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Jornal de Espiritismo nº 10 · 2005Página 147 min

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Livro onde estão enfaixados os derradeiros escritos de Allan Kardec, bem como as suas experiências mediúnicas íntimas: a sua iniciação, orientações particulares dos espíritos para a gigantesca obra de codificar o Espiritismo e preparar o futuro do Movimento Espírita.

Estes últimos documentos jamais os publicou enquanto esteve encarnado, devido à sua humildade, mas estavam guardados para integrarem, na hora própria, a História do Espiritismo. Foi o que se passou 21 anos após o seu passamento, no ano em que Paris assistia à inauguração da Torre Eiffel, 1890, o seu discípulo Pierre-Gaétan Leymarie (1827-1901), publicava esta obra determinante para compreendermos o nascimento do Espiritismo e a grandeza espiritual de Kardec.

A primeira parte deste livro é constituída por documentos que foram sendo publicados na Revue pelos seus discípulos, mas nunca traduzidos para o português. A Revista Espírita só está traduzida para o português no período em que o Codificador a criou e dirigiu, ou seja até Abril de 1869. Os números de Maio e Junho desse ano também estão traduzidos visto trazerem ainda dados muito importantes referentes ao passamento e obra de Allan Kardec.

Desta primeira parte, para não nos tornarmos exaustivos, registamos apenas os seguintes trabalhos que devem ser estudados e não apenas lidos por todos aqueles que amam a Doutrina Espírita.

Do capítulo «Manifestações dos Espíritos», o 8 7.º «Da Obsessão e da Possessão» que integra os itens 56 a 61, passamos a entender claramente o que é a obsessãoea possessãoeo que se deve fazer para as combatermos de forma eficaz. Kardec explica porque na maior parte das vezes, nos casos de subjugação (possessão), o exorcismo aumenta o mal em vez de o abrandar. Diz o seguinte: «A razão disso é que a influência está toda no ascendente moral exercido sobre os Espíritos, e não num acto exterior, na virtude das palavras e dos gestos.

O exorcismo consiste em cerimónias e fórmulas das quais os maus Espíritos escarnecem, ao passo que cedem à superioridade moral que se lhes impõe. Eles vêem que querem dominá-los por meios impotentes, que pensam em intimidá-los com práticas vãs, e por isso procuram mostrar que são mais fortes, redobrando sua acção. São como o cavalo espantadiço que lança por terra o cavaleiro inábil, e que se submete quando encontra quem o domine.

Ora, o verdadeiro senhor é aqui, o homem de coração mais puro, porque é o mais atendido pelos bons Espíritos.» O seu «Estudo sobre a natureza do Cristo» que se desenrola por 30 páginas é um trabalho inédito, até então, que desmistifica definitivamente a divindade de Jesus. Kardec serve-se, única e exclusivamente, dos únicos documentos históricos válidos para o fazer — os Evangelhos e os Actos dos Apóstolos. Muitos espíritas desconhecem este estudo, que nos dias de hoje, por certo nos libertaria de confusões, dúvidas e atavismos.

Registamos a beleza e profundidade dos conceitos expostos pelo espírito do compositor Rossini, transmitidos mediunicamente na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas através dos médiuns Desliens e Nivart, a respeito da música — «A Música Espírita».

A questão das expiações colectivas está muito bem esclarecida na rubrica «Questões e Problemas». Quem tem dúvidas a respeito de tão candente problema, leia e estude este artigo. Neste trabalho inconfundível de Kardec —o «Bom Senso Encarnado» — ficamos a entender, também,

claramente a posição do Espiritismo perante o Poder e a forma como o Espiritismo transforma as mais diversas instituições do Planeta. No último trabalho desta primeira parte das Obras Póstumas, intitulado «Breve Resposta aos Detratores do Espiritismo», destacamos sem comentários as seguintes passagens:

«O Espiritismo marcha de acordo com a Ciência no terreno da matéria: admite todas as verdades que ela comprova, mas onde terminam as investigações desta, prossegue ele as suas no terreno da Espiritualidade.» «O Espiritismo é uma doutrina filosófica espiritualista. Por isso toca forçosamente nas bases fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura. Mas não é uma religião constituída, visto não ter nem culto, nem rito, nem templo e, entre seus adeptos, nenhum recebeu o título de sacerdote ou grão-sacerdote.

Estas qualificações são pura invenção da crítica.» «O Espiritismo combate o princípio da fé cega, porque ela impõe ao homem a abdicação do julgamento próprio. Ele ensina que toda a fé imposta não pode ser profunda.» «De acordo com os seus princípios, o Espiritismo não se impõe a ninguém: quer ser aceito livremente e por convicção. Expõe suas doutrinas e acolhe os que o procuram voluntariamente. Não procura demover ninguém de suas convicções religiosas.

Pela leitura e análise da segunda parte das Obras Póstumas, poderemos verificar que Allan Kardec não foi um Espírito qualquer, a quem a Espiritualidade Superior depôs nas mãos a tarefa de trazer ao mundo a obra de codificar a Terceira Revelação. Foi o único que teve uma assessoria espiritual ímpar, pois uma plêiade de Espíritos o assistiu permanentemente: São Luís, Vicente de Paulo, Samuel Hahnemann, Lacordaire, João-o evangelista, Paulo de Tarso, Fénelon, Santo Agostinho, Erasto, Sócrates, etc., sob o comando, se assim nos podemos expressar, do Espírito da Verdade ? o verdadeiro orientador de Kardec. Foi RS 507 207 NSSA SSSA o

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único que teve sempre à sua disposição dezenas de médiuns de elevada idoneidade moral e de grande pureza das faculdades mediúnicas de psicografia e psicofonia, nomeadamente as meninas, Caroline Baudin (16 anos), Julie Baudin (14 anos), Ruth Japhet (17 anos), Ermance Dufaux (14 anos), etc.; enfim, foi o único que esperou até aos 50 anos da existência física, ganhando um imenso tirocínio no campo da pedagogia, para iniciar a sua missão de educador da Humanidade. Por tais factos, o sábio de Lyon na sua gigantesca obra, jamais se equivocou na escolha das instruções que publicou e das que rejeitou, bem como da forma como organizou, estruturou e publicou os livros da Codificação Espírita.

Vamos registar duas passagens que mostram inequivocamente a grandeza espiritual de Allan Kardec. A primeira referente à sua missão, quando após a publicação d' O Livro dos Espíritos, da criação da Revista Espírita e da fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, se iniciava a guerra para destruírem a sua obra e desacreditarem a Doutrina nascente e a sua pessoa. Estava-se em 1860. Os espíritos na sua ausência, em casa do sr.

Dehau diriam espontaneamente: «Que saiba com certeza que estamos de seu lado e que os Espíritos sábios ficarão felizes de poder assisti-lo em sua missão. Quantos entre eles desejariam cumprir a sombra dessa missão, porque receberiam a sombra dos benefícios de que ela é causa.

Por este extracto da mensagem os espíritos poderemos verificar a importância da sua missão, a forma correcta como a executava, bem como a assessoria que possuía.

Em 1863, quando preparava a terceira obra da codificação, em Sainte-Adresse, obra que iria abanar as estruturas visíveis e invisíveis da religião instituída em grande parte do Planeta, iria aí começar verdadeiramente a luta tenaz para destruir a nova doutrina. Surgiria pela primeira vez a perseguição directa aos espíritas, negando-lhes em muitos locais o emprego e apedrejando-os muitas vezes, por instigação do clero mais retrógrado que gritava nos púlpitos e nos jornais que controlava o anátema, dizendo que os espíritas tinham pacto com o demónio.

Muitas vezes a calúnia e a maledicência persistentes maceravam o coração sensível do discípulo fiel d' A Verdade. Era a repetição do que fizeram a Jesus e aos seus discípulos.

Também, no mundo invisível, o clero que ainda se mantinha subjugado aos dogmas e às grandezas terrenas, preparava a obra que iria confundir alguns adeptos sinceros, pois tal obra procuraria recuperar a grandeza decadente do papado, atacando de forma subtil um dos princípios basilares do Espiritismo — a reencarnaçãoea justiça divina — recuperando, assim, a questão do privilégio, a questão da «graça». Estamos a falar da obra da médium Collignon de Bordéus e do seu orientador, o Dr. Roustaing.

Como dizíamos, Kardec estava recolhido em SainteAdresse a preparar O Evangelho segundo o Espiritismo, quando solicitou para a Sociedade uma comunicação dos espíritos para o orientar. Comunicação esta que lhe foi enviada e da qual deixamos aqui a seguinte passagem que não deixa quaisquer margens para dúvidas a respeito da impossibilidade de qualquer engano na obra que nos iria legar:

«Quero falar-te de Paris, embora não veja utilidade disso, já que meus sentimentos íntimos manifestamse à tua volta e teu cérebro apreende nossas inspirações com a facilidade que tu mesmo percebes. Nossa actuação, principalmente a do Espírito da Verdade, é constante sobre ti e é tal que dela não podes esquivar-te. É por isso que não entrarei em pormenores inúteis a respeito do plano de tua obra, que modificaste completamente, de acordo com os meus conselhos ocultos.» Desta passagem, fazemos apenas as três seguintes observações:

1ºFoi a primeira vez que nas notas de Kardec aparece o nome Espírito da Verdade de acordo com a tradição evangélica;

2ºPodemos verificar a plena sintonia, diria mesmo simbiose perfeita, do Codificador com o seu guia, o Espírito da Verdade;

3ºDizer que Kardec se enganou ou falhou na sua missão e que a Codificação está ultrapassada, é o mesmo que dizer que as lições de Jesus estão caducas e que o Espírito da Verdade se equivocou. É este o livro que encerra a obra monumental de Allan Kardec.

Texto: Carlos Alberto Ferreira

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