Correio
Jornal de Espiritismo nº 98 · Novembro 2020Página 34 min
Optar pela cremação é um problema? Alguém indaga: «O perispírito – ou corpo espiritual – sofre quando cremado? E quando o corpo é dado para a ciência ou se faz doação de órgãos? Aguardo resposta, sou grata. D.» RespostaA decisão sobre cada uma das situações que coloca será sempre inteiramente sua, mas uma vez que pede a nossa opinião face aos estudos que empreendemos, a nossa obrigação é dar-lhe uma ideia das correlações inerentes.
Em ambos os casos, quer seja cremação quer seja doação de órgãos, pode não haver problema nenhum decorrente dessas práticas como, em certos casos, pode haver. E, de facto, temos o dever de lhe dizer que não dispomos de uma fórmula matemática que permita avaliar isso com rigor. Cada vida humana é diferente das outras, por mais parecidas que possam ser aos olhos de outrem. Assim é também a desencarnação de cada um. Morrer é fácilo corpo material entra num processo irreversível de deterioraçãoeo desligamento vai-se processando com maior ou menor facilidade, segundo cada pessoa.
Desencarnar pode demorar mais tempo, já que a desabituação dos padrões densos da matéria para uns demora mais, para outros menos. Como saberá, são os hábitos mentais do dia-a-dia que determinam essa predominância de materialidade ou de espiritualidade em cada ser, com as consequências naturais que daí advêm. Se falarmos da cremação, sem se considerar esta regra certeira para todos os casos, na maioria dos casos – com excepção dos casos de suicídio – 72 horas passadas sobre a declaração do óbito o desligamento do corpo espiritual já deverá ter decorrido de forma completa face ao corpo material, que é o que morre de facto.
Na situação que envolve a doação de órgãos, se o dador dos mesmos o faz contra a sua vontade – como, por exemplo, no caso de certas crenças religiosas muito peculiares – pode ocorrer um estado de espírito de revolta e, se a personalidade desencarnada em causa tiver condições e tendência para perseguir outrem, pode tentar criar algum tipo de obsessão, entendendo-se esta palavra como a influência perniciosa que alguma entidade espiritual menos esclarecida possa querer exercer sobre alguém.
Porém, se o doador de órgãos o faz de livre vontade, no exercício daquele amor universal que Jesus de Nazaré ensina no evangelho, não virá daí nenhum mal do ponto de vista espiritual, quer para quem oferece quer para quem recebe. Esperamos ter respondido à sua questão, parecendo-nos ser certo que, se a decisão for sua e lhe trouxer desconforto, será de optar, sem qualquer complexo de culpa, por soluções que não levantem essa dificuldade.
É que a forma como vão tratar o nosso corpo material quando este já não nos puder servir de ferramenta é completamente subalternizada se encaramos cada novo dia como um espaço de cultivo de amor e sabedoria, no espírito de fraternidade operante que esta passagem nos convida a vivenciar. A mediunidade pode desaparecer? «Estou com algumas dúvidas sobre se há um tempo-limite para que possamos ver espíritos, pois já há mais de 16 anos que vejo coisas como se elas fizessem realmente parte do meu quotidiano, sem tirar os longos diálogos que tenho com alguns deles, muitas vezes conversas estranhas mas em maioria conversas amigáveis, como se tivéssemos um certo nível de intimidade um com o outro.
Eu só queria saber se um dia isso vai acabar e de uma hora para a outra vou deixar de os ver», refere A. RespostaSe for o caso de ter faculdades mediúnicas, elas tanto podem ser suspensas a dada altura como continuar. Contudo, faria bem se procurasse uma associação espírita (não se paga nada, caso contrário não se trata de um centro espírita) junto de si, onde pudesse falar com pessoas que soubessem acompanhá-lo e ajudar a equilibrar essa sensibilidade.
A mediunidade tem algumas dificuldades e, se não aprendemos lidar com elas, pode por vezes perturbar, ao ser mal interpretada. Ao estudar a doutrina espírita aprenderá que os Espíritos não são mais do que pessoas sem corpo físico, mas com corpo espiritual. Como acontece com as pessoas pelas quais passamos na rua, umas não são recomendáveis, profundamente irresponsáveis e egoístas, e há outras que se preocupam com o bem-estar dos outros.
É por isso que deve procurar um metro com que seja capaz de medir a validade do que possa estar a entender sobre o que lhe dizem as entidades espirituais com que diz comunicar. Não faça isso em casa. Procure um local adequado para aprender como lidar com essas experiências de forma equilibrada e afetivamente compensadora. A leitura de «O Evangelho Segundo o Espiritismo», de «O Livro dos Espíritos» e de «O Livro dos Médiuns» (todos de Allan Kardec) são mais-valias indispensáveis para entender melhor o que se passa consigo.
Essa faculdade, só por si, não é boa nem má, é neutra, como qualquer outra. A forma como lidamos com ela é que lhe vai trazer infortúnio ou alegria interior, pela utilização que lhe der. A vida é uma estrada de experiências fantásticas em que de uma forma ou de outra todos vamos angariando mais condições para fixar sabedoria dentro da atmosfera do amor de Deus em que, mesmo sem sabermos, todos respiramos. Deixamos as nossas saudações fraternas com votos de paz e alegria.
foto pixabay As perguntas que nos colocam podem também ser suas ou de alguém que conheça. Por isso, selecionamos algumas para tocar assuntos que podem ser comuns à maioria dos leitores. Desencarnar pode demorar mais tempo, já que a desabituação dos padrões densos da matéria para uns demora mais, para outros menos. JANEIRO.FEVEREIRO.
