Opinião (pág. 14)
Jornal de Espiritismo nº 53 · Abril 2012Página 147 min
Ocorre isso agora, conforme ocorreu no passado. Jesus trouxe as suas lições num destes momentos, em que uma maioria era submetida a convenções sócio políticas desequilibradas e relativamente injustas, em função da nacionalidade, religião, posição social ou sexo. E tal como nessa época, interrogamo-nos se devemos agir de acordo com as sugestões e vontade da maioria, ou antes optar por noções morais íntimas? O episódio da mulher samaritana auxilia-nos perante este dilema.
O relato feito pelo evangelista João (João; IV: 1 a 43) conta que o Mestre terá tomado o caminho mais longo, difícil e arriscado para um judeu ao optar, no trajeto da Judeia para a Galileia, por abandonar as margens do Jordão e subir as montanhas. Amélia Rodrigues descreve como, ao longo de 50 km, “saindo de Jerusalém, no dia anterior, demandando à Galiléia, Jesus abandonara a estrada real (...) para galgar as montanhas de Efraim, penetrando os limites da Samaria, evitados pelos nascidos em Judá.
” (Primícias do Reino(PR): 9). Jesus separa-se do seu grupo e durante a tarde, encontra repouso junto à fonte de Jacob, em Sicar. Esclareça-se que, fonte ou poço, ambas as traduções estão corretas, pois a estrutura do poço é contígua à da fonte. João e Amélia Rodrigues situam o momento perto das 12h00, mas Humberto de Campos desloca toda a cena para o entardecer. Nos instantes seguintes, quatro lições serão deixadas.
À semelhança do que havia acontecido e será repetido, Jesus ignora as convenções sociais da época, por duas vezes. A primeira ao, sendo homem, dialogar com uma mulher em público. A segunda por, sendo judeu, dialogar com um samaritano. Por isto, a cena é curiosa. A mulher “surpreende-se com o estranho olhar que lhe dirige o forasteiro judeu, que ali parece aguardá-la. (...) Sente-se intranquila, como se algo estivesse para suceder-lhe.
(...) Quando se dispõe a tomar o vasilhame e retornar ao lar, ouve: - Dá-me de beber! - Volta-se, surpresa, dominada por estranhos e profundos ressentimentos. Como ousa aquele estrangeiro dirigir-lhe a palavra, atentando contra os costumes vigentes? (...) E, solerte, retruca, com propositada ironia na voz, com que extravasa a própria amargura: - Como sendo tu judeu me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? - (...)
Jesus conhece as dimensões que separam os dois povos. (...) Tem uma mensagem a dar – mensagem de conciliação e consoladora. (...) Aquela mulher, Ele a escolhera para ser a condutora do seu aviso a Siquém.” (PR: idem). E a primeira lição está prestes a ser dada. “Jesus descansou na interlocutora o olhar tranquilo e redarguiu: - Os judeus e samaritanos terão por ventura, necessidades diversas entre si?” (Boa Nova (BN): 17).
A igualdade entre filhos do mesmo Pai, não obstante a sua origem ou credo, era comprovada positivamente pela igualdade das condições da matéria a que ambos se sujeitavam. Judeus e samaritanos passavam pelas mesmas provações, da sede e da fome, do corpo e do espírito. É desta ideia que vai brotar a segunda lição. À observação da mulher, o Mestre responde: “...Bem se vê que não conheces os dons de Deus, porquanto se houvesses guardado os mandamentos divinos, compreenderias que te posso dar água viva.
“ (BN: idem). A samaritana fica confusa. “- Senhor! – exclama – tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo...“ (PR: idem). O Cristo explica-lhe: “- Mulher, a água viva é aquela que sacia toda sede: vem do amor infinito de Deus e santifica as criaturas. (...) Não obstante levares cheio o cântaro, voltarás logo ao poço, com uma nova sede. Entretanto, os que beberem da água viva estarão eternamente saciados. Para esses não mais haverá a necessidade material...
” (BN: idem) Mas porque precisaria ela de tomar a água viva? O que justificaria dispensar o seu tempo a ouvir a lição de Jesus? O Messias encontra no íntimo da samaritana as respostas necessárias para lhe despertar a atenção e solicita-lhe: “- Vai chamar o teu marido e vem cá. Ela se perturba. Era uma pecadora, e Ele o sabia... Esse era o seu tormento íntimo. Quanto sentia ferida, humilhada no seu amor, receosa!...” (PR: idem) Mas contrariando o costume social, Jesus não censura.
Felicita-a pela coragem de assumir a verdade, primeiro passo para a redenção. “- Disseste bem: não tenho marido; - confirmou Jesus – pois que cinco maridos tiveste e o que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade. Surpreendida, a samaritana não mais oculta a alegria, a felicidade. Grita, quase: - Senhor, vejo que és Profeta!” (PR: idem) Captada a atenção da mulher em função da confissão do seu erro, a orientação de como se orientar na fé vem por fim, após a interrogação feminina: “- Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que é em Jerusalém o lugar onde se deve adorar.
- Mulher, acredita-me – elucida o Enviado Divino – (...) a hora vem e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, porque o Pai procura a tais que assim o adorem.” (PR: idem) A água viva que sacia a sede é a fé corretamente orientada. Não o vinho da alegria que inebria, mas a água pura que refresca e predispõe para o continuar da caminhada. A segunda lição estava deixada. Faltavam as últimas duas, reservadas à intimidade dos discípulos.
Na companhia destes e perante a insistência para que se alimentasse, Jesus esclarece que “- Antes de tudo, meu alimento é fazer a vontade daquele Pai misericordioso e justo que a este mundo foto arquivo me enviou, a fim de ensinar o seu amor e a sua verdade. Meu sustento é realizar sua obra.” (BN: idem) A satisfação da necessidade material entorpece o progresso do espírito, pois convida-o à flacidez na convicção. Sem perseverança na tarefa do espírito, precipitamo-nos para a queda.
Emmanuel é claro quando, acerca desta passagem, elucida que “Não é razoável permanecer o homem em referências infindáveis aos desígnios do Alto, quando não cogita de materializar a própria tarefa.” (Vinha de Luz (VL): 42). E o mesmo se passa com a euforia momentânea perante o sucesso aparente, que serviria para sustentar a última lição do dia. Comentava Filipe com o Cristo dizendo- -Lhe “levaremos para Cafarnaum mais este triunfo, porque é incontestável que obtiveste aqui entre os samaritanos um dos nossos maiores êxitos.
(...) o Mestre sorriu e acrescentou: - Não é isso propriamente o que me interessa. O êxito mundano pode ser uma ondulação de superfície. O que necessitamos em todas as situações é atender o que o Pai deseja de nós. Como todo o seu apelo é o do bem, eu trabalho, mas sem me prender ao anseio das vitórias imediatas.” (BN: idem) E perante as palavras enigmáticas do Enviado, todos fizeram silêncio para escutar os comentários das gentes: “- Acreditas que seja este homem o Cristo prometido?
(...) De minha parte, não aceito semelhante impostura. (...) - É certo (...) mesmo porque em sua terra, não chega a valer um denário. Pelos parentes é tido como inimigo do trabalho e há quem duvide da sua preguiçosa cabeça. - É um louco de boa aparência (...) acredito que seja um grande velhaco.” (BN: idem) As observações sucediam-se nos mais diferentes grupos, provocando a estupefação entre os discípulos. Já de noite, a sós com os apóstolos, Jesus esclareceu bondosamente: “Esta é a imagem do campo onde temos que operar.
Por toda parte encontraremos samaritanos discutidores, atentos aos êxitos e referências do mundo. Observai a estrada para não cairdes, porque o discípulo do Evangelho não se pode preocupar senão com a vontade de Deus, com o seu trabalho sob as vistas do Pai e com a aprovação de sua consciência.” (BN: idem). E após o instante da queda que invariavelmente surge para cada um de nós, recordemos Emmanuel quando diz “não te fixes (...)
nos frutos da oportunidade perdida que deixaste apodrecer, ao abandono... Não te encarceres no campo inferior, a contemplar tristezas, fracassos, desenganos!... Olha para o alto! (...) Dá-te aos labores da ceifa e observa que, se as raízes ainda se demoram presas ao solo, os ramos viridentes, cheios de frutos substanciosos, avançam no Infinito, na direção dos Céus.” (VL:10) Entre outras lições daquele dia, saibamos nós preservar-nos da crítica alheia, encontrando o sustento certo no ensino do amor e da verdade, para assim distribuirmos a água viva a todos.
Por Hugo Batista e Guinote JULHO.AGOSTO 2012 Ciclicamente todos somos submetidos a um conjunto de provações que nos testam em diferentes áreas, proporcionando instantes de prova e correspondente evolução. Espíritas contra o suicídio A doutrina espírita (ou espiritismo) é um dos maiores preservativos contra o suicídio. A sua compreensão e estudo têm contribuído para evitar muitas mortes. As aprovas da imortalidade do Espírito, tiram, de vez, o tapete a quem pretende fugir dos problemas por esta via.
