26 — índice de conteúdos

Opinião Comércio mediúnico?

Jornal de Espiritismo nº 26 · Janeiro 2008Página 134 min

Partilhar
Idioma

Não, obrigado! A doutrina espírita é muito clara sobre o exercício não remunerado das faculdades mediúnicas, pois estas pressupõem a actividade dos espíritos desencarnados. Logo, as associações espíritas não aceitam sócios nem colaboradores que o façam, por muito que, num acto de mentira, estes unilateralmente afirmem o contrário. Há uns 30 anos, recordamos que um centro espírita com que colaborámos se deu conta de que não deveria nunca dar nenhum certificado de presença nos seus cursos de educação mediúnica.

Aliás, um curso intei- ramente grátis também. Surgiu a indicação de que alguém o poderia usar com fins comerciais, apesar dos conteúdos do curso serem claros sobre a gratuitidade da prática mediúnica. A justificação deste item baseia-se no con- teúdo doutrinário que defende que cada espírita deve ter a sua profissão – pescador, trolha, médico, professor, etc. – e dela deve retirar o seu sustento. A mediunidade é uma actividade de tem- pos livres, pós-profissionais, por isso não sendo possível aos espíritos intervenientes receber pagamento pelos seus serviços, já que apesar de nos poderem visitar vivem num plano diferente do nosso, o plano espiritual, não faria sentido o médium receber por uma produção que não é da sua autoria.

«Dai de graça o que de graça recebestes» diz Jesus no Evangelho. Não sendo a facul- dade mediúnica na maior parte dos casos propriedade do médium, não há razão nenhuma para ele se fazer pagar por algo que não lhe pertence. Isto é claro e compreensível. Dá dignidade, torna a consciência leve. Desenvolve o altruísmo, algo muito desejável em todos os tempos da humanidade para cada um de nós. Há porém médiuns, ao longo da história, que não se interessando pelo estudo do espiritismo, e tendo em muitos casos facul- dades mediúnicas caem na tola tentação de aceitar pagamentos.

Aí, com frequência, estas faculdades são-lhes retiradas pelo plano espiritual, e como se afeiçoaram a essa facilidade, não tendo mais faculdades mediúnicas, facilmente começam a simular os incautos que ali procuram solução para as suas aflições, já com o discernimento em queda. Pior é se estes actos de evidente gravidade se intensificam com mentiras, dizendo-se tais pessoas sócios de associações espíritas, quando de certeza que isso não é possível com o conhecimento dessas mesmas asso- ciações, caso haja associações que aceitem qualquer pessoa entre os seus associados.

Às vezes basta-lhes ver na internet um nome de uma instituição espírita para logo abusarem dele. O que é trabalho «O Livro dos Espíritos» define trabalho como toda a actividade útil. Errado é pensar em trabalho como algo que obriga a remu- neração, a um pagamento. Há gente que, depois de se reformar, opta por se envolver em actividades edificantes, na área da educação ou da caridade (ex: o Banco Alimentar contra a Fome, voluntaria- do hospitalar, etc.)

Não recebem dinheiro e ampliam a capacidade de servir das institui- ções. Justificar-se-ia pagar-lhes, mas sendo os recursos escassos, aumentam o raio de acção desses serviços. Não é boa ideia? É trabalho, mas não há pagamento. Todo o trabalho deve ter um salário justo. Contudo, por exemplo, há estágios profis- sionais que nem são remunerados. Incluí- dos nos respectivos cursos, e apesar de os envolvidos já participarem na produção de bens ou serviços, eles não recebem pagamento.

É injusto, mas a necessidade de finalizarem o dito curso obriga à aceitação disso. E no entanto tudo isto é trabalho… não remunerado. Como comentar os que recebem bens ou favores pela suposta actividade dos espíritos desencarnados?! O estudo do espiritismo é a melhor solução para fazer desaparecer o charlatanismo. Dizem os espíritos As entidades espirituais afirmam pela mediunidade que a passagem aqui na Terra no corpo físico equivale a uma experiência global de aprendizado com fins específicos.

Esta existência é como o fotograma de uma bobina de filme que tem uma acção que vem de outras vidas e da erraticidade – o período entre vidas corporais. Acontece em muitos casos que se programa antes do nascimento a possibilidade da experiência mediúnica como forma de compensação por estragos feitos anteriormente, graças à invigilância, ao capricho, à falta de discerni- mento. Após a escorregadela na casca de banana atirada ao caminho, em vidas passadas, essa ferramenta, a mediunidade, surge como um instrumento que vai permitir ao indivíduo a quem é concedida multiplicar bênçãos onde sirva.

Na psicofonia, vulgarmente chamada incorporação, em reuniões com métodos e equilíbrio, poderá contribuir na ajuda a casos mais difíceis de reabilitar; por exem- plo, quem partiu para o plano espiritual e ainda enfrenta grandes dificuldades muito difíceis de ultrapassar sozinho, e incapazes de verem no plano espiritual quem os quer ajudar. Na psicografia, ou escrita mediúnica, podendo também fazer isso, funciona mais como antena receptora de mensagens que clareiam vidas.

No exercício da vidên- cia, uma espécie de visão espiritual, pode contribuir em tudo isso de forma a que a caridade, o bem em movimento, se desdo- bre em todas as direcções. E mais haveria a dizer, mas seria exaustivo. Recomendamos a leitura de «O Livro dos Médiuns» de Allan Kardec. Assim sendo, tenhamos todos a sabedoria de nos respeitarmos a nós próprios e aos outros, sendo gratos pelo que a vida nos dá no dia-a-dia, cultivando a dignidade, colocando o amor ao próximo acima de horizontes pequenos, e seguindo o exemplo dos primeiros cristãos que, desde pequenos, aprendiam uma profissão, e nos tempos livres dedicavam-se à sua fé.

Por exemplo, Paulo de Tarso era tecelão. Seja cada qual um profissional capaz de nos tempos fora desse âmbito servir a outrem no campo da caridade mais pura, a que nada pede em troca.