Centrais (pág. 11)
Jornal de Espiritismo nº 99 · Março 2020Página 116 min
Na visão espiritista, feita a partir das obras de Allan Kardec como é normal, existe uma natureza espiritual quer nos outros seres vivos quer na espécie humana. chimpanzés são exemplos de animais que sabem que se estão a ver a si próprios no reflexo de um espelho. Muitos outros animais não sabem, como se percebe nalguns parques de estacionamento quando, na primavera, uma lavandisca ou um rabirruivo ao passarem pelo retrovisor externo de um automóvel acha que viu um rival e farta-se de defecar contra o vidro para o afastar do seu território.
Por exemplo, nas reuniões mediúnicas, não é possível pelo próprio funcionamento das leis da natureza, face à incompatibilidade dos corpos espirituais, ver um médium psicofónico – o popular médium “de incorporação” – a ter uma manifestação, por exemplo, de um cão ou de um gorila. Uma ressalva deve ser feita mediante casos pouco frequentes que reportem uma aparência animalizada que podem aparentar alguns Espíritos, refletindo algumas características no seu comportamento durante o transe mediúnico, seja porque se encontrem em estado de desequilíbrio acentuado na vida espiritual quer porque queiram mistificar ou perturbar uma reunião mediúnica que por alguma razão acolhe este tipo de manifestações infelizes.
Nestes casos amor e energia são a melhor atitude para que a intervenção dos benfeitores espirituais que superintendem os grupos mediúnicos que o mereçam possam prestar a ajuda possível. Esta tipologia, como se percebe, não provém da manifestação de um animal através do médium, mas de um ser humano desencarnado em provação a caminho de se reabilitar para uma vida construtiva. Neste âmbito, é obrigatória a leitura do item 236 de “O Livro dos Médiuns”, de Allan Kardec, do qual salientamos algumas linhas: “Explanarei hoje a questão da mediunidade dos animais, levantada e sustentada por um dos vossos mais fervorosos adeptos.
Pretende ele, em virtude deste axioma, “Quem pode o mais pode o menos”, que podemos “mediunizar” os pássaros e os outros animais e servir-nos deles nas nossas comunicações com a espécie humana. É o que chamais, em filosofia, ou, antes, em lógica, pura e simplesmente um sofisma. Pode-se animar, diz ele, a matéria inerte, isto é, uma mesa, uma cadeira, um piano; a fortiori, deveis poder animar a matéria já animada e particularmente pássaros.
Pois bem! No estado normal do Espiritismo, não é assim, não pode ser assim.” E continua, pelo que vale muito a pena prosseguir a leitura na fonte desta comunicação do Espírito Erasto, pois decompõe com bom senso as explicações necessárias para não se confundir o trigo com o joio. Contudo, reproduzimos apenas a parte final: “Sabeis que tomamos ao cérebro do médium os elementos necessários a dar ao nosso pensamento uma forma que vos seja sensível e apreensível; é com o auxílio dos materiais que possui, que o médium traduz o nosso pensamento em linguagem vulgar.
Ora bem! Que elementos encontraríamos no cérebro de um animal? Tem ele ali palavras, números, letras, sinais quaisquer, semelhantes aos que existem no homem, mesmo o menos inteligente? Entretanto, direis, os animais compreendem o pensamento do homem, adivinham-no até. Sim, os animais educados compreendem certos pensamentos, mas já os vistes alguma vez reproduzi-los? Não”. Portanto, é claro que o conceito espírita de Espírito nos animais não existe, embora eles tenham uma inteligência limitada e processem fluxos de pensamento descontínuo.
Portanto, é claro que o conceito espírita de Espírito nos animais não existe, embora eles tenham uma inteligência limitada e processem fluxos de pensamento descontínuo. Existe sim o conceito de princípio inteligente ou até, para quem preferir, de princípio espiritual. Allan Kardec explica os conceitos no conjunto das suas obras, e fazem todo o sentido para quem se der ao trabalho de os ler sem preconceito. Se nos reportarmos a algumas das obras da chamada coleção de André Luiz, originalmente publicada pela FEB no século XX, psicografados pelo médium Francisco Cândido Xavier, encontramos algumas referências a cães no Plano Espiritual que cooperam com equipas de Espíritos em tarefas edificantes no resgate a quem reúne perspetivas de reerguimento no que ele chama Umbral.
Têm, contudo, função equivalente aos cães atrelados a trenós que vemos nas neves do Norte extremo. As plantas, concretamente árvores e flores, também fazem parte os cenários que esse autor descreve. Chegará o dia em que algum horticultor, apaixonado pelas plantas, venha a projetar nestas o seu encanto e levante uma polémica marginal sobre o Espírito das plantas? Sistemas nervosos parecidos… mas diferentes No fio desta reflexão, e em harmonia com o que foi dito, sublinha Irvênia Prada* que existem, no organismo dos seres humanos e no dos animais, estruturas que podem ser comparadas e permitem perceber a identidade de organização entre eles.
Na verdade, parece-nos que esta autora antecipou, na sua escrita de final do século XX, o que veio a ser conhecido em 2012 por Declaração de Cambridge, quando um grupo de cientistas consagrados aborda o tema da “consciência em animais humanos e não humanos”, tendo em vista as afinidades anatómicas. Explica por sua vez Irvênia Prada que a maneira como o sistema nervoso se organiza é reveladora disso mesmo, particularmente no que toca ao cérebro.
Em alguns animais este é muito pequeno, com poucas camadas, noutros é mais expressivo e no homem é claramente maior. A evolução parece ser um acumulador de camadas na complexificação cerebral entre espécies, rumo a uma capacidade mental mais desenvolvida. Assinala igualmente esta autora que não se descortina uma linha divisória explícita entre os nossos ancestrais e os animais relativamente às suas funções mentais e ao seu comportamento biológico.
Logo, leva-nos a pensar que a gradação evolutiva é uma sucessão de pequenas conquistas psíquicas feitas muito lentamente face à escala de tempo que costumamos utilizar, enquanto o substrato orgânico evolui a par e passo no seguimento desse processo, na perseguição paulatina dos progressos conquistados previamente no corpo espiritual. Salienta a distinta professora que a evolução esteve a desenhar ao longo de milhões de anos o cérebro dos hominídeos, inclusive no nosso nível evolutivo, com camadas sobrepostas que moldam o desenvolvimento do cérebro cada vez mais para cima e para a frente.
Analisa em particular a área pré-frontal, a parte do córtex da porção mais anterior dos lobos frontais, descrevendo-a como um nobre transdutor cerebral. É assim porque se encontra ao serviço das funções superiores, mentais e psíquicas, envolvendo as coordenadas da vontade, da aprendizagem, do livre-arbítrio, da avaliação, da iniciativa, da idealização, entre outras. Esta área pré-frontal anatomicamente é bem mais desenvolvida na espécie humana do que noutras, como é o caso dos chimpanzés, dos cães ou dos gatos.
Explica com clareza Irvênia Prada que as diferentes espécies de mamíferos, incluindo o homem, são capazes de exprimir por intermédio da atuação do sistema límbico, comportamentos emocionais básicos, primários “instintivos”. Contudo, a área pré-frontal, de aquisição mais recente na anatomia cerebral, no ser humano mais ampliada, abre campo ao exercício de comportamentos mais elaborados, mais sofisticados, mais “racionais”.
Na verdade, ao contrário do que se pensava noutras épocas da história, inspirado numa interpretação literal da bíblia, percebe-se hoje que o ser humano se interliga numa rede de cumplicidade evolutiva com os outros seres, pelo que o conceito de bem-estar animal alcança um patamar de distinção provavelmente nunca antes visto na história da humanidade. Nesse sentido, o ângulo antropocêntrico pelo qual ainda se vê o mundo, além de ser perigoso, é desajustado da realidade determinada pelas leis da natureza.
Irvênia Prada propõe, assim, um conceito biocêntrico, em que a natureza deixa de ser vista como um mero bem de consumo a ser exaurido a serviço do homem para se revelar uma plataforma vital que sustenta psiquismos e variadíssimos níveis evolutivos num chão teleológico, que abre diante do porvir experiências que estimulam o progresso dessas consciências embrionárias, de natureza espiritual, que renascem na dimensão material sucessivas vezes, no mesmo trilho de aperfeiçoamento em que nós próprios estamos matriculados pela sabedoria de Deus.
Texto: J. Gomes * Irvênia Prada (Phd) foi professora titular da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo, Brasil. Pesquisou neuroanatomia durante décadas e publicou numerosos artigos. Adepta também das ideias espíritas proferiu muitas palestras, algumas presentes na internet (YouTube), e escreveu vários livros, entre os quais “A alma dos animais”. foto pixabay MARÇO.ABRIL.
