reportagem Curso para todos As dúvidas existenciais afectam cada vez m
Jornal de Espiritismo nº 10 · 2005Página 95 min
As dúvidas existenciais afectam cada vez mais o pensamento do ser humano. Jovens e idosos sabem que o corpo físico se perde na noite dos tempos e procuram novas realidades. Estão prontos a conhecer os fundamentos da filosofia espírita. Buscam a harmonia do seu “mundo” interior. E envolver-se em permanente terapia de luz.
É sábado. Dezassete horas. Um pouco menos. Ao todo são 15 os alunos do Curso Básico de Espiritismo que começam a chegar. Desde o dia 11 de Setembro de 2004 — data que assinala as “feridas” provocadas pelo massacre e sequestro de centenas de pessoas numa escola de Beslan (Ossétia do Norte).
A sala branca que os vai acolher é demasiado pequena para a euforia com que se cumprimentam. A afeição que reina entre todos é contagiante. “Sinto-me aqui muito bem. Adoro todos os meus colegas”, assegura Benilde Oliveira.
São jovens ... e alguns maduros! Trocam livros já lidos, enquanto aguardam a saída dos adolescentes que frequentam o Minicurso Básico de Espiritismo, que agora termina. Conhecem-se todos.
O bulício da grande cidade e o ritmo de vida que a sociedade moderna pratica levou-os a eleger o conhecimento dos problemas da existência humana como prioritário. “Quero conhecer-me a mim própria. E também aos meus irmãos, encarnados e desencarnados, para melhor os poder ajudar”, refere Júlia Barros. No seu íntimo, trazem conceitos equivocados de espiritualidade. E reconhecem a inevitabilidade de uma educação moral capaz de amenizar os exageros teológicos que culturalmente carregam.
Do passado, transportam conhecimentos formados, mas também dúvidas: “O que é o espírito? E a obsessão? A reencarnação é facto cientificamente comprovado ou não tem consistência? Os animais têm alma? ” Por inscrição directa, ou via internet, este grupo conferiu à Associação Sociocultural Espírita de Braga a responsabilidade de lhe transmitir novos entendimentos para corrigir distorções que, porventura, precisem de ser desfeitas, a fim de olhar e perspectivar o futuro de feição verdadeiramente nova.
Raquel Castro esclarece mesmo que “esta Associação não exclui o cariz científico do espiritismo. Aborda a doutrina tal qual ela foi codificada”. Há muito que esta casa espírita concorre grandemente para o imperioso aprimoramento intelectual e moral de quem dela se aproxima, mediante estudos doutrinários e demais actividades de valor mediúnico e assistencial. “Começámos a ministrar o Curso Básico de Espiritismo há mais de 20 anos.
Ininterruptamente”, afirma Noémia Margarido, monitora desde o primeiro curso.
As vertentes sociocultural, científica, educacional e prática em que esta formação assenta levam a associação a apostar cada vez mais na sua inovação. “Já passaram por este curso imensas pessoas ao longo destes 20 e tal anos. Alguns de três turmas”, acrescenta. Doutorados, licenciados, mas também analfabetos, encontram-se entre um leque muito variado de indivíduos, cujas dissemelhanças perspectivaram turmas interessantes e a partilha extremamente enriquecedora.
“ Vai continuar e não vemos, felizmente, o fim dele, porque é uma forma de esclarecimento muito grande”. O argumento apresentado por aquela trabalhadora espírita é o de que cada turma é diferente da outra e “vão ser os alunos que, de alguma forma, ditam o próprio nível do curso”.
das novas tecnologias de informação estão patentes no manual fornecido e constituem parâmetros essenciais para quem tem a responsabilidade de ensinar as vertentes científica, filosófica e moral do pensamento espírita. O objectivo final do Curso Básico de Espiritismo é o conhecimento pelo estudo e reflexão em grupo, ou em minigrupos, a partir de um referencial alicerçado em «O Livro dos Espíritos» e complementado pelas demais obras básicas de Allan Kardec.
Para contemplar as exigências de qualidade, actualização científica e envolvimento pessoal, a concepção do Curso assenta num dossier composto por 10 cadernos. No seu âmbito, engloba conteúdos predominantemente susceptíveis de modificação. “Fomos alterando os manuais, criando imagens, sempre na tentativa de melhorar e aperfeiçoar”, explica a formadora. Eugénia Lopes, outra monitora, acrescentou: “ Está estruturado de modo muito lógico, iniciando por uma panorâmica geral para, no decorrer do tempo, pormenorizar”.
Desta forma, facilita a percepção de “uma nova forma de ver e sentir a vida”. A opinião é generalizada entre os aprendizes, quando reconhecem que o compêndio está “bem construído” e que os textos “são simples e compreensíveis”. Entretanto, José Oliveira diz que apenas “mereciam mais um pouco de atenção por parte de todos nós”. Condicionados pela metodologia de trabalho, os desejos, as necessidades e as expectativas determinaram os efeitos formativos, ao mesmo tempo que explicitaram saberes que se reflectiram no decurso das aulas.
Para corresponder a esta exigência, os monitores “são pessoas que se preocupam em saber cada vez mais, para poder transmitir as coisas de forma mais correcta”, sustenta Vânia Nazaré.
espiritualidade elevada. É o que acontece naquela associação, onde “a maior parte dos assistentes às reuniões públicas são, ou foram, frequentadores de um curso”. Pela mesma razão, grande parte, senão a totalidade dos seus trabalhadores, “começaram por frequentar este curso e depois outros. E hoje são os dirigentes da casa”.
O mês de Junho é o prazo final para o encerramento desta formação que, segundo José Guilherme “foca os aspectos gerais do Espiritismo”, perfazendo, assim, um período de duração de 10 meses. “Não é muito longo porque a doutrina espírita é muito profunda e o tempo é pouco para explorar os casos mais importantes que ela tem para nos oferecer”, afirma João Paulo.
Pontualidade, disciplina, adequada técnica de comunicação, terminologia acessível, exemplos simples e permuta de experiências foram a trave-mestra e geraram, quer para os três formadores quer para os formandos, contributos importantes para a definição de laços afectivos. “Ao aluno pode parecer que não, mas a possibilidade de esclarecer dúvidas e partilhar o conhecimento é de uma riqueza extraordinária”, garante Noémia Margarido. Talvez por este facto se concretize, em breve, um novo projecto: “está em pensamento um outro curso. É sobre a Educação da Mediunidade”, confirma.
Estes estudiosos do Espiritismo, que já percepcionam alguns saberes e sustentam os seus princípios, estão agora empenhados em desvendar novas vertentes desta doutrina filosófica. E não vão, com certeza, perder o ensejo que lhes é gratuitamente facultado. Já sonham com o próximo curso.
Não será, assim, por insuficiência de participantes que a nova formação não se efectiva.
Texto: Maria Eugénia . Fotos: José Braga

