Entrevista
Jornal de Espiritismo nº 99 · Março 2020Página 94 min
Informação espírita ao preço de um café São os espíritas acomodados, aqueles que entraram para o espiritismo mas provavelmente o espiritismo ainda não foi interiorizado quanto baste, a fim de um dia, sair lá de dentro, naturalmente, num estado mais avançado da sua espiritualidade. Felizmente a maioria das associações espíritas portuguesas está cada vez mais a valorizar o estudo do espiritismo, a par da prática e do serviço ao próximo: está tudo interligado.
Nem poderia ser de outro modo. São associações sem fins lucrativos que têm nos seus programas anuais o curso básico de espiritismo, o estudo de educação da mediunidade, entre outras formações. Pode-se aferir a literacia espírita de uma associação pelos livros e jornais que vende. Quando os dirigentes dizem que não se consegue vender um jornal ou um livro da codificação que seja, algo está mal na orientação dessa associação espírita.
foto arquivo Quem não lê, cristaliza, embrutece, estagna. O mesmo se passa no que concerne aos espíritas que, muitas vezes abdicam da leitura, do estudo, inclusive de um simples jornal, pois, dizem não ter tempo. Se o Espiritismo é ciência, filosofia e moral, como conhecer o mesmo sem um estudo profundo, contínuo e metódico? Felizmente a maioria parece ter apanhado o pensamento de Allan Kardec que trouxe ao mundo um amplo movimento cultural chamado doutrina dos Espíritos.
A propósito de leitura, falámos com Noémia Margarido, administradora do “Jornal de Espiritismo” (JDE), da Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal (ADEP), que respondeu a estas questões: – Quantos anos tem o JDE e por que nunca sofreu até este ano alteração de preço? Noémia Margarido – O primeiro número é de novembro de 2003. Portanto já fez 16 anos. Há alguns anos que tem vindo a dar prejuízo e sucessivamente a Direção da ADEP falava nisso.
Mas fomos adiando a alteração de preço até agora, em que a situação chegou ao limite, isto é tornou-se insuportável a sua continuidade com esse preço (0,50 €) e não tivemos outra maneira de continuar com a sua publicação sem este aumento de preço (para 1 €), decisão que nos custou bastante levar avante. – Embora os centros espíritas tenham uma pequena percentagem por cada jornal que vendam, muitos centros espíritas abdicam dessa comissão em favor da ADEP.
É verdade? Noémia Margarido – Sim, é verdade. A ADEP faz um desconto de 20% no valor da fatura, mas há centros espíritas que abdicam desse desconto e pagam na totalidade. Para nós, além de o valor a mais ser muito importante para a manutenção e continuidade do jornal, o gesto destas associações inspira-nos e incentiva-nos, tornando a nossa luta mais amena, porque é uma maneira muito ostensiva de nos mostrarem que estão connosco de corpo e alma, neste projeto que envolve o empenho de gente, cujo único objetivo é a divulgação do espiritismo, de que Allan Kardec nos deu exemplos extremos.
– Sabendo que ninguém na ADEP ganha 1 cêntimo com o jornal, qual é a mais-valia de tanto trabalho, de dois em dois meses, isto é, o que vos faz continuar? Noémia Margarido – A convicção de que prestamos um serviço ao movimento espírita, divulgando da forma que melhor sabemos esta doutrina consoladora que tão bem faz a todos que a conhecem. – Sendo a divulgação do Espiritismo uma prioridade para a Humanidade, existem casos de centros que vendem centenas de jornais?
Noémia Margarido – Sim, temos bons exemplos, felizmente. Penso que não me ficaria bem identificar esses centros, porque poderia não ser bem aceite da parte deles esse destaque. – Que outras situações invulgares tem encontrado na administração do jornal, que fazem com que valha a pena tanto trabalho? Noémia Margarido – Muitas, felizmente. Telefonemas que recebo de incentivo, falando da importância do JDE, da sua qualidade, da diversidade de artigos que todos contêm, da sua imparcialidade, da necessidade de um jornal como este no movimento… muitos telefonemas, correio eletrónico, conversas de incentivo que ajudam a ver todo este trabalho como algo que nos dá prazer, e dá mesmo, e nunca como algo enfadonho e do qual nos queremos ver livres.
– O que gostaria de dizer aos espíritas em particular, aos centros espíritas em geral, aos assinantes nacionais e estrangeiros? Noémia Margarido – Que acarinhem o JDE como têm feito até agora. Que adquiram o JDE, se possível mais de um exemplar e o deixem “esquecido” em algum lugar. Certamente alguém vai lê-lo e, quem sabe, mudar uma vida. – Afinal, só temos de tomar menos um café por mês para poder adquiri-lo... Noémia Margarido – Será um sacrifício assim tão difícil de realizar?
Vale a pena fazê-lo. Por José Lucas jcmlucas@gmail.com MARÇO.ABRIL.
