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Jornal de Espiritismo nº 100 · Maio 2020Página 56 min
Vamos ficar bem Estávamos longe, muito longe de saber o que estava à nossa espera. Tantos planos de catástrofe simulados e ali estava uma verdadeira catástrofe não ensaiada. Para muitos com contornos de filme de terror, mas, para outros mais impressionáveis, um cenário esperado, previsto por muitos, como uma necessidade de limpeza terrestre, como parte da anunciada “transição planetária”. Sem sombra de dúvida, nenhum de nós estava à espera de tal apelo à capacidade de adaptação, de limitação da liberdade, de modificação da manifestação dos nossos afetos, de reaprendizagem da ocupação dos nossos tempos em família e da obrigatoriedade da convivência familiar, por um lado, e do afastamento social obrigatório de outras atividades que faziam parte do nosso dia a dia e da nossa higiene mental.
Há muito temos observado desencarnações coletivas de vária ordem, em várias partes do Globo terrestre, incluindo outras tantas pandemias, que assolaram populações inteiras e não escaparam decerto às leis de Deus e as necessidades evolutivas do nosso planeta. Não estamos a falar em apocalipse ou final dos tempos. Com toda a convicção, podemos afirmar que essa pandemia não foi a primeira, e também, por uma ordem natural, não seráaúltima.
Nesse cenário de pandemia, foi- nos retirada a primazia do TER, ensinando-nos que o essencial está no SER, porque tudo pode ser-nos retirado de repente. E, nesse contexto, elevaram-se conflitos de variada ordem, que aqui vamos chamar de efeitos colaterais do efeito COVID-19, objeto deste texto. Não deixa de assustar até os mais avisados, este movimento agora, em massa e globalizado, que não se compadece da etnia, género, raça, ideologia política ou orientação religiosa, que nos remete a todos para uma condição de vulnerabilidade.
Por outro lado, impele-nos a uma condição de luta, força e sobrevivência pela vida, dando - -lhe mais valor. À data, no dia 16 de abril de 2020, temos um total de 4.362.996 casos confirmados pelo SARS- CoV -2, relacionado com a síndrome respiratória aguda e responsável por um total de 297465 mortos e 1.558.462 de recuperados (OMS) em todo mundo, sem contar com aqueles que não fizeram testes e foram infetados por uma forma assintomática da doença.
Essa estirpe do vírus já identificada desde 2003 é responsável por esta pandemia (epidemia mundial de uma doença infecciosa, que abrange uma grande área geográfica como, por exemplo, um continente) denominada COVID- 19. Na história dos tempos, temos outras pandemias reconhecidas, como da cólera, gripe asiática, gripe suína, Tifo, gripe Aea atual COVID-19 que, em Portugal, de 2 de março a 16 de maio, tirou a vida material a 1203 pessoas.
Sabe-se que a maioria das pessoas infetadas tem uma infeção respiratória leve a moderada e recuperou sem necessidade de tratamento especial. Entretanto, pessoas mais vulneráveis com problemas médicos cardiovasculares, respiratórios graves, diabetes, baixa imunidade, ou doenças oncológicas (OMS) desenvolvem formas graves da doença com alta letalidade. Temos visto ondas de solidariedade, em todas as partes, fazendo apelo aos melhores valores da população em busca de apoiar o seu semelhante.
Esse momento de crise veio resgatar em nós o melhor de nós próprios através dos profissionais de saúde abnegados que deixam os seus lares para prestar o serviço ao próximo; dos agentes de autoridade que no exercício da sua função controlam a ordem e as diretrizes governamentais; do cidadão comum que respeita o estado de emergência, sabendo que o seu isolamento foi necessário para bem de todos; e dos cidadãos que, numa onda de solidariedade, lembram-se dos menos favorecidos que do dia para noite deixaram de receber o seu salário; ou de ter um emprego temporário.
Como em toda a crise, somos levados a rever os nossos valores, reajustar as nossas opções de vida, a equacionar os nossos tempos e espaços de trabalho e lazer. Por outro lado, é posta em causa a nossa busca de espiritualidade face à fragilidade da vida e, por fim, até o nosso plano existencial. Podemos arriscar-nos a dizer que nada voltará a ser como dantes. Surgem naturalmente os conflitos colaterais do COVID-19 face ao confinamento, que dizem respeito à obrigatoriedade do convívio, que exacerba os problemas familiares em famílias já de si mais vulneráveis à violência doméstica; as paranóias que dizem respeito a delírios de infestação, “se todos vamos ficar contaminados, todos vamos morrer”; a delírios de ruína, “se vamos morrer, mais vale a pena acabar já com a vida”; já se tendo registado casos de suicídio neste contexto; aumento de ansiedade pelo medo da contaminação e por força do excesso da informação fornecida pelos órgãos de comunicação social, situações de fobia que transcendem a necessidade do isolamento e refletem o pânico do contacto social, aumentando a procura de apoio emocional e psiquiátrico em pessoas que até nunca necessitaram de seguimento e em outras que se encontravam estáveis.
Para além, desses efeitos atuais, já temos sentido, outros que provêm das consequências económicas e financeiras que a pandemia tem gerado, com uma grande crise na maior parte das famílias, com a perda económica, causando instabilidade emocional, aumento de perturbações de ansiedade e depressivas, pelos problemas causados pelo desemprego em tecidos sociais mais frágeis. Num primeiro momento, outro motivo de ansiedade e pânico para os que têm uma sensibilidade para o despertar espiritual foi o confronto com os seus compromissos assumidos face à sua consciência espiritual, questionando serem merecedores ou não do novo “planeta regenerado”, fruto de um sentimento inútil de culpabilidade, sentimento este, desnecessário e pouco favorável à saúde física e mental.
Em primeira instância, como se do dia para a noite o planeta fosse passar de planeta provação/expiação para planeta de regeneração, como se essa fosse a última oportunidade para nos tornarmos homens de bem! Devemos ser úteis à família, à sociedade e ao nosso próximo de acordo com as nossas possibilidades e com a consciência que estamos a fazer o nosso melhor a cada dia. Estamos a passar por um período em que nos é pedida uma grande capacidade de adaptação, resiliência e provação.
Onde os valores essenciais sobrevêm para a sobrevivência. Separamo-nos fisicamente para nos proteger e nos unir. Ficam os laços essenciais, os do coração, os valores morais, que unem as pessoas para além das crises que os separam. As pessoas saem das ruas e resguardam - -se e só sobrevivem se finalmente, numa crise de saúde pública, se unirem e fizerem algo, uns em prol dos outros. Quanto mais agirmos egoisticamente, mais se propagará a doença.
Como tudo nas nossas vidas passa, este é mais um cenário que também irá passar. Faz parte da evolução necessária e da nossa própria transição, esperada e desejável, a fim de nos tornarmos seres melhores. De um planeta de prova e expiação para um planeta de regeneração, mas esse também é um processo que não dá saltos e que se dará através de vários processos interiores de mudança. Muitos de nós ficarão e outros irão partir com muitas funções edificantes para a pátria espiritual ou para outros lares, mas com a certeza de que nunca ficaremos desamparados, apoiados firmemente pelo nosso mentor maior, não sendo esse o anúncio dos fins dos tempos, mas, simplesmente, porque faz parte do nosso processo evolutivo.
Cabe uma palavra final. É útil diariamente fazer-se um exercício de consciência, aceitando com serenidade tudo que nos é dado, fazendo o nosso melhor por nós mesmos e pelo nosso próximo mais próximo, como aprendizes do verdadeiro amor. Por Gláucia Lima Médica Psiquiatra, Terapeuta com Formação em Terapia Familiar e Abordagem Sistémica, Psicodrama; Terapeuta Transpessoal. foto pixabay “Vamos ficar bem!” – este é o lema mais ouvido e cantado no momento entre todos os povos e em todas as línguas.
Tornou-se um desejo universal! Iniciamos o ano de 2020 a dizer “Este é que é!”, prenunciando, um ano diferente, vindouro, anunciador de uma nova era, de um mundo novo, de novas oportunidades, um ano “supertop” 10 (20 20). MAIO.JUNHO.
