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Breves

Jornal de Espiritismo nº 100 · Maio 2020Página 64 min

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O olhar do médico perante a dor e o sofrimento Nesse exercício, ele é regido pelo código deontológico com base nos princípios da beneficência, da não maleficência, da autonomia e da justiça. Para além do código deontológico têm ainda sido aprovadas diversas leis que reforçam os direitos dos doentes. Mas todos estes princípios, regras e leis não obrigam à compreensão do sentir do doente em relação à sua doença.

Porque a compreensão desse sentir está para além das leis, passa pelo amor e pela compaixão, que não se impõem, apenas se sentem. Dentro de uma medicina materialista, reducionista, exclusivamente baseada na evidência, o médico centra-se na doençaenão no doente distanciando-se, dessa forma, do sentimento. Afinal, medicina é ciência, por isso, não venham falar de amor! Esta é a visão da medicina à luz do paradigma materialista, mas este paradigma é apenas um esboço do que deve ser a medicina, porque o exercício da medicina na sua plenitude tem de ir além do corpo físico.

Nas últimas décadas, já foram dados alguns passos nesse sentido. Cecyli Saunders – mulher extraordinária, criou os Cuidados Paliativos e introduziu o conceito de dor total, afirmando que a dor, para além do seu componente físico, tinha uma dimensão psicológica, social e espiritual. Depois de tanto tempo em que a ciência estava instalada no mundo exclusivo do racionalismo, ali estava ela estabelecendo uma ponte segura com o mundo das emoções e dos sentimentos.

Em Cuidados Paliativos o médico passa a centrar-se no doente e não na doença. O objetivo é aliviar a dor sofrimento numa perspectiva integral. Dentro desta área da medicina fala-se da necessidade de compaixão. E, compaixão é uma expressão de amor. Não há, pois, duvida que o amor já começa a ter lugar dentro do exercício da medicina atual, mas é preciso fazê-lo crescer. Porque apesar de se ter no amor o pilar principal da ação médica, isso não quer dizer que se descure o aspeto científico da medicina.

Pelo contrário, o amor expresso na vontade de diminuir a dor e o sofrimento contribuirá para o seu avanço contínuo. Mas fará muito mais do que isso… Porque na verdade, a maior parte daqueles que escolheram ser médicos, tiveram como móbil o desejo de ajudar, de aliviar o sofrimento do seu próximo e isso é amor. Mas, ao longo do tempo, no exercício da sua atividade profissional, pelo desenvolvimento e pela exigência dos aspetos técnico-científicos o médico aproximou-se cada vez mais da doença, distanciando-se, quantas vezes sem se aperceber, do doente… Há algum tempo, depois de me apresentar a um doente que estava internado, dizendo- lhe que seria, a partir daquele momento a sua médica, ele estendeu-me a mão e durante um cumprimento demorado, olhou- me nos olhos com um olhar sem esperança e disse-me: Muito gosto em conhecê-la, mas sabe, desde que adoeci já conheci 19 médicos… todos muito competentes, não duvido, mas nenhum me conheceu!

Mais palavras para quê? Percebi a mensagemaquele doente precisava de muito mais do que um tratamento eficaz para a sua doença, precisava de alguém que se aproximasse dele que o ouvisse nas suas dores e angústias, que lhe mostrasse compreensão e compaixão. E isso é amor! Em Cuidados Paliativos o médico passa a centrar- se no doente e não na doença. O objetivo é aliviar a dor sofrimento numa perspectiva integral. Dentro desta área da medicina fala- se da necessidade de compaixão.

E, compaixão é uma expressão de amor. Mas, o médico, para além de dar esse amor, deve fazer mais ainda: deve saber colocar-se como um agente facilitador da cura, estimulando o doente a ter um papel ativo perante a sua doençaea sua cura. Já Hipócrates, propondo um modelo integrado entre corpo e alma, dizia que o Homem tinha uma farmácia dentro de si. É, por isso, necessário estimular essa farmácia, ajudar o doente a descobrir e a desenvolver os “fármacos” disponíveis no seu íntimo.

O fármaco do otimismo, da harmonia, da esperança… E se não existirem, procurar atentamente uma motivação, seja ela qual for, que possa tornar a sua dor, o seu sofrimento, mais suportável. Muitas vezes, é na espiritualidade que o doente encontra esse suporte. Por isso, depois de se avaliar a recetividade do doente, deve- se incentivar a sua religiosidade ou espiritualidade, não no sentido de lhe incutir qualquer tipo de culto ou religião mas, simplesmente, de estimular os fatores positivos das suas próprias crenças, sejam elas quais forem.

Na atualidade são inúmeros os artigos publicados em revistas internacionais que mostram o benefício da fé e da oração no controlo de sintomas. Por tudo isto termino afirmando que a medicina do futuro estará alicerçada no Amor Universal, baseado nos ensinamentos de Jesus que apenas nos pediu para nos amarmos uns aos outros. Afinal, teremos sempre de falar de amor… Texto: Paula Silva foto pixabay Apesar da Organização Mundial de Saúde (OMS) definir saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, na prática a saúde continua a ser vista como a ausência de doença, onde o médico tem a função de a prevenir, diagnosticar e tratar quando surge.