Entrevista ou grupos; mas sim com interacção sadia, mútuo robustecimen
Jornal de Espiritismo nº 32 · Janeiro 2009Página 115 min
Entrevista ou grupos; mas sim com interacção sadia, mútuo robustecimento entre as institui- ções de cúpula e as de base, como meio de consolidar todo o movimento espírita, reforçando-lhe o poder de transformar be- neficamente a sociedade. Reiteradas exorta- ções da espiritualidade superior insistem no ideal da unificação. Tenho ainda como negativa, nada espírita nem cristã, a infantil presunção de grandeza do movimento espírita português, assim como o absurdo lamento de que não lhe é dada internacionalmente a importância devida.
No princípio do século XX, Lenine denunciava o que chamou as “doenças infantis” do nascente socialismo russo. E há muito mais tempo, Jesus advertia os discí- pulos desavindos que disputavam entre si ridículas superioridades: «o maior de vós será aquele que se fizer o mais pequenino e servir a todos». Dada a sua experiência, como comenta a afirmação de a doutrina espírita estar desactualizada? JXA – Como uma afirmação sem sentido, sem fundamento.
Acharão os seus autores que já não há Deus? Ou que acabaram os espíritos, ou a reencarnação…? Que se saiba, nunca explicaram o que quer dizer aquela peregrina afirmação. Acresce que ainda estamos longe de sentir e vivenciar em pleno os altos valores morais e inte- lectuais do Espiritismo, quanto mais de os termos ultrapassado! Entre os pontos estruturais do Espiritis- mo, qual deles lhe diz mais? JXA – É usual indicarem-se cinco pontos estruturais da doutrina espírita: existência de Deus, imortalidade da alma, sua co- municabilidade com o mundo material, sua pluralidade de existências na matéria e a pluralidade dos mundos habitados.
A existência de Deus constitui não só o tema do primeiro quesito mas também o de todo o capítulo inicial de O Livro dos Espíritos, e ainda o fundamento e razão de ser de todo o conteúdo da obra. Deus é a causa primária de tudo que existe ou possa existir, infinita perfeição em qualquer dos seus múltiplos aspectos: Vida, Verdade, Amor… O conceito de Deus, aprofundado através do Espiritismo ou de qualquer outra perspectiva, conforta, ilumina, fortalece e, francamente: empolga.
No futuro da Humanidade, a ciência encontrar-se-á com a doutrina espírita? JXA – Sim, sem dúvida. Alguns cientistas têm aprofundado estudos anátomo-fisio- lógicos (por exemplo, da glândula epífise) que corroboram postulados da doutrina espírita. A própria codificação desta, no sé- culo XIX, resultou da pesquisa exaustiva que um académico notabilíssimo, Allan Kardec, efectuou com metodologia científica. Tra- tando-se de factos que a ciência académica não conseguia explicar nem podia negar, esta viu-se forçada a rever o seu paradigma newtoniano, materialista, utilíssimo até aí, mas onde agora não cabia a possibilidade e realidade daqueles factos indesmentíveis.
Perante o desafio espírita, o trabalho hones- to de cientistas de muitos países fez surgir disciplinas como a Metapsíquica, de Charles Richet; a Parapsicologia, de Joseph Rhine; a Psicotrónica, nas antigas URSS e Checoslo- váquia; a Paranormologia, do padre Andrea Resch, no Instituto de Latrão (Vaticano). O rigor e fidelidade desses estudos obrigou as academias a reconhecer-lhes o carácter de ciência. Importa frisar: unificação não tem a ver com unicidade nem com hegemonia de pessoas ou grupos; mas sim com interacção sadia, mútuo robustecimento entre as instituições de cúpula e as de base.
Além do mais, o próprio Espiritismo consti- tui, em si, uma ciência de leis da Vida e do Universo, baseada em factos observados e repetíveis. Não tem lugar para crenças, superstição ou artigos de fé intocáveis. Dinâmico e actual, caminha com a ciência, pronto a abdicar de qualquer ponto doutri- nário seu, que ela prove ser errado. Na sua perspectiva, como se explica que uma doutrina tão baseada no ra- ciocínio e nos factos tarde a ser abraça- da por um maior número de pessoas?
JXA – Essa atitude perante o Espiritismo caracteriza quase sempre o que é inovação ou descoberta, ou se tenha por incómodo a interesses constituídos. Por exemplo, Luís Pasteur foi ridicularizado e vexado pelos seus contemporâneos (incluindo cientis- tas), ao estabelecer os princípios da vacina anti-rábica. O mesmo aconteceu a Charles Darwin, quando publicou “A Origem das Espécies pela Selecção Natural”, em 1859; longas décadas se escoaram até que o prin- cípio da evolução biológica se tornasse um ponto pacífico, ainda hoje se lhe opondo alguns meios religiosos.
E pur si muove… já lamentava Galileu Gali- lei, em prudente surdina. O que podem fazer os espíritas em favor da doutrina? JXAAprofundar o conhecimento e vivência dos seus altos valores intelectuais e morais. Num desabafo, Kardec afirmava que os maiores inimigos do Espiritismo se en- contram no seu seio. Nada mais acertado. Porém, não nos compete brandir essa frase em tom acusatório contra outrem, mas sim usá-la para vigiar-se cada um a si próprio.
Se, enquanto espírita, eu ferir gravemente o magno princípio da caridade, ou der algum péssimo exemplo, actuo sem dúvida como inimigo do Espiritismo no interior deste. Acho ainda um bom serviço ao Espiritis- mo abstermo-nos de lhe apor acessórios: Espiritismo laico, religioso, cientificista, de mesa branca, de isto, de aquilo. Espiritismo é ele próprio, e nada mais: uma ciência que estuda o ESPÍRITO, a sua origem, natureza, relação com o mundo corpóreo.
Estuda, está sempre a aprender, não decreta dog- mas estáticos (nem extáticos…). Estuda, com um paradigma lógico do ESPÍRITO, e por isso tem na sua tripla vertente (ciência- -filosofia-moral) um alcance que lhe faltaria com o nosso habitual paradigma lógico: sensorial, cerebral, material e materialista, limitado. Einstein afirmava que a descober- ta científica não resulta de uma elaboração lógica, mas de um rasgo de iluminação; só depois a razão lógica o vai testar experi- mentalmente.
Penso que os espíritas sim, eles é que têm direito à liberdade da diferença, consoante a sua formação, sensibilidade, vocação…, o que não faz uns mais espíritas nem menos espíritas do que outros. Com esse direito cabe-lhes, muito mais do que tolerarem-se, o dever de se compreenderem, respei- tarem, amarem. E cooperarem! “Fora da caridade não há salvação” é o grande lema do Espiritismo que nos vincula a todos, com todas as nossas diferenças, necessárias e inevitáveis.
Dos conteúdos doutrinários do Espiri- tismo, o que fica mais relevante para quem se interessa por eles? JXA – Julgo que o seu eminente carácter educativo, nos planos individual e social. Uma mensagem para os nossos leito- res? JXA – Para todos nós, a singela mensagem (que relutamos em assimilar) do modelo e guia da Humanidade, Educador incompará- vel: AMEMO-NOS UNS AOS OUTROS. Por Jorge Gomes Harmónio: Os maiores inimigos do Espiritismo se en- contram no seu seio.
Nada mais acertado. Porém, não nos compete brandir essa frase em tom acusatório contra outrem, mas sim usá-la para vigiar-se cada um a si próprio. Se, enquanto espírita, eu ferir gravemente o magno princípio da caridade, ou der algum péssimo exemplo, actuo sem dúvida como inimigo do Espiritismo no interior deste.
