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Crónica Às vezes lembro-me da “ti”Iria Já pouca gente fala dela lá na

Jornal de Espiritismo nº 35 · Julho 2009Página 145 min

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Crónica Às vezes lembro-me da “ti”Iria Já pouca gente fala dela lá na rua, senhora baixa e cheiinha, sempre bem-disposta com a vida pois Deus até lhe fizera a vonta- de, dando-lhe poucos filhos. É que na casa dos pais dela, eram muitos e as filhoses, por serem tantos, acabavam-se depressa. foto loucomotiv Isso fazia que, quando ia para o campo logo após o Natal, enquanto as outras raparigas ainda levavam filhoses para a merenda, ela só tinha pão e queijo.

Essa situação marcou-a, ao ponto de, de vez em quando, falar nisso. Nas visitas, mais ou menos mensais à aldeia onde nasci e onde guardo muitos dos meus afectos fazia ela parte do grupo de gente simples que nas tardes longas de Verão, à fresca na rua com sombra, ou de Inverno, ao solzinho espreitado, nas soleiras de granito das portas, iam trocando conversa e aprendendo uns com os outros. Sem- pre o marido estava por ali com ela.

Eram inseparáveis. Ambos analfabetos. Ele estivera na França, ela não. Talvez por isso, ela tinha por ele, para além da quase cumplicidade que os unia, uma forte admi- ração. Além do mais ele, mesmo sem saber ler uma letra, nem que fosse do tamanho do comboio (…), conseguia telefonar para todo o lado, até para a França, imagine-se, onde residia a filha. Lembro-me do modo como me contou este pormenor, cheia de orgulho por ele.

Ela era mais limitada, dizia, e, quando ia à cidade e lhe encomendavam mais do que um género de fosse o que fosse para trazer, das duas uma, ou levava o dinheiro separado e era à conta, ou, em alternativa, se o misturava e havia troco, no regresso via-se a braços com um punhado de moe- das e passava o resto da tarde de volta da matemática. Enfim, um doce de pessoa, sempre com o «seu» César na boca. Um dia fui lá, mal a vi.

O «ti» César tinha sido hospitalizado e estava agora num Lar. Encontrei-a na rua, perdida e triste. Disse-me que tinha o coração mais negro que a noite, noite que passava em claro, à janela, voltando o olhar para o lado da aldeia onde estava o marido e… o Lar. Escusado será dizer que nunca mais se juntou ao grupo do soalheiro. A melhor coisa que alguém lhe podia dar neste mundo era a hipótese de o ir visitar, mas, os transportes eram complicados e só aconteciam quando a caridade de alguém passava por uma viagem por aquelas ban- das, levando-a consigo.

Meteu-se o Inverno e, quando lá voltei o «ti» César tinha morrido, não sei se só por falta de saúde ou também por excesso de solidão. Deu-se então um facto estranho. Ela passou a caminhar dias inteiros para o cemitério. Ia para lá de manhã, passava algum tempo com uma sobrinha que morava perto e à tarde voltava ao cemitério até anoitecer. Vi-a, algumas vezes atravessar a rua em direcção a casa, com o xaile pela cabeça, so- rumbática, sem parar nunca, mesmo se eu ou alguém tentávamos meter conversa.

A única coisa que dizia era que estava muito surda, talvez estivesse, mas também se fazia desentendida. Um dia entrei no cemitério. Chovia, uma chuva miudinha e fria, acom- panhada daquela aragem que vem da serra e que até parece que pica por dentro. Lá estava ela, de pé, junto da campa, silenciosa e apática, envolta naquela neblina forte de Inverno e no xaile, pesado e negro que a cobria desde a cabeça até quase aos pés.

Nem deu por mim. Saí em silêncio e, con- fesso que um bocado angustiada. É claro que as vizinhas tentavam conversar com ela, chamavam-na para as suas lareiras pobres, mas ela quase fugia. Passou mais um tempo. Andava agora muito doente, de médico para médico, doença física, falta de força, de apetite, dores por todo o lado, esquecida, não dormia, enfim… Passara do médico da aldeia para toda a espécie de especialistas e, pelos vistos, o diagnóstico estava complicado.

Já não ia tanto ao cemitério… Foi então que a minha vizinha do lado, tão letrada quanto ela, achou que talvez fosse oportuno, sendo eu uma pessoa que sabe ler, e estando por ali naquele dia, dar uma vista de olhos nos medicamentos que ela lá tinha a ver se dava opinião sobre tão complicado mal. Quer dizer, fazia o filme ao contrário: pelos remédios… chegava à doença. Bem visto! E lá arranjou processo de ela, humilde que nem um cordeiro e muito fraca de facto, ir buscar o saco das caixas dos remédios a casa.

Sentámo-nos ao fundo das escadas. Pasmei. Era o mais completo sortido de analgésicos – ansiolíticos, antidepressivos, diuréticos também, vitaminas, gotas, sei lá – que alguma vez vi juntos na minha vida, todos dentro do tal saco de plástico em ale- gre promiscuidade. Ela conhecia-os a todos (mais ou menos), pelas cores, e sabia quem lhos tinha receitado. Até sabia que alguns já não eram pra tomar, mas não fazia mal, deixava estar na mesma.

É claro que muitos eu não conhecia, mas pelas bulas a gente vai lá e até a «ti» Iria não sabia que tinha tal mal que a bula indiciava. - Pois é Dona Amé- lia, mas a mim até se me parecia que trazia o meu homem para casa… Foi-se criando silêncio enquanto eu punha ordem naquele arsenal de papéis voltando a metê-los dentro das respectivas caixas. Ela estava desanimada. A páginas tantas, resolvi o jogo: Sabe o que fez isto «ti» Iria?

Foi vossemecê, quando o «ti» César morreu, passar a vida a correr para o cemitério, dia após dia, apa- nhando frio e chuva; mas vossemecê não queria ouvir ninguém e agora está mesmo doente, a avaliar por estes remédios todos e pelas voltas que já deu para melhorar e sem grande resultado. Fixou os olhos no saco de plástico amarro- tado entre as duas mãos e respondeu como se falasse para o espaço. - Pois é Dona Amélia, mas a mim até se me parecia que trazia o meu homem para casa… Esforcei-me seriamente para esconder a emoção que senti, e respondi no mesmo tom: - Mas não trazia… Não sei se respondi certo, mas muito prova- velmente, não!

Como é que a gente explica a uma alma daquelas que existem obsessões por amor, senão amando-as? Lá lhe fui dizendo que sempre era hora de mudar; como seria que o marido se sentiria quando ela, molhada dos pés à cabeça, enterrava os sapatos negros na lama que lhe cobria a sepultura? Ficou a pensar! Quando lá voltei, as janelas e portas da casa dela continuavam fechadas. Fora para o Lar. Talvez a história tenha acabado aqui, ou não…quem sabe ela não se reflicta em muitas Irias por esse mundo de Deus?

É que existem obsessões que se instalam por um amor mal gerido nas horas mais difíceis da vida. Por isso, O centro espírita, o jornal de espi- ritismo, a doutrina espírita, enfim… postos ao alcance da humanidade são a maior bênção que entrou nas nossas vidas. Quantas tias Irias por este nosso mundo, de xaile negro, vergadas por uma dor sem limites porque sem bússola?