na viciação de toda a natureza, conduzindo ao suicídio indirecto e dir
Jornal de Espiritismo nº 2 · 2004Página 164 min
s, na viciação de toda a natureza, conduzindo ao suicídio indirecto e directo.
Não faltam lamentavelmente exemplos desses desastres existenciais. Não obstante, tal evidencia no encarnado, e naturalmente no desencarnado, a falta de moralidade e o deficiente sentido espiritual da vida.
A noção do «orai e vigiair como alertava o sublime carpinteiro de Nazaré, só encontrará utilização eficaz no ser humano que, tendo ciência da sua natureza espiritual, procura no autoconhecimento a descoberta dos seus defeitos. Seus conteúdos mentais enriquecidos pela luz do conhecimento dos valores do espírito ampliarão a sua capacidade discernente (sua razão) e a consciência moral desperta torna o homem mais reflectido favorecendo a acção volitiva na sua resistência aos estímulos ou sugestões contrários ao bem que decorrem do lastro viciado da alma fruto das quedas de anteriores existências.
O bom combate que visa conduzir ao autocontrolo encontra o seu fundamento ou roteiro seguro no recurso às forças morais.
Só elas podem conduzir e fortalecer o homem nas batalhas evolutivas. O pensamento é a fonte da vida que não pode ser descurado. As forças mentais de
que decorre devem ser cuidadas, purificadas nos ideais superiores e ampliadas e aplicadas na elaboração de renovação de propósitos, hábitos, atitudes, por forma a produzirem condutas sadias e ajustadas à inspiração nobre do Mestre Divino.
A experiência carnal é abençoada escola onde o espírito aprende a desenvolver as potencialidades anímicas, ainda em estado latente, na sua maioria, por isso importa que se vincule às fontes superiores donde procede que o inspiram e animam em todas as vicissitudes que deve enfrentar e pelas quais terá de passar inevitavelmente. O seu crescimento se dará sempre pelo reajuste da sua conduta aos princípios ético-morais sempre mais elevados.
Um dos dramas do espírito encarnado ou desencarnado reside na fixação mental (a criatura nada mais vê, nada mais ouve, na mais sente além da esfera desvairada de si mesmo). A ideia fixa, que pode resultar da auto-obsessão, torna-se num campo aberto à incidência hipnótica de mentes maléficas que espreitam as invigilâncias dos incautos, para levá-los ao retardamento evolutivo. É causa de estagnação da vida mental no tempo e no espaço e muitas vezes a via para os atentados à autodestruição corpórea.
O espírito isola-se do mundo externo passando a vibrar unicamente ao redor do próprio desequilíbrio cristalizando-se no propósito infeliz.
«A mente é soldado em luta pela transcendência que iluminada pelo sol do amor divino, amparada nos ideais da verdade, do amor e beleza sobe verticalmente os degraus da evolução vitorioso e feliz.
Os «escândalos» que assolam as sociedades humanas — sendo o testemunho da imoralidade nos vários quadrantes sociais, culturais, políticos, económicos, religiosos — mostram que as mentes que se comprazem nas sombras encontraram no homem fiísico do nosso tempo, alheado da sua condição de espírito encarnado, instrumento dócil aos seus desmandos. Naturalmente que os semelhantes atraem os semelhantes, logo a afinidade e a simpatia com o que é indecoroso, injusto, impuro e maléfico estabelecem a adaptação psíquica de processo sintónico e aí temos por toda a parte a exemplificação da irresponsabilidade moral e espiritual com os suicídios de tipos diversos a aumentar o número dos infelizes nos dois planos de vida.
Compadeçamor-nos de todas essas almas, nossas irmãs, pois que a «loucura moral encontrará no Divino Médico a terapia adequada ao seu saneamento, quando esses comparsas do mal, agentes dos infortúnios alheios descobrirem que apenas lesaram a si mesmos.
Registamos um caso que Kardec transcreveu na «Revista Espírita» (Revue Spirite) de 1862 e que se intitula «Duplo suicídio por amor e dever».
Estudo moral: a senhorita Palmira, modista, residente com os pais, era dotada de um físico encantador, ao que se juntava um carácter muito amável. Era por isso muito assediada por propostas de casamento. Entre os aspirantes à sua mão tinha preferido o sr. B, por quem experimentava uma viva paixão. Posto o amasse muito, entendeu, pelo respeito filial, ceder à vontade dos pais de desposar o sr. D, cuja posição social lhes parecia mais vantajosa. O casamento foi celebrado. Os srs. BeD eram amigos íntimos. Posto não tivessem nenhum interesse comum, não deixaram de se ver.
O amor do sr. B e de Palmira — agora sr.ºnão havia morrido. E como se se esforçassem por cumpri-lo, ele aumentava em razão do mesmo esforço. Para tentar apagá-lo o sr. B tomou o partido de casarse. Casou-se com uma moça de belas qualidades e fez todo o possível por amála. Mas não tardou a perceber que esse meio heróico era inútil para curar-se. Não obstante, durante quatro anos, foram correctos nos seus deveres de conjugais. Não se poderia descrever o que eles sofreram, porque D, que amava verdadeiramente o seu amigo, o atraía para casa e, quando ele queria fugir, o obrigava a ficar.
Enfim, algum tempo após, aproximados por uma circunstância fortuita, os dois amantes não resistiram à paixão que os arrastava um para o outro. Apenas cometida a falta, sentiram o mais terrível remorso. A jovem sr.º lançou-se aos pés do marido e disse-lhe em soluços: «Enxoteme; mate-me! Agora sou indigna de sb. E como ele ficasse mudo de espanto e de dor, ela lhe contou as suas lutas, seus sofrimentos, tudo quanto lhe tinha sido preciso de coragem para não falir mais cedo. Fê-lo compreender que dominada por um amor ilegítimo, jamais tinha cessado de ter por ele o respeito e a estima de que era digno.
Em vez de amaldiçoá-la, o marido chorava. B chegou em meio a esta cena e fez idêntica confissão. D ergueu a ambos e disse: «Sois dois corações leais e bons. Só a fatalidade vos tornou culpados. Nos vossos pensamentos li sinceridade. A punição está no pesar que sentis. Prometei-me que vos deixareis de ver e não tereis perdido nem a minha estima nem a minha afeição.»
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