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Crónica

Jornal de Espiritismo nº 53 · Abril 2012Página 133 min

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Possuirá o Mundo recursos de subsistência para todos? Há mais de meio século Josué de Castro, respeitado presidente da FAO, ponderava no seu Livro Negro da Fome dados estatísticos mundiais relativos a 1953, quando a Humanidade somava cerca de dois mil milhões de seres. O relatório desses dados sustentava que os recursos alimentares de então eram suficientes para uma população mundial de treze mil milhões de habitantes.

Vivemos em crise: repete-o a comunicação social, comenta-se no trabalho, em casa, nos cafés… CRISE é tema dominante. Políticos, economistas, religiosos, técnicos de diversas atividades, dissecam-na como preocupação da sociedade. Sem dúvida, a ideia de crise afeta o sentir e pensar geral, no País e em grande parte do Mundo. Operadoras financeiras multinacionais (e seus tecnocratas) são apontadas como causa primordial da situação, pressionando nefastamente as políticas nacionais; os governos, sob tal pressão, cavam abismos de desigualdade, aparentam indiferença por valores éticos de solidariedade e justiça social, pelo grassar do desemprego, pelo sofrimento infligido às populações.

Estas sentem Governo e Estado impiedosos para as classes média e baixa, enquanto veem os potentados financeiros privilegiados em todas as áreas, incluindo numa justiça que por sistema lhes vai assegurando impunidade. O sentir geral atribui a autoria da ”crise” a rostos, cargos, funções, reconhece nos mercados e nos políticos os fautores da grave situação _sem reparar que eles são um reflexo de nós próprios, e que no lugar deles muito provavelmente agiríamos de modo semelhante.

Podemos e devemos ponderar as coisas para além de aspetos imediatos, em busca de respostas mais abrangentes e exatas. Excelente princípio é olharmos para dentro, conforme estabelecem Ralph W. Emerson e seus ilustres continuadores, entre os quais Helen Schucman e William Thetford, professores de psicologia médica na Faculdade de Medicina da Universidade de Colúmbia, Nova Iorque. Apuraram à saciedade que todos vemos o mundo com a perceção que dele temos; cada um o vê com a sua visão, formatada por juízos, impressões, experiências, informação, memórias recentes e ancestrais, conscientes e subconscientes, positivas e negativas: um vasto conjunto de fatores condicionantes e respetivas “lentes”, através das quais cada um olha o mundo de maneira diferente (formando-se naturalmente classes ou grupos de pessoas com pontos de vista iguais ou muito semelhantes).

O mundo é para cada um como vê, como o projeta no exterior através das suas lentes. Não é portanto algo de real exterior a cada um de nós: se fosse, não havia sobre ele perceções simultâneas tão diferentes e até contraditórias. Podemos e devemos ponderar as coisas para além de aspetos imediatos, em busca de respostas mais abrangentes e exatas. Sempre pertinente o antiquíssimo CONHECE-TE A TI MESMO, dos sábios. Conhecemo-nos pela meditação, recolhimento, via ideal para nos observar- mos, estudarmos, e nos trabalharmos em busca de crescimento e perfeição.

Assim amadurecemos interiormente, começamos a “ser”, e não apenas existir, ter, parecer _ feição ainda tão comum na nossa sociedade. Repare-se como em geral tendemos a preocupar- -nos com ter e parecer, com evitar ou ocultar o que “parece mal”, e ostentar dalguma forma o brilho do nosso “ter” (a excelência do meu estatuto social, o meu título académico, artístico, o meu parente, o fato novo, o carro, etc. etc.) O filósofo indiano Osho aponta a lição da natureza (ave, inseto, relva, ribeiro, ou penhasco) toda simplesmente SER, alheia a parecer, julgar ou temer juízos.

Fomentando a atitude mental de ser, começamos a deixar de nos identificar com ter e parecer, a observar que aquilo que enxergamos tão facilmente nos outros, existe em nós e podemos corrigi-lo, orientá-lo, sublimá-lo… Começamos a ver os outros e o mundo com outra visão, mais serena e compreensiva, sem necessidade de rotular ou julgar. Higienizados nós próprios, passamos a sentir higienizada a psicosfera ambiente, o exterior, o mundo… E, mais recetivos a inspiração e energia para decidir com sabedoria, tranquilamente resolveremos as crises.

João Xavier de Almeida foto loucomotiv Sair da Crise “Faz em ti mesmo a mudança que queres ver no Mundo” – Gandhi, citando Ralph Waldo Emerson JULHO.