opinião Registamos um caso que Kardec transcreveu na «Revista Espírita
Jornal de Espiritismo nº 2 · 2004Página 154 min
Registamos um caso que Kardec transcreveu na «Revista Espírita» (Revue Spirite) de 1862 e que se intitula «Duplo suicídio por amor e dever.
Estudo moral: a senhorita Palmira, modista, residente com os pais, era dotada de um físico encantador, ao que se juntava um carácter muito amável. Era por isso muito assediada por propostas de casamento. Entre os aspirantes à sua mão tinha preferido o sr. B, por quem experimentava uma viva paixão. Posto o amasse muito, entendeu, pelo respeito filial, ceder à vontade dos pais de desposar o sr. D, cuja posição social lhes parecia mais vantajosa. O casamento foi celebrado. Os srs. BeD eram amigos íntimos. Posto não tivessem nenhum interesse comum, não deixaram de se ver.
O amor do sr. B e de Palmira — agora sr.ºnão havia morrido. E como se se esforçassem por cumpri-lo, ele aumentava em razão do mesmo esforço. Para tentar apagá-lo o sr. B tomou o partido de casarse. Casou-se com uma moça de belas qualidades e fez todo o possível por amála. Mas não tardou a perceber que esse meio heróico era inútil para curar-se. Não obstante, durante quatro anos, foram correctos nos seus deveres de conjugais. Não se poderia descrever o que eles sofreram, porque D, que amava verdadeiramente o seu amigo, o atraía para casa e, quando ele queria fugir, o obrigava a ficar.
Enfim, algum tempo após, aproximados por uma circunstância fortuita, os dois amantes não resistiram à paixão que os arrastava um para o outro. Apenas cometida a falta, sentiram o mais terrível remorso. A jovem sr.º lançou-se aos pés do marido e disse-lhe em soluços: «Enxoteme; mate-me! Agora sou indigna de si. E como ele ficasse mudo de espanto e de dor, ela lhe contou as suas lutas, seus sofrimentos, tudo quanto lhe tinha sido preciso de coragem para não falir mais cedo. Fê-lo compreender que dominada por um amor ilegítimo, jamais tinha cessado de ter por ele o respeito e a estima de que era digno.
Em vez de amaldiçoá-la, o marido chorava. B chegou em meio a esta cena e fez idêntica confissão. D ergueu a ambos e disse: «Sois dois corações leais e bons. Só a fatalidade vos tornou culpados. Nos vossos pensamentos |i sinceridade. A punição está no pesar que sentis. Prometei-me que vos deixareis de ver e não tereis perdido nem a minha estima nem a minha afeição.»
R. António Alberto Sousa, 122 Ferreiros-4700 Braga
DEÇORAÇÕES DE LOJAS MÓVEIS DECORATIVO
Esses dois desventurados amantes apressaram-se a fazer o juramento pedido. A maneira por que sua confissão havia sido recebida por D aumentou-lhes a dor e o remorso. Tendo-lhes o acaso proporcionado um encontro não procurado, trocaram esclarecimentos recíprocos em relação ao seu estado de alma e concordaram que só a morte seria remédio para os males que sentiam. Resolveram matar-se juntos e fixaram a data para o dia seguinte, uma vez que o sr. D estaria ausente de casa grande parte do dia.
Depois de feitos os últimos preparativos escreveram uma longa carta na qual diziam:
«Nosso amor é mais forte que todas as promessas. Poderíamos ainda apesar de tudo fraquejar, sucumbir. Não conservaremos uma existência culposa. Para " nossa expiação faremos ver que | =P a falta por nós cometida não deve ser atribuída à nossa vontade, mas ao arrebatamento de uma paixão cuja violência estava acima de nossas forças.»
Esta carta terminava com um pedido de perdão e os dois amantes imploravam como graça serem reunidos no túmulo. Tendo sido lido este relato, como assunto de estudo moral na
Sociedade Espiírita de Paris, dois espíritos fizeram a seguinte apreciação:
«Eis aía obra da vossa sociedade e dos vossos costumes. Mas o progresso será feito. Mais algum tempo e factos que tais não se repetirão. Vossas leis e vossos costumes traçaram limites à expansão de certos sentimentos, o que muitas vezes leva a duas almas — dotadas das mesmas faculdades, dos mesmos instintos simpáticos, se encontrem em duas ordens diferentes e, não podendo reunir-se, quebram-se na tenacidade de quererem encontrar-se.
Que fizestes do amor? Vós o reduzistes ao peso do vil metal. Vós o jogastes na balança. Em vez de ser rei é escravo. De um laço sagrado vossos costumes fizeram uma corrente de ferro, cujos elos esmagam e matam os que não nasceram acorrentados». (Santo Agostinho) «O dois amantes que se suicidaram ainda vos não podem responder. Eu os vejo. Estão mergulhados na perturbação e assustados com o sopro da eternidade. As consequências morais da sua falta os castigarão durante reencarnações seguidas, nas quais suas almas se buscarão incessantemente e sofrerão o duplo suplício do pressentimento e do desejo de se amarem.
Realizada a expiação, serão para sempre reunidos no seio do eterno amor». (Georges, espírito).
Texto: Manuel dos Santos Rosa

