Opinião (pág. 16)
Jornal de Espiritismo nº 52 · Março 2012Página 168 min
Irmãos: parceiros inseparáveis ou rivais sem remédio? O espiritismo é uma doutrina que surgiu em meados do século XIX através do trabalho de Allan Kadec. Hoje, com expressão em diversos países de vários continentes, inspira um movimento de pessoas que simpatizam com este ideal e desenvolvem diversas iniciativas fraternas. Mais do que saber o que eles foram, é importante compreender aquilo em que se poderão tornar.
Quando um novo Espírito está para chegar à família, normalmente os pais sentam o irmão de tenra idade num banco de jardim mesmo em frente ao lago dos patinhos amarelos, e explicam-lhe com delicadeza que dentro daquela enorme barriga que a mãe exibe orgulhosa, está o futuro companheiro de brincadeiras com quem ele irá partilhar muitas alegrias durante a sua vida. “Vai ser o teu melhor amigo!”, diz-lhe o pai, procurando convencer o petiz das vantagens da experiência que se avizinha.
Mas quando o irmão nasce, o entusiasmo logo desaparece: aquele amigo não joga à bola, não sabe andar de bicicleta, nem sequer comunica com clareza; para além disso é impaciente, chora de forma compulsiva, não há comida que o sacie e suja as fraldas com uma frequência que impressiona. Se isto não bastasse, a atenção dos pais fica centrada naquele pequeno manipulador, deixando o jovem iludido roendo-se de ciúmes: “Olha mãe, já não quero nenhum irmão.
Quando é que o podemos devolver?” - pergunta às vezes, saudoso do tempo em que possuía a propriedade exclusiva do amor dos pais. Quando o irmão começa a crescer, as coisas não melhoram. Tudo o que era só dele agora pertence também ao irmão. Em vez de um amigo, saiu-lhe na rifa um verdadeiro usurpador. Mas será mesmo assim? Se abandonarmos a cândida, mas limitada, visão infantil, compreenderemos que os irmãos vivem uma das experiências mais extraordinárias dos relacionamentos humanos.
É uma união sem igual devido à proximidade e duração, ao caráter indissolúvel, à igualdade e partilha de direitos e deveres. Estas caraterísticas peculiares tornam esta relação fraterna sujeita a enormes atritos e divergências – e quanto mais aproximadas as idades mais comuns são essas situações. Desde a infância, a presença de um outro irmão é encarada como uma perda, já que a criança tem dificuldade em aceitar que o amor dos seus pais não é uma exclusividade sua mas uma propriedade partilhada.
A sua ambição de ser o centro nevrálgico do mundo – que ele julga ser a família – esbarra na inflexibilidade do irmão em não abdicar do mesmo desejo. Enquanto não for atingida a maturidade emocional, e como partilham desejos parecidos, é normal e saudável que a experiência fraterna proporcione uma certa rivalidade e competição entre os irmãos. Aliás, essa experiência tornar- -se-á fundamental para que eles consigam lidar da melhor forma com outros tipos de relacionamentos ao longo das suas vidas, melhorando o seu controlo emocional, a tolerância à frustração, a aceitação do outro e a capacidade de partilharem sentimentos e emoções.
Mas é verdade que muitos irmãos, chegados à idade adulta, não se conseguem libertar do ciúme, rivalidade e da competição, protelando comportamentos de confrontação gratuita e divergências aparentemente irreconciliáveis que promovem o seu afastamento emocional e causam um enorme sofrimento aos pais. A doutrina espírita, compreendendo a vida como uma sequência infindável de experiências preciosas para expandirmos o amor e sabedoria, defende que muitas das incompatibilidades pessoais têm origem em outras vidas, quando esses Espíritos, através dos seus comportamentos e atitudes, alimentaram sentimentos mútuos de ódio e antipatia que ainda não puderam ser superados.
Porém, nem tudo se encontra oculto pelo véu das vidas passadas. Muitas situações de divergências começam nesta existência e agravam-se pela inabilidade que ainda demonstramos com os relacionamentos humanos. Por este motivo, é fundamental que os pais não entrem em desespero, nem tratem as rivalidades entre irmãos como tabus e situações embaraçosas que é necessário esconder, punir e proibir. Compreendendo a problemática e aceitando-a como um processo natural, os pais poderão ajudar os filhos a desenvolverem a habilidade para ultrapassar os conflitos, exercitando a compreensão das necessidades do outro e encorajando-os a falarem sobre as suas emoções, mesmo as mais sombrias, dando-lhes dessa forma a segurança necessária para enfrentar e vencer estas situações.
As divergências entre irmãos na infância e adolescência, fazem parte de um processo precioso de relacionamento muito próximo em que aprendemos a partilhar e a reconhecer nos outros, indivíduos com os mesmos direitos e ambições àquilo que desejamos. É uma oportunidade que a vida proporciona tanto para a reconciliação de Espíritos com conflitos passados como para consolidar os laços afetivos de Espíritos afins. Com o passar dos anos, com o passar das vidas, conseguindo renunciar ao excesso de egocentrismo e deixando diluir a ideia de posse que ainda nos constrange, conquistaremos uma visão mais sublimada dos nossos irmãos.
Se abandonarmos a cândida, mas limitada, visão infantil, compreenderemos que os irmãos vivem uma das experiências mais extraordinárias dos relacionamentos humanos. T al como outros relacionamentos próximos, o elo fraterno é um espelho que nos ajuda a compreender a verdadeira face daquilo que somos. Mais do que promover a rivalidade e o conflito, instiga à proteção, à lealdade e amizade, ajudando a consolidar relações de amor, cumplicidade e confiança, que se estendem não só por esta vida física mas que se prolongam por toda a eternidade.
E é assim que, através de um longo processo de esforço e superação que durará o tempo necessário, o rival irritante, o competidor inflexível, e o intruso desagradável, transformar- -se-á naquilo que o pai havia prometido naquele dia, sentado no banco do jardim em frente ao lago dos patinhos amarelos: Um companheiro de valor inestimável, um grande amigo! Por Carlos Miguel foto loucomotiv ABRIL.MAIO 2012 Nosso Lar Estreado em setembro de 2010, o filme “Nosso Lar” é uma mega produção brasileira que levou aos cinemas mais de 4 milhões de pessoas.
O filme baseia-se na obra literária com o mesmo nome, ditado pelo Espírito de André Luiz e psicografado pelo médium Chico Xavier em 1943, sendo um dos livros espíritas mais vendidos de sempre. “Nosso Lar” é um relato na primeira pessoa da experiência vivida pelo médico André Luiz após a morte do seu corpo físico. Numa primeira fase, ele surpreende-se naquilo que é vulgar chamar-se de Umbral, um sítio inundado de pensamentos e sentimentos perturbadores, povoado por Espíritos em desequíbrio e que são o molde que forma o ambiente tenebroso do local.
Não tendo cometido crimes que as leis humanas pudessem punir, André sentia-se angustiado por pensamentos que o torturavam, dominanando-o da mesma forma que a mais forte tempestade subjuga uma frágil embarcação. O maior desafio da experiência da morte é a de nos despir os véus da mentira diante da própria consciência. As almas que povoam o Umbral não são criminosos doentios nem pserversos incorrigíveis, mas criaturas como todos nós que sofrem unicamente o preço das ilusões a que se submeteram durante uma vida de oportunidades únicas para a sua elevação.
Após conseguir implorar por auxílio, André Luiz é resgatado por benfeitores espirituais e levado para Nosso Lar. Com extraordinárias semelhanças às cidades terrestres e situado nas esferas espirituais vizinhas da Terra, Nosso Lar é uma colónia espiritual com uma ordem estabelecida, em que os seus habitantes recuperam, estagiam e aprendem, tendo à sua disposição tarefas, cursos e outras ocupações para realizarem. Não é um lugar onde os Espíritos desfrutam de plena felicidade, mas uma região onde se aprimoram e trabalham, em que são confrontados com os seus erros e necessidades evolutivas, sendo preparados para voltarem à Terra para uma nova encarnação.
É neste lugar que André Luiz vai iniciar uma jornada de revelação, aprendizagem e trabalho que o levará à constatação da cegueira que lhe tolhia o discernimento, compreendendo que o serviço, mesmo o mais simples e aparentemente subalterno, é a maior oportunidade que Deus coloca à disposição de todos para promover o crescimento próprio. As saudades da sua família e a esperança de os poder visitar são a pedra de toque que o farão trabalhar para o bem comum chegando à constatação de que a Medicina, que exerceu na Terra mais em proveito da sua vaidade e prepotência, é um dos mais sublimes serviços de amor que Deus proporciona à Humanidade.
As habitações espirituais, os departamentos especializados e os hospitais que encontramos no filme, bem como os jardins edílicos, os concertos e os meios de transportes futuristas, causam surpresa naqueles que estão menos familiarizados com a Doutrina Espírita. Poderá a vida Espiritual ter assim semelhanças com a vida terrena? Aquilo a que não estamos habituados causa- -nos sempre estranheza. Se há dois séculos alguém afirmasse que seria possível gravar imagens na Lua através de um aparelho sofisticado, propagá-las pelo espaço e captá-las para serem reproduzidas num pequeno ecrã à frente do sofá da sala de estar, poucas pessoas acreditariam.
Tudo o que existe no Mundo Espiritual é possível pela força da vontade e do pensamento que, sendo os principais meios de ação do Espírito, criam, constroem e desfazem, moldando através do génio, amor e criatividade de cada um, a matéria subtil que inunda o Universo como um verdadeiro artista na grande oficina do Cosmos. Através do relato vivo da experiência de André Luiz, o filme “Nosso Lar” ensaia uma resposta à pergunta tantas vezes formulada “O que acontece depois da morte?
” E se o principal objetivo do autor é colocar o público a refletir sobre a ideia da imortalidade da alma, ele consegue ir mais além mostrando, aos que já se julgam encartados na temática, que mais do que conhecer essa realidade, é premente interiorizá-la, incorporando essa verdade à nossa vida. É inútil apegarmo-nos à vida como um náufrago à sua bóia. É imprescindível não fazer dela um desperdício, aproveitando a oportunidade para preparar e projetar o nosso destino imortal.
Como nos recomenda André Luiz nas páginas do livro “Nosso Lar”: “Buscai a verdade antes que a verdade vos surpreenda. Suai agora para não chorardes depois.
