Crónica foto loucomotiv Amandine Quando me convidaram para fazer uma p
Jornal de Espiritismo nº 26 · Janeiro 2008Página 143 min
Crónica foto loucomotiv Amandine Quando me convidaram para fazer uma palestra espírita não sabia o que me esperava. Ver as pessoas a chegar, a sala a encher, o nervosismo a aumentar... Confesso que as pernas me tremeram. Outras palestras se seguiram. O nervosismo foi diminuindo, a con- fiança aumentando, e o exemplo dos primeiros cristãos, que se juntavam para conversar e aprender em comum, como podemos ler nos Actos dos Apóstolos, tem sido uma preciosa inspiração.
A boca fala do que está cheio o coração, e ainda que não sejamos donos de eleva- dos dotes oratórios, o que mais conta é a sinceridade e o desejo de cumprir bem a nossa tarefa. Um orador espírita é um dos elementos do grupo que se junta para uma palestra. Preparou o seu traba- lho, cabe-lhe fazer o seu melhor, com se- renidade e confiança – assim ouvi dizer a um companheiro mais experiente. Aceitei entretanto o convite para fazer uma palestra num centro espírita dis- tante do que frequento.
A amizade por quem me convidou falou mais alto que a natural apreensão, e lá fui. Os meus amigos espíritas do Norte receberam-me com o carinho habitual. Após aquilo que, segundo os costumes locais, é “comer qualquer coisita” - um festim de comida deliciosa! – resolvemos ir andando para o centro. A família dos meus anfitriões, nada familia- rizada com o Espiritismo, resolveu ir assistir, pela primeira vez, a uma palestra espírita.
Calhou bem, pois o tema era a Revelação: Moisésea ideia de um Deus único; Jesus e a noção do amor ao próximo e da vida futura; e o Espiritismo, com a sua visão da imortalidade da alma e da importância da verdadeira fraternidade que deve unir toda a Humanidade. Falei com gosto, o melhor que sei e posso, e felizmente ninguém adormeceu. Nem a pequena Amandine, sobrinha da minha anfitriã, uma luso-francesinha de cinco anos, que, muito direitinha na cadeira, com os seus lindos olhos muito abertos, tomava muita atenção.
Estava à espera que ela se cansasse e fosse brincar, mas não arredou pé! Foi uma bela reunião espírita, numa ampla dependência de uma fábrica, a sala de conferências mais sublime que Deus me deu a graça de pisar. Houve diálogo, convívio simples e alegre. Os familiares da minha anfitriã gostaram do tema – que bom! Mas a pequenita teve acanhamento de fazer duas perguntas. Já em casa, encorajada pala tia, perguntou-me então, com o seu sotaque tão engraçado: “Como é que os Espíritos se vestem?
” e “Como é que os Espíritos escrevem?”. É claro que fiquei encantado com a sagacidade daqueles dez réis de gente… Mas também um bocadinho atrapalhado! Ora vejamos: “O Livro dos Médiuns”, Capítulo VIII, Do La- boratório do Mundo Invisível, Vestuário dos Espíritos – recapitulei mentalmentee lá expliquei o melhor que pude “como é que os Espíritos se vestem”… A mesma coisa para “como é que os Espíritos escrevem”: “O Livro dos Médiuns”, Capítulo XIII, Da Psicografia.
Com a ajuda dos Bons Espíritos lá consegui explicar. Foi o momento alto da minha viagem, mas… que responsabilidade! E lá foi ela, com as suas perguntas respon- didas…. Se educamos as nossas crianças na Fé, que seja uma fé raciocinada, assente em factos, e que todos – até as crianças – possam questionar. Essa é a fé que fortalece e se fortalece. Não é a fé do “porque sim” e “porque não”. O Espiritismo é doutrina de bom senso.
Deixai que venham a mim as criancinhas e não as impeçais – são palavras do Mestre. E estaremos nós, espíritas, a facultar aos mais novos o acesso à cultura espírita? Eles carecem de uma formação moral sólida. Faz sentido guardarmos para nós a doutrina que tanto amamos e escondê-la dos nossos irmãos recém-regressados ao mundo material? Pelo contrário – é nossa obrigação partilhar com eles os princípios que reconhecemos como bons.
Cada um desses pequenos saberá aproveitar a seu modo os conhecimentos que lhe forem transmitidos, aceitando ou rejeitando o que a sua consciência entretanto lhe ditar. Por Roberto António robertoantoniolx@hotmail.
