não estivermos dispostos a flexibilizar a nossa visão do mundo. Isso inclui a visão que temos da casa espírita. Então é preciso que eles construam, escolham os temas, escolham a linguagem artística, ou escolham não usar a linguagem artística. O teatro é um recurso poderosíssimo, mas encaixa dentro de todo esse conjunto. A meu ver, sofremos um pouco no movimento espírita no Brasil com a dificuldade de entender essa necessidade de flexibilizar dentro da visão e do protagonismo do jovem.
Acho que Portugal não precisa de passar por isso. A cultura portuguesa é rica – na mesma faixa etária os jovens aqui alcançam um conhecimento mais amplo, uma formação educacional com bases mais sólidas. Então, com o acesso à tecnologia – talvez lá tenhamos mais alguma dificuldade – a casa espírita se desejar renovar-se com a juventude e beber dessa fonte de força e de inspiração, precisa de estar aberta e jogar com essa brincadeira ao lidar com o jovem.
Precisa de olhar para si e flexibilizar-se. É como ser pai. Hoje em dia não dá para ser pai e dizer – “Eu é que vou formar o meu filho. Ele vai ter esta profissão, vai casar com esta pessoa”. Não dá, porque ele vai ter a escolha dele. O pai vai ter de crescer simultaneamente, viver os princípios em conjunto e ser amigo próximo, cumprindo a sua função: “Olha nós vivemos melhor se não passares pelos meus erros. Precisas de descobrir os teus erros”.
Há algum receio, até na defesa do ponto de vista doutrinário, o que tem o seu valor. Mas se quisermos o jovem na casa espírita temos de balançar as nossas bases, e isso é amedrontador às vezes. Todo o centro cresce. O grupo espírita que tem a criança, que tem o jovem presente cresce, transforma-se na sua energia. A meu ver é uma necessidade, porque senão a multiplicação dos centros, a permanência deles, a perenidade dos grupos espíritas fica comprometida.
Texto: JG e Ulisses Lopes * Pode vê-las no canal da ADEP no YouTubehttp://www.bit.ly/youyubeadep NOVEMBRO.DEZEMBRO.
