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Jornal de Espiritismo nº 35 · Julho 2009Página 134 min
Rescaldo PUBLICIDADE PUBLICIDADE Alegriapartilhada A sociedade vive desgostosa. A visão distorcida da alegria leva-a a confundir os divertimentos frívolos e as festas mundanasque apenas lhe provocam sensações intensas e risos exageradoscom a vivência em círculos sociais plenamente sintonizados com energias de exaltação e mensagens silenciosas que a Vida nos remete. Não se pretende dizer que ser bem-humo- rado, risonho ou festivo é erro.
Nada disso. Experimentar emoções, provocar sensações são processos naturais que o Criador coloca à disposição de qualquer mortal. Também é verdade que se confunde muito alegria com tentação, nomeadamente nos círculos religiosos, predominantemente fundamentalistas. Mas Jesus, cioso das necessidades humanas, deseja vivamente: “Que a vossa alegria seja plena”. A alegria de viver é, sem dúvida, um atribu- to natural dos humanos, uma herança face à sua filiação divina, que se instala quando o homem se torna responsável por si pró- prio, quando deixa de ser escravo de algo ou de alguém.
Procedendo assim, afasta-se dos interes- ses mesquinhos para se aproximar de um universo ilimitado que, afinal, existe dentro de si mesmo. Este mecanismo de fuga a in- teresses fúteis e medíocres arrebata-o para um processo mental activado por algo ou alguém que lhe impõe significado e sentido às suas acções e que lhe faculta atitudes de contenção dos sentimentos “exuberantes” que anteriormente povoavam o seu mundo sensível.
Declara-se agora menos vulnerável aos conflitos e mais aberto a satisfações que não lhe mutilam a vida. Pelo contrário, inspiram-no a progredir, de modo natural, em ambientes calmos e sensatos, de pro- funda exaltação interior. Já não se isola com indiferença e desprezo diante do seu universo sensitivo. Pelo con- trário, declara-se prazenteiro e franqueia as portas ao “tesouro escondido” que encon- trou no âmago da própria alma.
Integrou como sua a compreensão do mundo exterior e vibra com tudo o que é divino em si mesmo. Reconhece que tem uma tarefa: manter o equilíbrio psíquico. Sabe segurar as rédeas da própria existência. Vive tranquilo e feliz. Não necessita de aplausos alheios para decidir os seus actos. Abriga em si mesmo um contentamento funda- mentado no uso consciente e sensato do pensamento e da forma de agir. Comanda e controla a sua auto-estima, ao mesmo tempo que encontra novas formas de amar e ser amado.
Aprendeu a ajudar os outros sem arrecadar para si os infortúnios que lhe não perten- cem. Socorre, distanciando-se psiquica- mente. A ansiedade e a preocupação já não moram nos horizontes dramáticos das programações mundanas. Entende o silêncio momentâneo como a melhor ajuda na gerência do amadurecimento e do cres- cimento espiritual. Desfruta de liberdade e substitui os momentos de prazer corpóreo por actos amorosos de interpretação das necessidades alheias, porque entende que todos foram criados para ser felizes, quer no plano físico, quer no espiritual.
Ajustando estes conceitos à “fé” espírita, poder-se-á dizer que as Jornadas de Cultura Espírita – realizadas em Óbidos, nos dias um e dois de Maio de 2009, pela ADEP – es- pelham, de forme livre, a alegria genuína e profunda de muitos dos seus participantes. De variadíssimos pontos do país, aí foram eles, rumo ao local que o primeiro rei, D. Afonso Henriques, terá tomado aos Árabes. Procuram mais sabedoria mas, acima de tudo, repartir a alegria que detêm.
O conhe- cimento das verdades eternas não os deixa conspirar contra a felicidade almejada, mas superar “a crise” com alegria, com confiança em Deus e com a serenidade e o amor a que aprenderam a recorrer. Homens e mulheres, de semblantes riso- nhos, cruzam-se, olham-se e abraçam-se. Alguns já não se viam há muito tempo. Outros, pelo contrário, são assíduos. Quase todos são adultos. Mas... E o Luís? Boa pergunta! O Luís é um bebé.
Nasceu no dia 10 de Janeiro de 2009. E já foi às Jornadas! Os pais são espíritas. Também eles quiseram partilhar a alegria que os carac- teriza, não só com os companheiros de Associação que aí se deslocaram, mas ainda com aqueles que encheram o auditório da Casa da Música, na bela vila de Óbidos. Bem acordado ou calmamente a dormir, o Luís assistiu a alguns painéis ao colo do pai ou da mãe. Não perturbou o ambiente. Filho de peixe sabe nadar, diz o ditado.
E foi alvo de muitos olhares e diferentes comentários: “Tão pequenino!” Alguns, insinuantes: “Este bebé não sabe chorar?” Sem tratar a questão a fundo, dir-se-á que o Luís quis igualmente associar-se. Levou sorrisos que, ao menor sinal, expande e cativa quem o cerca. Quem sabe, um dia, num próximo amanhã, seja ele a encabeçar o movimento que apela à filosofia espírita como doutrina de educação por excelência – cujo alcance é o próprio indivíduo e a sociedade – evitando a sua banalização?!
