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Opinião Nenhum homem é uma ilha A frase “Nenhum homem é uma ilha”, de

Jornal de Espiritismo nº 15 · Março 2006Página 94 min

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John Donne, resume a ideia de que ninguém vive isolado do mundo e dos outros, o que nos leva a dizer que Deus não criou o Homem para este viver sozinho. Na realidade, é difícil imaginar como seria vivermos totalmente isolados, não termos ninguém com quem falar, com quem partilhar os nossos sentimentos, os nossos gostos… Não termos amigos, família… Não transmitirmos as nossas alegrias, não termos com quem desabafar as nossas tristezas, os nossos problemas… Será que teríamos a noção do que são essas emoções?

Tratando este tema com clareza, diz-nos «O Livro dos Espíritos»: “766. A vida social é uma obrigação natu- ral?” “Certamente. Deus fez o homem para viver em sociedade. Deus deu-lhe a palavra e todas as demais faculdades necessárias ao relacionamento.” De facto, todas as faculdades que Deus nos deu de nada nos serviriam se vivêssemos isolados no mundo. “767. O isolamento absoluto é contrário à lei natural?” “Sim, uma vez que os homens procuram por instinto a sociedade, para que todos possam concorrer para o progresso ao se ajudarem mutuamente.

” Como vemos, nós sentimos a necessidade de conviver, de estarmos acompanhados, de vivermos em sociedade. É realmente como nos dizem os Espíritos, que o nosso instinto leva-nos a procurar o convívio, o progresso. Mas esse progresso só se torna realidade quando vivemos com os outros. “768. O homem, ao procurar viver em so- ciedade, apenas obedece a um sentimento pessoal, ou há um objectivo providencial mais geral?” “O homem deve progredir, mas não pode fazer isso sozinho porque não dispõe de todas as faculdades; eis por que precisa se relacionar com outros homens.

No isola- mento, se embrutece e se enfraquece.” Analisando do ponto de vista do desen- volvimento do ser humano, as coisas com- plicam-se ainda mais. Considerando que a criança aprende a comportar-se, a andar, a falar, a manifestar emoções, etc., com base no exemplo daqueles que o rodeiam, como isso seria possível se vivêssemos todos isolados? Não seríamos meros “vegetais”, parados no tempo? Isso já para não falar em toda a dinâmica da lei de acção e reacção que suporta a teoria da reencarnação, que perderia todo o sentido.

Na ausência de outros Espíritos ao nosso redor, não have- riam erros a pedirem uma expiação, nem provas a desafiarem-nos no relacionamento com aqueles que nos ofenderam e a quem ofendemos. Não haveria necessidade de aprender a perdoar, a compreender, a amar. Não haveriam os carinhos, os abraços, os beijos, o amor… Não haveria vida! Então, todos precisamos uns dos outros, para podermos unir as nossas capacidades, a inteligência e sabedoria, completando- -nos e apoiando-nos no caminho evolutivo.

Lembremos que nenhum homem, seja ele quem for, possui faculdades completas. Já em tempos remotos, na Antiguidade, a so- brevivência de todos devia-se à existência da comunidade, em que cada um fazia o que sabia melhor. Aquele que melhor cui- dava de aves, criava galinhas, e o que tinha mãos talhadas para o trabalho na terra, cuidava dos legumes. Pelas trocas, todos desfrutavam de todos os alimentos, numa base de apoio social e negócio.

Todos sabemos que meia dúzia de cabeças pensam melhor do que uma só, dez braços trabalham mais do que dois. Mas isto é óbvio, e quem pensar que consegue viver sozinho, pensar sozinho, está a ser egoísta, pois dessa forma só mostra que não está interessado em partilhar a sua inteligência, as suas forças, não quer dividir nada do que lhe pertence, na ilusão de que desse modo consegue ser mais feliz. Mesmo estando a sociedade (ou a vida so- cial) na Natureza, existe sempre quem sinta vontade de se isolar, de não conviver com ninguém, trabalhar só para si e esquecer tudo o que o rodeia.

É o caso dos eremi- tas, que se dirigem a lugares longínquos e isolados nas montanhas, e se refugiam em grutas, onde levam uma vida de total isolamento. A este respeito, diz-nos o Livro dos Espíritos: “769. Compreende-se, como princípio geral, que a vida social faça parte na natureza; mas, como todos os gostos estão também na natureza, porque o gosto pelo isolamento absoluto seria condenável se o homem encontra nele sua satisfação?

” “Satisfação de egoísta. Há também homens que encontram satisfação em se embriagar; vós os aprovais? Deus não pode ter por agradável uma vida em que o homem se condena a não ser útil a ninguém.” “770. O que pensar dos homens que esco- lhem viver em reclusão absoluta para fugir do contacto nocivo do mundo?” “Duplo egoísmo.” a). Mas se esse retiro tiver por objectivo uma expiação ao lhe impor uma privação pesarosa, não é meritório?

” “Fazer antes o bem do que o mal é a melhor expiação. Ao evitarem um mal, caem em outro, uma vez que se esquecem da lei de amor e de caridade.” Então, por motivo algum nos devemos iso- lar, mesmo que nos pareça que é o melhor a fazer. De nada nos vale escondermo-nos, isolarmo-nos é pararmos no tempo, é quase deixarmos de viver. O que seria do mundo se o homem não vivesse em sociedade? O que seria de nós se vivêssemos isolados, sem amigos e sem uma família?

De que nos serviriam os sen- timentos, para quê lutar? Ou melhor ainda, será que conheceríamos os sentimentos do modo que os conhecemos? De nada valeria tentar. Certas palavras poderiam mesmo ser elimi- nadas do dicionário, ou nem chegariam a existir… Amor, Carinho, Amizade, Festa, Alegria, Convívio, Sociedade… Na verdade, Deus pensou em tudo. Porque vivendo nós em sociedade, experimenta- mos muitos sentimentos: amar, acari- nhar, criar amizade, festejar, trabalhar em grupo, respeitar, conviver, ser felizes!

Enfim, vivemos em sociedade! E percebemos que ao invés de vivermos isolados, é muito mais saudável e eficaz sabermos viver com os outros.