Encontro
Jornal de Espiritismo nº 99 · Março 2020Página 54 min
E se a dor não existisse? No entanto, na nossa condição terrena a dor desempenha um papel essencial para a sobrevivência das espécies e para o desenvolvimento individual e coletivo do Homem. Refletindo inicialmente apenas sobre a dor física, é pelo medo de a sentir que se evitam muitas situações passíveis de a causar – a criança afasta-se de uma fonte de calor porque sabe que provoca dor, por exemplo. É para a minimizar que imobilizamos instintivamente uma articulação após uma queda.
É para a superar que se procura ajuda médica quando ela surge... Esta dor assume um papel de proteção biológica inquestionável, funcionando como um sinal de alarme perante uma lesão ou doençaea alteração da sua perceção acarreta consequências graves e pode mesmo colocar a vida em risco. Como situação-limite, refira-se a existência de uma rara doença congénita relacionada com uma mutação genética que se caracteriza pela incapacidade de sentir dor e que conduz, inevitavelmente, à morte prematura dos seus portadores.
Mas há outras situações mais comuns que nos mostram as possíveis complicações decorrentes de alterações da sensibilidade álgica ou termo - -álgica – a polineuropatia diabética é um exemplo bem conhecido de todos. Então, em relação a esta dor não resta margem de dúvida que ela constitui elemento essencial na nossa vida. Mas se o papel desta Dor, conhecida como Dor-Alerta é de fácil entendimento, a sua fisiopatologia é extremamente complexa e continua a merecer a atenção de muitos investigadores.
As primeiras explicações sobre o mecanismo da dor, de acordo com o modelo cartesiano, diziam que esta resultava sempre de um processo físico (lesão, infeção, inflamação, tumor...) que ativava os recetores da dor e as fibras nervosas que, posteriormente, transmitiam a informação sob a forma de um sinal à medula e ao cérebro. Este modelo explicava a Dor-Alerta de forma genérica, mas não explicava todas as diferenças na sua perceção e, para além disso, não conseguia explicar a dor crónica que persiste para além da causa que a faz surgir, nem a dor neuropática e muito menos a dor fantasma.
Dizia-se que todas essas dores sem uma causa/lesão evidente eram dores psicogénicas ou “fingidas”. As inúmeras investigações nesta área identificaram outros mecanismos fisiopatológicos que permitiram entender os diferentes tipos de dor, as diferenças de perceção perante o mesmo tipo de dor e ainda a possibilidade de ela existir na ausência de uma lesão real. Daí que, atualmente e segundo a International Association for the Study of Pain (IASP), a dor é definida como uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a uma lesão tecidular real ou potencial ou cuja descrição pode corresponder à existência de tal lesão.
E é esse desrespeito da lei, esse sentimento de culpa que nós muitas vezes não buscamos reparar é que entendemos que seja o adoecimento humano. Cabe aqui, então, fazer uma divisão entre a dor já abordada – a Dor-Alerta com função de proteção e que apesar de poder ser intensa é transitória e se associa a uma lesão tecidual e a Dor-Crónica, persistente como o nome indica, que deixa de possuir uma função protetora e, mais do que um sintoma, pode ser considerada uma doença por si só, podendo chegar a ser mais importante do que a própria patologia que a iniciou.
Mas, então, qual a função dessa Dor - -Doença? Embora entendendo-se cada vez melhor a sua fisiopatologia e conseguindo-se o seu razoável controlo numa percentagem significativa de casos, a verdade é que não se consegue atribuir um significado positivo para esta dor dentro da visão do paradigma materialista. Desenho de René Descartes, no seu livro “O Homem”, no qual se descreve pela primeira vez a presença da transmissão da dor até ao sistema nervoso central.
Daí que ela desperte em tantos doentes e seus familiares sentimentos de revolta, raiva, angústia e inconformação, sentimentos esses que por sua vez contribuem para a persistência da dor, para a sua exacerbação e para a dificuldade de a controlar. Hoje esta interação entre dor, pensamento e sentimentos não mais é quimérica, mas apoia-se em evidência científica – de acordo com a atual teoria da dor, designada como a Teoria da Neuromatrix, a perceção da dor é resultante de um processo de Neuromodulação que envolve dimensões tão diversas quanto a cognitiva com memórias de experiências prévias, crenças, significados, a sensitiva e a emocional.
Percebe-se assim que este processo de neuromodulação torna a experiência da dor absolutamente única e individual sendo até designada como Assinatura Neural. Este conhecimento é de suma importância, permitindo entender que o tratamento farmacológico isoladamente não permite atingir o melhor controlo da dor crónica – se o analgésico prescrito e corretamente usado é essencial, o desenvolvimento de estratégias de coping serão do mesmo modo fundamentais, pelo que a avaliaçãoeo acompanhamento psicológico deverão fazer parte da correta orientação destes doentes.
Mas mesmo com a melhor abordagem multidisciplinar constata-se que em muitos casos o desânimo, a angústia ou a revolta se mantêm, talvez porque a pergunta-chave se mantém sem resposta – qual a função, qual o significado desta dor? Porquê eu? Qual a justiça de uns terem tanta dor e outros não? Como aceitar esta condição? A Doutrina Espírita, não fazendo de forma alguma a apologia da dor e do sofrimento, permite-nos, no entanto, ter uma visão mais ampla sobre esta questão, fornecendo ferramentas essenciais para a entender e apaziguar.
Na próxima edição continuar-se-á esta reflexão com enfoque na visão espírita. Por ora termina-se com uma frase de André Luiz: “Sejamos pacientes na dor. Crise, muitas vezes, é o nome que aplicamos à transformação do mal em bem” (Xavier e Waldo, 1963, p.72). Texto: Paula Silva foto pixabay Num primeiro impulso com certeza que responderíamos que se a dor não existisse seria maravilhoso – afinal todos a tememos, quer estejamos a falar da dor física, psicológica ou emocional.
Modelo da Neuromatrix de Melzack. MARÇO.ABRIL.
