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Entrevista (pág. 9)

Jornal de Espiritismo nº 100 · Maio 2020Página 97 min

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espíritas, e ouvindo muito atentamente o que ali se dizia e principalmente quando a pessoa incumbida de comentar o Evangelho começou a falar, a minha admiração aumentou. Como era possível, uma pessoa que eu conhecia, cuja formação era a 4.ª classe, falasse de uma forma fluente e precisa, transmitindo factos do Evangelho com ideias tão claras? A partir daí, comecei a participar nestas reuniões, procurando estudar a doutrina espírita.

Lembra-se de como era o movimento espírita antes do 25 de abril de 1974? Isaías Sousa – Sobre o movimento espírita antes da Revolução de 25 de abril de 1974, as informações que tenho advêm de conversas de algumas pessoas amigas, algumas das quais vim a conhecer em reuniões e congressos. No âmbito daquelas informações, vim a saber que o movimento espírita em Portugal, continental era muito reduzido, para não dizer quase nulo.

E, digo isto, porque conheci a dificuldade e a cautela que determinados movimentos tinham de ter para realizar algumas reuniões de planeamento contra a ditadura. Lembro - -me de, após ter saído do Seminário, ter participado em algumas reuniões estudantis e sindicais, onde cada um dos frequentadores entrava à socapa para que não fosse descoberto e denunciado à PIDE (polícia política). Pelo que, tendo em conta as perseguições e denúncias que havia antes do 25 de abril, e o Governo ditatorial ter extinguido a Federação Espírita Portuguesa (FEP) com a consequente espoliação dos seus bens, se havia algum movimento, ele confinava-se a reuniões caseiras, muito embora, no Ultramar já começasse a despontar o movimento.

O que mudou até hoje? Isaías Sousa – Desde o momento que conheci a doutrina espírita até aos dias de hoje, o movimento espírita português tem evoluído nos processos de divulgação. Quero aqui referir um Congresso Nacional de Espiritismo, que teve lugar em Lisboa em 8, 9 e 10 de novembro de 1994, promovido pela FEP, a que se seguiu quatro anos depois de um outro congresso mundial decorrido de 30 de setembro a 3 de outubro, sob a organização da FEP e do Conselho Espírita Internacional, que muito contribuíram para uma mais ampla abertura no conhecimento e na sua divulgação.

Embora, nem sempre, tenha havido uma preocupação para primar no referencial doutrinário, a verdade é que de uma maneira geral tem havido progresso e evolução. No entanto, gostaria de chamar a atenção para o seguinte facto: no âmbito da minha profissão, como Revisor Oficial de Contas e antes de iniciar o meu trabalho, a pergunta que fazemos é a seguinte: “Qual o referencial contabilístico que utiliza na preparação das demonstrações financeiras?

”. E, naturalmente que sou informado desse referencial, com o qual concordo ou discordo. Assim, para que os espíritas continuem a evoluir, a primeira pergunta que devem fazer é a seguinte: Qual o referencial doutrinário que devo utilizar no estudo da doutrina espírita? A resposta terá de ser bem clara, e não pode ser outra que não seja esta: as obras da Codificação: “O Livro dos Espíritos”, “O Livro dos Médiuns”, “O Evangelho Segundo Espiritismo”, “O Céueo Inferno” e “A Génese”.

Depois, quando dominar este referencial doutrinário, então poderá complementar o estudo com outras obras. Porque, se não se conseguir dominar com toda a plenitude este referencial doutrinário, de certeza que se haverá equívocos. Fundou com outros amigos uma associação espírita, a Escola de Beneficência. Pode falar-nos um pouco disso? Isaías Sousa – Antes de fundar a Escola de Beneficência e Caridade Espírita, em S. João de Ver, participei na fundação de uma outra: o Centro Espírita Cristão, de Fiães.

Como referi, no início, as nossas reuniões eram realizadas numa casa de um confrade e nos montes. Depois começou a pensar-se numa casa exclusivamente para estas reuniões de estudo. E se, assim se pensou, de imediato começou a planear a legalização do grupo em associação nos termos da lei civil. Assim, surgiu a legalização desta primeira associação no Cartório Notarial de Espinho que, por alguma influência e conhecimento que tinha neste cartório e apesar das dificuldades subjacentes ao ato, ao preconceito ainda existente sobre o Espiritismo, lá fomos 13 pessoas para o Cartório, onde o notário, que por sinal era uma senhora, acabou por nos ajudar, aperfeiçoando os estatutos.

Acabou por fazer a escritura de constituição, a que se chamou Centro Espírita Cristão de Fiães. Volvidos alguns anos, começaram a surgir algumas divergências, quanto aos processos de estudo. E, um grupo, no qual me incluo, decidiu afastar-se e constituir uma nova associação. O nome foi decidido numa manhã de domingo, numa reunião do grupo, no monte da Senhora da Saúde dos Carvalhos, a que se deu o nome de Escola de Beneficência e Caridade Espírita.

Inicialmente as reuniões de estudo eram realizadas numa cave em Cucujães. Posteriormente foi decidido colocar mãos à obra para a construção de uma casa exclusivamente destinada ao estudo e reuniões e propriedade da associação. Depois de alguns percalços e indeferimento do projeto de construção para uma determinada localidade, surgiu a oportunidade de construir na localidade de S. João de Ver. Mediante a experiência adquirida, houve a preocupação de colocar no papel a proibição a determinadas circunstâncias que pudessem desembocar no personalismo e consequentes desvios doutrinários.

Apesar de todos os anos passados, com muita alegria o digo, a EBCE tem mantido os princípios fundamentais da doutrina e a afluência dos que querem conhecer a doutrina no seu estudo sistematizado tem sido progressivo. Foi o principal responsável pelo surgimento do JORNAL DE ESPIRITISMO, publicado pela ADEP. O 1.º n.º em novembro de 2003. Passadas duas décadas, está arrependido? Isaías Sousa – Quando se começou a falar no projeto ADEP – Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal, disponibilizei-me de imediato sem quaisquer reservas.

Depois de várias reuniões de planeamento, onde foi discutida a estratégia de divulgação, foi apresentado um plano de trabalho de divulgação, tendo em conta as novas tecnologias que começavam a aparecer. Assim, começámos por constituir em associação a ADEP, num dos cartórios notariais de Santa Maria da Feira, onde tive o prazer de colocar na escritura a minha assinatura. De seguida, surge a ideia de publicar o “Jornal de Espiritismo” que, com o trabalho árduo de jornalismo e encabeçado por pessoas competentes nesta área e noutras áreas como grafismo, paginação, financeira e logística, surge um primeiro número em novembro de 2003.

Penso que foi um êxito, quer pela novidade quer pelo conteúdo, sendo de realçar a sua continuidade com muito mais pessoas envolvidas. Assim tudo que possa contribuir para a divulgação, na parte que me diz respeito, jamais será alvo de arrependimento, antes pelo contrário. Fala-se que no futuro os jornais serão eletrónicos. Na sua opinião é importante manter a versão impressa em papel deste jornal? Isaías Sousa – Apesar da era da digitalização estar em constante progresso, penso que as edições em papel continuam a ter o seu lugar muito próprio.

Sou um defensor da desmaterialização dos papéis em suporte digital, tendo em conta a comodidade de arquivo, quer em espaço quer mesmo na pesquisa desses mesmos papeis. Mas, apesar disso, para mim é muito mais fácil ler e estudar documentos em papel do que em suporte digital. Acredito que as edições em papel, no curto prazo prazo, continuam com o seu lugar na sociedade. Na minha opinião, o “Jornal de Espiritismo”, e tendo em conta os objetivos de divulgação, tem na sociedade um impacto de visibilidade muito maior, quando apresentado em papel do que em suporte digital.

A iliteracia está associada às ferramentas de estudo, como os livros. Pode ser - -se espírita sem estudar espiritismo? Isaías Sousa – De maneira alguma. Se atentarmos na definição do Espiritismo – sendo uma doutrina científica, filosófica de consequências morais, chegamos à conclusão que só através do conhecimento podemos adquirir bases racionais que nos permitem criar uma estrutura de sustentabilidade. Não basta dizer que se acredita nos pilares em que assenta a doutrina espírita, sem antes criar fundamentos que possam explicar todos os conceitos adquiridos numa base racional e de lógica e mais do que isso prever as consequências.

Entendemos que, a maior consequência do conhecimento da doutrina espírita é a renovação moral. Ora, se o indivíduo não estuda o espiritismo e não projeta uma ideia generalizada do seu futuro, não poderá planear a sua vida de forma a ultrapassar as dificuldades ou edificá-la em utilidade esperada. Desta forma o estudo do espiritismo permite-nos alcançar conhecimentos de análise ao nosso passado, vivenciando o presente e planeando o futuro.

Quer deixar alguma mensagem no final desta nossa conversa? Isaías Sousa – Conhecendo a doutrina espírita, chegamos à conclusão que nunca estamos sós e as dificuldades vividas estão a um passo de distância da sua resolução. Quando se começou a falar no projeto ADEP – Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal, disponibilizei-me de imediato sem quaisquer reservas. Depois de várias reuniões de planeamento, onde foi discutida a estratégia de divulgação, foi apresentado um plano de trabalho de divulgação, tendo em conta as novas tecnologias que começavam a aparecer.

Assim, começámos por constituir em associação a ADEP, num dos cartórios notariais de Santa Maria da Feira, onde tive o prazer de colocar na escritura a minha assinatura. MAIO.JUNHO.