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Editorial / Conto

Jornal de Espiritismo nº 99 · Março 2020Página 25 min

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EDITORIAL / CONTO Vítor é um homem que traz um sorriso consigo. Inscreveu-se numa associação nortenha no curso básico de espiritismo e, ao saber que por vezes há até espíritas que não se dão bem com o pós-vida material, diz mais ou menos assim: “Não sei como é que me vou safar quando for chamado à vida espiritual!”.* Não adianta temer. Com as informações que se extraem do intercâmbio mediúnico torna-se possível conhecer melhor o funcionamento dessas leis naturais e agir e função delas.

Veja bem: isso é normal na vida. Quando começámos a gatinhar e, depois, a andar sobre os próprios pés, por inexperiência caímos, batemos com o cotovelo e o joelho, até com a cabeça. Mesmo assim, não tardou muito e já estávamos a aprender como relacionar com equilíbrio a lei da gravidade e a necessidade de locomoção. Existem também leis da natureza que regulam o nível das perceções – visuais, auditivas, tácteis, etc. – que temos ao despertar na vida espiritual depois da morte do corpo físico.

A experiência é peremptória: sem amor no coração não teremos olhos para a luz, no dizer de Clarêncio com a pena de André Luiz/Francisco Cândido Xavier em “Entre a Terra eoCéu”. São os bons sentimentos próprios do dia a dia que abrem as percepções espirituais para podermos ver quem nos vem dar a boas-vindas e orientar na nova morada, aquela mesma que Jesus de Nazaré já dizia serem muitas na casa de Deus, o universo. São os bons sentimentos próprios do dia a dia que abrem as percepções espirituais para podermos ver quem nos vem dar a boas-vindas e orientar na nova morada Não se dá de início bem com a vida espiritual quem repete demasiadas vezes atitudes que revelam haver conhecimento sem a vivência que ilumina.

Isso funciona por dentro, não por fora do ser. Sem qualquer regime de exceção, o mesmo acontece a todas as pessoas, sejam elas religiosas ou Doentes e doenças não. As leis na natureza não se importam com a braçadeira que cada um traga, de acordo com o princípio absoluto de igualdade que as rege. Como em muitas outras áreas, isso pode aprender-se, caso haja interesse. Se não há agora, mais tarde vai haver. Necessidade obriga.

Não se deve abrir, por isso, espaço ao medo contumaz. Esse receio foi útil quanto baste na sobrevivência dentro das coordenadas da proteção da integridade física. Como o sal na comida, demasiado estraga. No quotidiano, deixar que camadas de medo do passado, do presente e do futuro se acumulem vai criar um inferninho a quem se descuidar. Se o espaço do amor ficar ocupado por hóspedes indesejados, as luzes próprias da paz e da alegria, que se associam à vivência dos afetos, retraem-se.

Por isso, sempre que possível, é de chamar os sentimentos de ternura e amor ao dia a dia, sem descuido, para que o mundo interior de cada um traga o bem-estar com que as leis da natureza premeiam quem entende os seus ditames e se harmoniza com elas. Na atmosfera assim criada, desejamos-lhe uma boa leitura! * Leu o livro “Vozes do outro lado da vida, reuniões mediúnicas de esclarecimento”, edição FEP, Lisboa, 2015. O respeito aos doentes é dever inatacável, mas vale descrever a ligeira experiência para a nossa própria orientação.

Penetráramos o nosocómio, acompanhando um assistente espiritual que ingressava no serviço pela primeira vez, e, por isso mesmo era, ali, tão adventício em matéria de enfermagem, quanto eu próprio. Atender a quatro irmãos encarnados sofredores, o nosso encargo inicial nas tarefas do magnetismo curativo. Designá-los-emos por números. Em arejado aposento, abeiramo-nos deles, defoto pixabay pois de curta oração. O amigo de número um arfava em constrangedora dispneia, suplicando em voz baixa: – Valei-me, Senhor!

… Ai Jesus!… Ai Jesus!… Socorrei-me!… Ó Divino Salvador!… Curai-me e já não desejarei no mundo outra coisa senão servir-vos!… O segundo implorava, sob as dores abdominais em que se contorcia: – Ó meu Deus, meu Deus!… Tende misericórdia de mim!… Concedei-me a saúde e procurarei exclusivamente a vossa vontade… Aproximamo-nos do terceiro, que, mal aguentando tremenda cólica renal em recidiva, tartamudeava ao impacto de pesado suor: – Piedade, Jesus!

… Salvai-me!… Tenho mulher e quatro filhos… Salvai-me e prometo ser-vos fiel até a morte!… Por fim, clamava o de número quatro, carregando severa crise de artrite reumatoide: – Jesus! Jesus!… Ó Divino Médico!… Atendei- me!… Amparai-me!… Dai-me a saúde, Senhor, e dar-vos-ei a vida!… O nosso orientador enterneceu-se. Comovia- nos, deveras, ouvir tão carinhosas referências a Deus e ao Cristo, tantos apelos com inflexão de confiança e ternura.

Sensibilizados, pusemo-nos em ação. O chefe esmerou-se. foto pixabay Exímio conhecedor de ondas e fluidos, consertou vísceras aqui, sanou disfunções ali, renovou células mais alémeo resultado não se fez esperar. Recuperação quase integral para todos. Entramos em prece, agradecendo ao Senhor a possibilidade de veicular-lhe as bênçãos. No dia imediato, quando voltamos ao hospital, pela manhã, o quadro era diverso. Melhorados com segurança, os doentes já nem se lembravam do nome de Jesus.

O enfermo de número um se reportava, exasperado, ao irmão que faltara ao compromisso de visitá-lo na véspera: – Aquele maldito pagará!… Já estou suficientemente forte para desancá-lo… Não veio como prometeu, porque me deve dinheiro e naturalmente ficará satisfeito em saber-me esquecido e morto… O segundo esbravejava: – Ora essa!… Por que me vieram perguntar se eu queria orações? Já estou farto de rezar… Quero alta hoje!

… Hoje mesmo!… E se a situação em casa não estiver segundo penso, vai haver barulho grosso! O terceiro reclamava: – Quem falou aqui em religião? Não quero saber disso… Chamem o médico… E gritando para a enfermeira que assomara à porta: – Se minha mulher telefonar, diga que sarei e que não estou… O doente de número quatro vociferava para a jovem que trouxera o lanche matinal: – Saia de minha frente com o seu café requentado, antes que eu lhe dê com este bule na cara!

… Atónitos, diante da mudança havida, recorremos à prece, e o supervisor espiritual da instituição veio até nós, diligenciando consolar-nos e socorrer-nos. Após ouvir a exposição do mentor que se responsabilizara pelas bênçãos recebidas, esclareceu bem-humorado: – Sim, vocês cometeram pequeno engano. Os nossos irmãos ainda não se acham habilitados para o retorno à saúde, com o êxito desejável. Imprescindível baixar a taxa das melhoras efetuadas… E, sem qualquer delonga, o superior podou energias aqui, diminuiu recursos ali, interferiu em determinados centros orgânicos mais além, e, com grande surpresa para o nosso grupo socorrista, os irmãos enfermos, com ligeiras alterações para a melhoria, foram restituídos ao estado anterior, para que não lhes viesse a ocorrer coisa pior.

Texto: Francisco Cândido Xavier (médium). Irmão X (Espírito) Livro: Ideias e Ilustrações MARÇO.ABRIL.