Opinião
Jornal de Espiritismo nº 99 · Março 2020Página 124 min
Amparado pelo silêncio, o seu canto ecoou pelo espaço. Após alguns segundos, calou- se e partiu da mesma forma inesperada como tinha chegado. Então, o sábio disse para os discípulos: “Até amanhã!”. Despertar para as bênçãos com que a vida nos surpreende, aprendendo a colocar ênfase no que de extraordinário temos à disposição, é um segredo para vivermos de forma mais lúcida e plena. Um estudo de 2003 do departamento de Psiquiatria da Universidade da Virgínia, envolvendo 2600 adultos, demonstrou que aqueles que sentiam gratidão a Deus tinham um menor risco de depressão, fobias, crises de ansiedade e vícios como álcool, tabaco e drogas ilegais.
Um outro estudo da Universidade de Zurique procurou relacionar os sentimentos de gratidãoea satisfação escolar de um grupo de alunos do 6º e 7º ano. Mais de 200 alunos foram divididos em três: os que iriam fazer uma lista diária, durante três semanas, de 5 coisas pelas quais se sentiam gratos, os que iriam escrever 5 coisas pelas quais se sentiam aborrecidos e os que não iriam fazer qualquer lista. Três semanas depois, num inquérito à satisfação escolar, os alunos do grupo da gratidão demonstraram um maior índice de satisfação escolar em comparação com os outros dois grupos, especialmente em relação ao grupo que estava focado em escrever sobre os aborrecimentos.
A questão primordial para a coleção de benefícios que a gratidão proporciona, é que as pessoas que se sentem gratas acentuam os aspetos positivos das suas vidas em vez de serem consumidos pelos problemas e pelos medos. E é simples fazê-lo porque depende apenas da predisposição para criar novos hábitos, dando prioridade mental às coisas boas em vez de estarmos focados no que é ruim. O que dificulta a tarefa é o facto de existir muita experiência acumulada em falta de atenção, anos e séculos de comportamentos sistemáticos em que nos concentramos naquilo que falta e em que tomamos as pessoas, a vida, os momentos, a natureza e a saúde como garantidos.
Vivemos numa sociedade altamente materialista que estimula a este tipo de atitudes. A publicidade pretende por qualquer meio evidenciar o que nos falta, a comunicação social procura vender as maquilhadas vidas perfeitas das figuras mediáticas, o exibicionismo seletivo e caiado das redes sociais quer fazer-nos acreditar que os outros são muito mais bem-sucedidos e felizes. Existe um estímulo social para reforçar que, aquilo que somos, temos ou damos “não é suficiente”.
Quantas vezes nos queixamos que “não dormimos o suficiente”, “não temos tempo que chegue”, “não fizemos o suficiente”, “não ganhamos o suficiente”? Gastamos demasiada energia concentrados no que nos falta, refletindo sobre aquilo que não temos, pensando naquilo que os outros têm ou fazem, comparando as nossas “coisas” com a visão ficcionada do que pensamos que são as “coisas” dos outros. Contrariar esta tendência nem sempre é fácil, mas é possível através de uma atitude sistemática de atenção ao que de extraordinário acontece à nossa volta e de valorização das graças que usufruímos.
A Agradecer e valorizar prática da gratidão não se deve resumir àquilo que é fora do comum. Normalmente, só damos valor ao que de bom temos quando o perdemos: uma arreliadora dor de dentes faz-nos perceber como eram agradáveis todos aqueles dias sem dores; a doença lembra-nos como eram maravilhosos os momentos em que estávamos saudáveis; a velhice recorda-nos como eram fantásticos aqueles anos de vigor físico da juventude.
É mais comum ouvirmos lamentar o que perdemos, mas quantas vezes valorizamos e degustamos esses momentos no tempo devido? Será que não os viveríamos de forma mais plena? Passamos por tantos momentos extraordinários e na maior parte das vezes vivemo- los como se se tratassem de momentos banais. A questão primordial para a coleção de benefícios que a gratidão proporciona, é que as pessoas que se sentem gratas acentuam os aspetos positivos das suas vidas Ao falarmos com pessoas que perderam quem mais amavam, ouvindo-as lembrar a sua saudade, elas contam-nos do que sentem mais falta.
Normalmente, elas não falam das coisas extraordinárias, não falam dos momentos mais significativos das suas vidas: Sentem falta de momentos comuns e quase banais a que damos relativa importância quando os vivemos: “Sinto falta da forma como ele me olhava”; “Sinto falta da sua rabugice quando acordava”; “Sinto falta de ouvir a sua voz”; “Sinto falta dos nossos passeios na praia”; “Sinto falta de a fazer rir”; “Sinto falta de sentir o toque da sua mão”; “Sinto falta de a ter a meu lado” – coisas tão pequeninas a que damos tão pouca importância e que são aquilo que mais nos faz falta.
Não deveríamos sentir-nos gratos e apreciá-las de forma plena quando ainda temos a possibilidade de as viver desta forma? Não temos de perseguir momentos extraordinários para alcançarmos a alegria e a felicidade. Esses momentos estão todos os dias à frente dos nossos olhos se prestarmos atenção e praticarmos a gratidão. Eckart Tolle escreveu que “reconhecer o que de bom possuímos na vida é a base para todas as abundâncias.
” Na realidade, ao estarmos atentos e verdadeiramente despertos para o que nos rodeia, desenvolvemos a sensibilidade para nos sentirmos gratos e ficamos mais suscetíveis para percebermos o quanto somos abençoados. Por Carlos Miguel Conta-se que, todas as manhãs, um sábio falava aos seus discípulos do alpendre da sua casa. Certa manhã, no momento em que se fazia silêncio para que o sábio iniciasse o discurso, um pássaro pousou no corrimão da varanda e começou a cantar com toda a sua alma.
