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Opinião (pág. 14)

Jornal de Espiritismo nº 52 · Março 2012Página 144 min

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Para todo o cristão, a época da Páscoa desperta no seu íntimo uma mescla de sentimentos. Perante as vicissitudes da vida terrena, viaja-se desde os jardins da esperança reavivada pelo testemunho da vida eterna dado pelo Cristo, até aos cenários obscuros e incompreensíveis da trama condenatória do Justo em Jerusalém. A sequência dramática dos últimos momentos do Cristo, marca a humanidade até aos dias de hoje.

Os instantes são diversos e carecem de análise cuidada, dado que uma pesquisa um pouco mais atenta revela o gesto de esperança em todos eles. Analisemos o primeiro de todos: A entrada triunfal em Jerusalém. O episódio da entrada de Jesus na cidade de Jerusalém não foi consensualmente “arrumado” nos textos evangélicos. Alguns atribuem a narrativa constante nas versões dos textos canónicos como referente a uma qualquer entrada do Cristo na cidade e não forçosamente a efetuada na véspera da sua crucificação.

Os textos podem ser encontrados em Mateus: 21; 1-11, Marcos: 11; 1-10 e Lucas: 19; 29-38, e sem grandes diferenças entre eles percebe-se a intenção do Messias em cumprir o que estava consagrado nas escrituras, entrando montado num jumento na cidade. O ambiente que o acolhe, porém, era particular sendo que, se dúvidas existissem das narrativas dos evangelhos canónicos, Amélia Rodrigues esclarece que estávamos nos “...

últimos dias antes da Páscoa. O mês de Nissan (Abril/Maio) se iniciara sob lufadas frias decorrentes do largo Inverno que ainda não terminara.” (Dias Venturosos, pp. 75 e 76). Não obstante o rigor meteorológico, os judeus optam por sair à rua para aclamar a entrada de Jesus. Mas o motivo de tal manifestação nada tem a ver com a mensagem de amor, esperança, perdão e caridade que o Cristo havia divulgado nos últimos anos.

A intenção era outra. Descontentes com a opressão militar romana e profundamente revoltados com a gestão tributária do império, o “... povo judeu suspirava por alguém, com bastante autoridade, que o libertasse dos opressores. (…) Jesus simbolizava a renovação, a promessa.” Através desta concentração em massa, os judeus pretendiam demonstrar ao império romano que se mantinham firmes na convicção da autonomia política e que consideravam Jesus “um chefe político à altura dos acontecimentos (que) certamente, não atenderia às imposições dos sacerdotes e nem se submeteria ao suborno...

”. É por esta razão que os populares o saúdam efusivamente, e ainda que os discípulos de Jesus se deixem inebriar pela projeção mediática momentânea, consequência de tamanha manifestação, eventualmente convencidos que o acolhimento se devia ao reconhecimento da superioridade dos ensinos e feitos de seu Mestre, ”Jesus agradecia aos manifestantes de Jerusalém com o olhar mostrando, porém, melancólicos sorrisos.” (Lázaro Redivivo, XVII) O Messias não se enganava na avaliação que fazia e este sentimento é sublinhado num relato menos conhecido de Meimei quando nos descreve que “O Mestre (…) sobre o animalzinho cansado, parecia triste e pensativo.

Talvez refletisse que a alegria ruidosa do povo não era o tipo de felicidade que ele desejava. Queria ver o povo contente, mas sem ódio nem revolta, foto arquivo inspirado pelo bem que ajuda a conservação das bênçãos divinas.” Mas eis que ocorre um facto que passou despercebido aos evangelistas e que é interessante de ser recordado. No momento em que Jesus antecipava a hipocrisia do conjunto e o sofrimento em solidão, foi quando, aparecendo de entre a multidão eufórica, uma “linda jovem se destacou (...)

, abeirou-se dele e lhe entregou uma braçada de rosas, exclamando: - Senhor, ofereço-te estas flores para o Reino de Deus.” Mais uma vez a juventude surgia na parábola real como símbolo da ingenuidade própria dos humildes. De entre tantos que gritavam quase descontroladamente por tão pouco, a simplicidade de quem ignorava o propósito da maioria comove o espírito mais elevado de entre todos. “O Cristo fixou nela os olhos cheios de luz e indagou: - Queres realmente servir ao Reino do Céu?

– Oh! Sim… - disse a moça, feliz. – Então – pediu-lhe o MestreAjuda-me a proteger o burrico que me serve, trazendo-lhe um pouco de capim e água fresca.” A lição parece clara. Para quem se dispõem a assumir o compromisso e para quem tem a tarefa de o distribuir: - Todos podem ajudar, a todos deve ser dada a oportunidade de servir pois existe sempre aquele que é mais carenciado. Se não for espiritualmente é psicologicamente, se não for psicologicamente é intelectualmente, se não for intelectualmente é economicamente ou sob qualquer outro formato, a possibilidade de servir não pode, jamais, ser negada.

Independentemente da evolução, do conhecimento ou das posses de cada um, todos somos chamados a contribuir, na medida em que o possamos. À jovem deste momento, a tarefa que lhe coube foi a de socorrer o burro que transportava o Mestre. Mas mais importante do que a extensão da tarefa é a resposta que é dada aquando da convocatória. Por isso Meimei conclui referindo que “A jovem entendeu prontamente e começou a compreender que, na edificação do Reino Divino, Jesus espera de nós, acima de tudo, a bondade sincera e fiel do coração.

” (Meimei: Pai Nosso, A lição da bondade). Quanto à maioria restante, sabemos qual o final. “(...) À acalorada recepção de Jesus, entrando triunfalmente em Jerusalém, sucedeu-se a difamação... Nuvens carregadas de insegurança e medo pairavam sobre a cidade monumental... Cochichos anunciavam a tragédia tramada...” (Dias Venturosos, pp. 75 e 76). E qual a nossa escolha? Por Hugo Batista e Guinote o “... povo judeu suspirava por alguém, com bastante autoridade, que o libertasse dos opressores.

(…) Jesus simbolizava a renovação, a promessa.” ABRIL.MAIO 2012 Os tempos são de dificuldade a todos os níveis, numa sociedade materialista, onde o orgulho e o egoísmo ainda imperam. Na sua busca desenfreada pelo materialismo, o homem perde o norte, perante a abrupta crise gerada a nível mundial. Na iminência de falência financeira, muitas vezes busca o suicídio: em vão, pois está provado que a vida continua além da morte do corpo de carne.