opinião Alexandre e Napoleão Em 343 a.C., o rei da Macedónia, Filipe I
Jornal de Espiritismo nº 10 · 2005Página 127 min
opinião Alexandre e Napoleão
Em 343 a.C., o rei da Macedónia, Filipe II, convidou o célebre filósofo grego, Aristóteles de Estagira, sábio discípulo de Platão, para mestre e preceptor do seu filho Alexandre que contava, apenas, treze anos. Aristóteles teria, à época, cerca de 40 anos e é provável que já tivesse iniciado as suas minuciosas investigações, no âmbito da biologia e das ciências
naturais, em colaboração com o seu discípulo Teofrasto.
Durante três anos, Alexandre foi discípulo de Aristóteles. Não se sabe ao certo o que lhe terá ensinado o filósofo. Sabe-se apenas que o mestre escreveu uma obra dedicada ao seu jovem discípulo, “Sobre a Monarquia”, de que não sobreviveram vestígios. Terá ainda preparado um texto da “Ilíada”, com comentários próprios, que Alexandre conservou consigo durante toda a sua vida. Aristóteles, com o seu enciclopédico saber, ter-lhe-á infundido o gosto pela poesia grega e pela observação da natureza.
Com a morte de Filipe II e a subida ao trono de Alexandre, a Macedónia depressa se converteria, de mera periferia das cidades gregas, no centro político do mundo helénico. Chegando às costas da Ásia Menor, o jovem caudilho venceu e pôs em fuga o rei persa Dario, em Issos. Desviou-se depois para o Egipto, apoderando-se da cultura mais antiga do Mediterrâneo que se encontrava moribunda. Na margem ocidental do delta do rio Nilo, fundou (c. 331 a.C.) uma cidade que foi o porto comercial mais importante do Mediterrâneo e o mais famoso centro cultural do mundo helenístico: Alexandria.
Voltando para trás, defrontou de novo e venceu Dario, em Gaugamela. A vitória abriu-lhe as portas das cidades do império persa. Entrou depois no coração da Ásia, cruzando a Média e a Partia.
Regista-se um facto curioso. Quando Alexandre, o Grande, empreendeu a sua expedição de conquista, incluiu no seu exército uma plêiade de cientistas gregos (botânicos, biólogos, geógrafos, zoólogos, engenheiros militares...) que o acompanharam até às distantes regiões da Índia, com a missão de estudarem, no âmbito das suas especialidades, os diferentes territórios pelos quais iriam passando na sua campanha de conquista.
À valiosa informação compilada era arquivada e sistematizada na Babilónia e que depois enviada para a Grécia, onde Aristóteles e Teofrasto, entre outros, a aproveitavam para escrever alguns dos seus tratados. Segundo parece, o próprio Alexandre participava dessa sede de conhecimento, sobre tudo o que se referisse à fauna, mostrando-se maravilhado ante animais como o pavão real f ou o elefanteconsiderado, certamente, uma , valiosa arma de combate.
Alguns autores, como | o geógrafo Estrabão, consideram inclusive que | durante o seu périplo asiático o general macedónio manteve uma relação epistolar com o seu mestre, na qual lhe expunha todas as novidades do que ia conhecendo; hoje em dia » considera-se incerta essa correspondência. À expedição de Alexandre à Ásia abriu uma nova etapa na história da ciência, cuja influência se estenderia por vários séculos.
Napoleão â« O tratado de Campo Formio, assinado a 17 de Á
campanha de Itália (1796-1797) onde se | revelaram as extraordinárias qualidades de estratego do jovem general Napoleão Bonaparte. * Regressado a Paris, recebido como um herói, nos meses que se seguem, sentindo a inacçãoea ambição que o dominam, comparando-se a Alexandre, Napoleão” escreve: “Paris pesa sobre mim como um manto de chumbo! A vossa Europa é um covil de toupeiras! Só no Oriente, com os seus seiscentos milhões de almas, se podem fundar grandes impérios e Jfazer grandes revoluções!
”" Apoiado por Bonaparte, Talleyrand, ministro das relações exteriores, fAz com que o Directório tome a decisão de ocupar militarmente o Egipto. O objectivo último de Napoleão era, a partir do Egipto, atingir a Índia por terra e pôr em cheque a supremacia do império inglês.
Outubro de 1797, marcou o fim da brilhante í
A 5 de Março de 1798, o general Bonaparte, então com 29 anos, recebe a responsabilidade de organizar a Expedição. Em dois meses e meio, com notável celeridade, põe em marcha a complexa operação militar. AÀ 19 de Maio uma esquadra de 328 navios, levando a bordo um exército de 38000 homens, parte do porto de Toulon.
Regista-se um facto original e único nas expedições europeias além-mar: Bonaparte, o matemático Monge e o químico Berthollet conceberam o plano de juntarem ao exército uma Comissão de Ciências e de Artes, representando todas as áreas e todo o saber da civilização ocidental, que prepararia e efectuaria seguidamente uma colonização do Egipto. Assim, além de um exército, Bonaparte levou consigo um excelente grupo de técnicos e de sábios, munidos de livros, duzentas caixas de instrumentos científicos e duas tipografias completas.
Berthollet foi encarregado do recrutamento, tão específico quanto delicado, e o general Caffarelli da direcção e da administração. A Comissão compreendia cerca de 150 membros classificados segundo cinco categorias: 1) Ciência puras: geómetras, astrónomos, químicos, zoólogos, botânicos, mineralogistas; 2) Ciências aplicadas: mecânicos, engenheiros de pontes e de açudes, geógrafos, médicos e cirurgiões; 3) Artistas: arquitectos, desenhadores, pintores, escultores e músicos; 4) Gente das letras: literatos, antiquários, economistas, orientalistas; 5) Tipógrafos. Mais de metade dos membros inscritos eram engenheiros ou técnicos.
No Cairo, Bonaparte reagrupa os membros mais eminentes da Comissão e determinadas altas personalidades do exército para formar um “Instituto do Egipto”, cujos 48 lugares foram repartidos em quatro áreas: matemáticas, física, economia política, artes e letras. A alma do Instituto foi o seu secretário perpétuo, Fourier, e os principais animadores Monge, Berthollet, Dolomieu, GeoffroySaint-Hilaire e, bem entendido, Bonaparte, que nunca deixou de assistir a
FaRREU, JÓCE KidMER LETO DANSON .HOF í o
Os acontecimentos, contudo, precipitaram-se, alterando os projectos de Napoleão. Informado das dificuldades internas e externas que se faziam sentir em França, a 19 de Agosto de 1799, Napoleão abandonou o seu exército no Egipto e regressou rapidamente a Paris. Aí, organizou uma conjura contra o Directório (Novembro de 1799). Senhor do poder, torna-se o homem providencial que evita o colapso em que a nação mergulhara e o rosto da Revolução que mudaria a face política da Europa. Ambicioso, impôs ao país o regime do Consulado. Primeiro cônsul, depois cônsul vitalício (1802), farse-á eleger, por fim, imperador dos franceses, em Dezembro de 1804, com o nome de Napoleão 1.
A expedição napoleónica foi um completo fracasso militar. Em Agosto de 1801, os franceses, derrotados pelos ingleses, tiveram de abandonar o Egipto, entregando aos recém-chegados todos os achados arqueológicos que tinham recolhido e estudado.
O barão Dominique Vivant Denon, pintor, gravador, escritor, que fez parte a Expedição ao Egipto, após regressar a Paris, ao publicar, em 1802, Voyage dans La Basse e La Haute Egypte, o relato da sua experiência pessoal, onde reúne um acervo de cento e quarenta e um quadros de paisagens, em formato grande, foi o primeiro a tornar o Egipto conhecido dos seus próprios compatriotas e de toda a Europa.
Apesar de a Expedição ter perdido o seu espólio para os ingleses, tal facto não chegou a causar um dano irreparável uma vez que tudo havia sido minuciosamente recopiado, até aos mínimos detalhes. Isto permitiu a publicação pelo governo (1809-1813), por ordem de Sua Majestade o Imperador Napoleão, o Grande, sob a presidência de Berthollet (até à sua morte em 1822) e sucessivamente sob a direcção de Conte, Lancret e Jomard, daquela que seria uma das mais extraordinárias e monumentais obras-primas da actividade editorial francesa: a Description de l Egypte (nove volumes de texto in folio e catorze ilustrações, incluindo novecentos mapas de zoologia, botânica, mineralogia, costumes, paisagens e arqueologia, documentados com amplos textos descritivos).
Duas centenas de artistas e gravadores participaram nesta obra. Os mapas de arqueologia trazem apenas breves e sumárias notas explicativas, visto que o significado das descobertas era, então, ainda totalmente desconhecido. Embora muito cara e, por conseguinte, ao alcance de poucas pessoas, o interesse que a obra despertou foi enorme. Até então, daquela misteriosa civilização, tudo o que se podia admirar eram alguns obeliscos em Roma, algumas pequenas esfinges, alguns escaravelhos em pedra, além de alguns papiros indecifráveis.
A “Descrição do Egipto” tornar-se-á o ponto de partida de uma nova ciência: a egiptologia. A Comissão das Artes e das Ciências será o embrião dos Champollions, dos Mariette e dos Maspero e de todos aqueles, investigadores e arqueólogos de todas as nações, que trarão de novo à luz o antigo Egipto.
Os factos semelhantes que se encontram nestas duas biografias podem não ser apenas coincidência. Uma vez que o Espírito pode conservar, em suas novas existências, os traços do carácter moral das existências anteriores, as suas manifestações podem ter, de uma reencarnação para outra, certas semelhanças (v. LE 216). Como os conhecimentos adquiridos ; em cada existência não se perdem, o Espírito * conserva uma vaga lembrança, sob a forma de Y) ideias inatas ou intuições, que o ajudam no seu M adiantamento (v. LE 218). As faculdades
* extraordinárias que os indivíduos apresentam — naturalmente, intuitivamente, têm origem em lembranças do passado e revelam o progresso anterior já realizado, do qual o Espírito não tem consciência (v. LE 219). Alexandre, o Grande, e Napoleão Bonaparte podem ser, hipoteticamente, duas reencarnações do mesmo Espírito em épocas diferentes.
Curiosamente, existe em Paris, no Museu do Louvre, uma cabeça de Alexandre, cópia do Alexandre com lança, esculpido por Lisipo, que foi oferecida a Napoleão Bonaparte por José Nicolás de Azara, embaixador de Espanha na corte napoleónica e seu fervoroso admirador.

