35 — índice de conteúdos

Pedagogia | Crónica Experiências fora do corpo A semana era de férias

Jornal de Espiritismo nº 35 · Julho 2009Página 156 min

Partilhar
Idioma

Pedagogia | Crónica Experiências fora do corpo A semana era de férias e, tínhamos rumado ao Norte, no intuito de revisitar familiares. Agendáramos uma conferência espírita, numa associação espírita em Braga. O tema era prometedor “Como é morrer?”. Às 21h30 teve início a palestra espírita, perante cerca de 300 pessoas. Falámos da concepção espírita de Deus, da imortali- dade do Espírito, da comunicabilidade dos Espíritos, da reencarnação e da pluralidade dos mundos habitados.

Fizemos uma viagem pela génese do ser humano até aos dias de hoje, relembrando as questões que parecem eternizar-se no nosso íntimo: «Quem sou eu? De onde venho? Para onde vou? Porque sofro mais ou menos que os demais?». Falámos da morte do corpo de carne, da saída do Espírito imortal para o mundo espiritual, como se sentem as pessoas nessa passagem, isto, de acordo com os relatos que essas mesmas pessoas nos trazem.

Uns referem essa passagem suave e tran- quila; outros descrevem-na como tortuosa e sofrida, cada um colhendo de acordo com o seu estado de espírito, decorrente das suas atitudes, sentimentos e pensamentos, semeados na romagem terrestre. No fim da conferência, seguiram-se agra- dáveis momentos de convívio, com os presentes trocando ideias, aclarando este ou aquele conceito vertido na conferência. A páginas tantas, um senhor, desconhecido, interpelou-me, afirmando-se agnóstico.

Estava ali por causa da esposa, que apesar de culta, dizia ele, ouvia espíritos. Lá lhe explicámos que a mediunidade ou percepção extra-sensorial, nada tem a ver com cultura, cor de pele, idade, entre outros factores. O meu interlocutor não queria dar o braço a torcer, mas notava-se nitidamente uma vontade enorme de esclarecimento. De repente disse-me: «Sabe, quando tinha uns 5 anos tive uma experiência que me marcou profundamente e, que ainda hoje estou para descobrir o que se passou», e referiu que nessa altura, lembra-se perfei- tamente de se ver a flutuar no quarto, com o corpo na sua camita de bebé, e de ver um objecto em cima do armário, o que veio a constatar mais tarde, com o auxílio de adultos, já que na sua tenra idade não conseguiria nunca chegar lá acima, nem muito menos ver o objecto escondido em cima do armário.

Lá lhe explicamos que esses fenómenos são muito comuns, denominando-se de Experi- ências Fora do Corpo (EFC), e que são uma das grandes evidências da independência do Espírito em relação ao corpo de carne e, consequentemente, da sua imortalidade. Ficou perplexo. Como o tempo não dava para mais, lá lhe deixei a recomendação da leitura de “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, bem como da existência de um curso básico de espiritismo, gratuito, na Internet, em www.

adeportugal.org “Experiências Fora do Corpo? Mas então somos mesmo imortais?”. Não respondi, pois cabia-lhe a tarefa de o descobrir, pelo estudo, pela meditação, pela pesquisa, ou não fosse a Doutrina Espírita uma ciência de observação, com uma componente filosófica e com consequên- cias morais. Por José Lucas jcmlucas@gmail.com foto arquivo Podemos falar de religiões num centro espírita? Pretendemos hoje fazer uma breve reflexão sobre o programa curricular de evangeliza- ção para crianças e jovens, proposto pela FEB, e aceite pela FEP.

Mais precisamente á luz da seguinte questão: podemos falar de religiões num centro espírita? É do conhecimento comum, dentro do mo- vimento espirita, que existem duas visões distintas: uma argumenta que o espiritismo não é religiãoea outra que é religião. A discussão existe desde que o espiritismo surgiu em 1857 com a edição de O Livro dos Espíritos de Allan Kardec, e perdura até aos dias de hoje sem possibilidades de consenso.

Diz-nos o estudo da Pedagogia humana que o Homem, desde sempre, busca algo exterior a si que explique as suas angustias, as suas dúvidas perante o Mundo, a Vida e a sua própria natureza. Assim surgiu a religião como uma fonte de fé, adquirindo para cada ser uma verdade e uma certeza que deseja serem únicas e divinas. Com a institucionalização das religiões nas- ceram os rituais como formas de adoração ao Criador. A fé materializada em crença, perpetuou as religiões como expressões culturais dos povos.

Se analisarmos cada religião no seu contexto histórico-temporal- -social, encontramos muitas semelhanças quanto às leis universais em que assentam, diferindo sobremaneira na forma como se fazem aplicar. Diriamos que cada religião contêm a própria história do Homem e da sua caminhada em busca da felicidade eterna. Sabendo que á medida que evolui o ser humano desperta para o mundo espiri- tual e relega para segundo plano a vida material, não pode, no entanto, ignorar que fez parte desse passado de lutas e erros, e que tudo foi proveitoso para o seu auto- conhecimento.

O Espiritismo destaca-se de toda e outra qualquer concepção religiosa pela sua pro- posta universalista. Ou seja, apela à trans- formação individual através do principio de liberdade de consciência , descobrindo cada um a solução para as suas dores e aflições, sabendo que é responsável pelo seu próprio percurso de vidas sucessivas, até à perfeição. Por isto, o espiritismo não impõe principios, nem pretende padronizar ou uniformizar uma crença.

Ele propõe a educação dos sentimentos de adoração a Deus, do respeito pelas Leis da natureza e o conhecimento das diferentes formas da religiosidade humana . O programa curricular de evangelização para crianças e jovens, a que nos referimos, não contempla este conhecimento univer- sal, a nosso ver demasiado importante para ser ignorado. Se propomos a uma criança uma concep- ção do Mundo, e se ela deve aprender a tolerar e respeitar todas as diferentes inter- pretações humanas das Leis divinas, faz-se necessário que ela tenha um conhecimento de todas essas concepções, para assim melhor compreender o que distingue o Espiritismo das restantes.

O respeito pela diversidade só se consegue através do conhecimento. Mostrar uma concepção como sendo a única e verda- deira pode dar origem ao preconceito e ao fanatismo, sentimentos que, precisamente, o espiritismo se propõe combater. A nossa proposta é que o ensino do espiri- tismo no centro espírita promova o diálogo inter-religioso, para que a criança, desde a infância, seja capaz de compreender as diferenças, com a segurança que aquele é o melhor caminho para ela.

O que muitas vezes acontece é que depois de anos a par- ticipar em grupos de crianças e jovens no centro espírita, onde só se falou de espiri- tismo, chegam á idade adulta e continuam à procura de algo novo ou diferente. Não raro, abandonam o centro espírita para ir buscar às doutrinas exotéricas ou orien- tais outros conhecimentos, que sabemos pertencerem ao mesmo tronco comum – o espiritualismo. Se esta abordagem fosse feita de inicio, através do debate e da pesquisa de todas as formas religiosas que conhecemos, mais facil seria de compreen- der que, e citamos J.

Jacques Rousseau: (…)Os verdadeiros deveres da Religião são independentes das instituições humanas, que um coração justo é o verdadeiro tem- plo da divindade, que em todos os países em em todas as seitas, amar a Deus acima de tudo e o próximo como a si mesmo é o resumo da lei, que não há religião que dispense os deveres da moral, que não há outros verdadeiramente essenciais a não ser estes e que o culto interior é o primeiro desses deveres e sem a fé, nenhuma verda- deira virtude existe.