so aprender fazendo
Jornal de Espiritismo nº 11 · 2005Página 94 min
E por isso que todo o processo de educação deve ter espaço para a acção livre, em que o educando produza coisas: pesquisas, debates, relatórios, observações, teatro, textos, multimédia, filmes, obras de arte... seja o que for. Todo o aprendizado deve resultar numa produção. E toda a produção deve ter um elemento estético. Já dizia Platão da identidade ontológica entre o Bem e o Belo. Deve-se habituar a criatura a buscar a perfeição, a beleza, a harmonia em tudo. E da educação mediúnica?
D.I. — Bom, aí, já tenho de quebrar alguns tabus reinantes no movimento espírita (pelo menos no brasileiro). Assim como para o desenvolvimento de qualquer outra pontencialidade do ser, a prática e a liberdade são essenciais e são completamente antipedagógicos os cursos apostilados, com passos iniciáticos.
Em primeiro lugar, a pessoa não se torna médium, ela é médium. Precisa de aprender a controlar o fenómeno, a direccioná-lo para o bem, etc. À educação mediúnica é a aprendizagem teórica e prática de como se conduzir uma mediunidade que Já está à flor da pele. Por isso, é absurdo fazer a pessoa esperar anos, fazendo cursinhos, para só depois poder se exercitar. Nessa altura, a mediunidade já se embotou.
Outro tabu a ser quebrado no movimento espírita e não o faço em meu nome, mas era Kardec que pensava e agia assim, é a questão das idades. As grandes mediunidades começam cedo, geralmente na adolescência, às vezes até na infância. Então, não se pode esperar que o adolescente e o jovem façam anos de cursos, como muitos centros aqui propõem, para depois darem vazão à sua mediunidade. Lembremo-nos que O Livro dos
Espiíritos foi ditado através das duas meninas Boudin, uma de 14 outra de 16 anos. Nesse sentido, conto minha própria experiência: aos 11 comecei a psicografar, aos 14 li sozinha, de cabo a rabo, O Livro dos Médiuns e, aos 15, sentei-me à mesa mediúnica e comecei a receber espíritos, sob a orientação de Herculano Pires. O desenvolvimento tlem de ser natural, sem formalidades. E preciso estudar sim, e muito e sempre. Mas o estudo só faz sentido com a prática. Senão, daqui a pouco, aliás já o querem alguns, teremos um espiritismo sem espíritos.
Qual a importância da família numa Educação Integral?
D.I. — A família é essencial no processo da educação. Mas é preciso resgatar algo perdido neste mundo do trabalho desgastante e escravizante do neoliberalismo global: a vida privada, a vida em família. As pessoas hoje não têm mais tempo para estar com o outro. E o principal de uma educação equilibrada é ter tempo para estar com os filhos, para conversar, brincar, contar histórias, observar as tendências positivas e negativas dos espíritos que vieram até nós...
Educar dá trabalho: muito diálogo, muita atenção, muitas noites sem dormir. Digo sempre que há dois extremos a serem evitados na educação em família, que são aliás os mais comuns. O primeiro é o do “faça o que eu mando senão vais ver o que te acontece”. O segundo é “faz o que quiseres, contanto que não me aborreças”. O primeiro é o modelo autoritário, o segundo é o do indiferentismo. Nenhum dos dois é educação. A educação não é nem um condicionamento à obediência, nem um laissez-faire.
E orientar sem impor, doar sem exigir, mas estar presente o tempo inteiro, com amor intenso e preocupação, mas sem sufocar...
D.I. — As escolas deveriam ser o local privilegiado do desenvolvimento integral da criança. Mas para que isto de facto ocorresse, seria preciso uma reformulação total do seu funcionamento. Já desde o ambiente — cadeiras e quadros negros, sem verdes e coloridos —, deveria ser substituído por algo estimulante. Salas ambientes, ambiente marcado pela natureza, computadores, salas de teatro, música, laboratórios etc. De seguida, o ensino fragmentado, desinteressante, de conteúdos que os alunos não sabem de onde vieram, para que servem e que sentido têm, deveria ser trocado por projectos interdisciplinares, produções, aulas-passeio — ou seja, seria preciso trazer mais vida à sala de aula.
Deveríamos trabalhar a partir do interesse das crianças e não impor-lhes programações insípidas, rígidas. Em Portugal, há uma escola, que ainda não visitei, mas de que se fala muito no Brasil — a Escola da Ponte, que me parece funciona um pouco desta maneira.
D.I. — Também a Universidade é um local que precisa de mais vida. Quando digo vida, falo em liberdade de expressão, em participação, em acções concretas, em conhecimentos práticos, em interacção com a comunidade. Enfim, seja no ensino das crianças, adolescentes ou jovens ou mesmo em qualquer aprendizado de adultos, é preciso acabar com a maneira de ensinar apenas por abstracções, sem ressonância com o interesse de quem aprende e sem relação com a realidade.
Outra questão importante, no conceito de liberdade de pensamento, é que na Universidade devemos questionar a hegemonia do pensamento materialista — que não é necessariamente científico, pois o materialismo é um pressuposto filosófico. Devemos abrir espaço, contra os preconceitos académicos, para a discussão de filosofias espiritualistas — como a espírita — e para a pesquisa de fenómenos e factos que demonstrem a evidência do espírito. Como analisar a qualidade pedagógica de uma associação espírita?
D.I. — Pelo grau de liberdade de expressão dos seus participantes, pela participação igualitária de todos, pela presença de projectos culturais e educacionais, pela predominância da visão pedagógica em todas as actividades. A assistência social, a parte mediúnica, a juventude, a infância, os grupos de estudo — tudo deveria estar embebido da finalidade máxima da doutrina espírita — que é a educação. E quando digo educação, estou a referir-me ao desenvolvimento das potencialidades do espírito, num clima de amor e liberdade. Isso significa não criar hierarquias, idolatrias, gurus de qualquer espécie, distância burocrática entre as pessoas, mas nos relacionarmos de forma despojada, amistosa
