Opinião (pág. 16)
Jornal de Espiritismo nº 53 · Abril 2012Página 166 min
Se a existência de um único acaso inteligente ainda poderia ser encarada como uma coincidência singular e fantástica, acreditar num tão grande número de acasos extraordinários e inteligentes ultrapassa os limites da crendice. JULHO.AGOSTO 2012 seria moldado independentemente da sua vontade e ninguém poderia ser responsabilizado pelas suas atitudes. A vida não teria qualquer sentido. Sendo certo que a ciência deve procurar a verdade e não respostas para o sentido da vida, o paradigma materialista em que são fundeadas a esmagadora maioria das decisões e escolhas individuais estão condicionadas por importantes fatores heterogéneos e dinâmicos, alguns deles caóticos e impossíveis de prever, que influenciam os nossos comportamentos: a hereditariedade e a carga genética, o meio cultural, familiar e social em que estamos inseridos e as experiências a que É impensável não termos liberdade para decidir entre ler este texto ou passar de imediato à próxima página mas, e se alguns cientistas tivessem dúvidas sobre o que tomamos por garantido?
O neurocientista John-Dylan Haynes, diretor de um grupo de investigação do Max Planck Institute for Human Cognitive and Brain Sciences em Leipzig, descobriu que é possível inferir as intenções de um indivíduo através da sua atividade cerebral antes de ele estar consciente da sua vontade. Em 2008, o prof. Haynes e a sua equipa realizaram ressonâncias magnéticas em voluntários a quem foi solicitado que, sem qualquer tempo-limite, escolhessem entre carregar num botão com a mão esquerda ou direita.
No momento em que decidissem carregar no botão, os voluntários apenas precisariam de memorizar a letra que estava a ser apresentada de uma sequência em permanente modificação. Analisados os resultados, Haynes descobriu que o padrão espacial da atividade cerebral no pólo frontal permitia antecipar a escolha cerca de sete segundos antes do momento em que os indivíduos relataram terem feito conscientemente a sua decisão.
Estes resultados vieram na sequência das pesquisas efetuadas por Benjamim Libet, na década de 80 do século passado, e que concluíram que o movimento dos músculos que se julgava sob controlo consciente seria na verdade comandado por impulsos nervosos antes de os indivíduos afirmarem terem vontade em fazerem determinado movimento. A partir destas conclusões, alguns cientistas acreditam que o nosso cérebro tomará algumas decisões a um nível inconsciente e que apenas mais tarde temos consciência delas.
Indo bastante mais além do que os resultados podem mostrar, alguns chegam a defender que o livre-arbítrio seria uma grande ilusão. Será que é mesmo assim? Retirar ao homem a liberdade pelas suas escolhas, colocando-o como um joguete de alguma força desconhecida, não é uma ideia nova: o calvinismo acredita que o homem já nasce fadado a um desígnio definido por Deus; a corrente behaviorista clássica igualava o ser humano a um animal, determinando os seus comportamentos unicamente pelas influências recebidas no meio que o envolvia; o geneticismo justifica algumas atitudes e aptidões através da existência ou não de um gene específico; os neurocientistas encaram o ser humano como uma máquina tremendamente complexa cujo comportamento é um produto de processos biofísicos no cérebro.
Todas estas formas de entender o comportamento humano estão baseadas num paradigma que é fatalista, redutor e profundamente corrosivo para a consciência humana: o materialismo. Para quem estuda a doutrina espírita, os resultados que estas experiências revelam não são propriamente uma novidade. O homem não possui liberdade absoluta de ação, tal como está referido na questão 846 de “O Livro dos Espíritos”. As nossas Xeque ao livre-arbítrio?
fomos expostos. No entanto, estes fatores não determinam as nossas ações, apenas as influenciam, caso contrário, não poderíamos assumir qualquer responsabilidade sobre as atitudes próprias nem tão pouco haveria mérito individual pelas nossas aquisições. Seríamos criminosos porque havíamos sido condicionados à criminalidade ou génios por uma qualquer razão fortuita. O destino de cada um Como nos julgamos capazes para tomar decisões e escolher a forma como conduzimos a nossa vida, o livre-arbítrio é um conceito que dificilmente colocamos em causa.
foto loucomotiv pesquisas científicas atuais distancia-a da verdade que procura. A doutrina espírita não se encontra em oposição à ciência. Nunca esteve e jamais estará mas, tal como defendeu Allan Kardec, encontra-se no extremo oposto do materialismo. Uma das suas missões é desmistificar as suas teorias reducionistas que, ganhando terreno nos arraiais da humanidade, continuam a depreciar o Contato Ellie Arroway é uma cientista do SETI fascinada pela possibilidade de encontrar sinais de vida inteligente fora do nosso planeta.
Dedicando a sua carreira a uma causa desprestigiada pela comunidade científica, ela consegue detetar uma mensagem proveniente de um sistema estelar a 24 anos-luz da Terra e que, em pouco tempo, se transforma no maior acontecimento à escala planetária. A mensagem contém instruções precisas para a construção de um engenho que, em teoria, permitiria viajar através do espaço até ao longínquo sistema Vega. Apenas uma pessoa pode embarcar nessa viagem e, apesar de ser a maior responsável pela fantástica descoberta, Ellie é preterida por não acreditar em Deus.
No entanto, o lançamento do singular engenho é sabotado por um grupo fundamentalista religioso que faz explodir toda a construção, matando dezenas de pessoas. Em segredo, uma segunda nave estivera a ser construída na costa do Japão e, após o atentado ocorrido, Ellie foi a escolhida para embarcar nesta nova viagem. A bordo da nave, ela foi lançada através de uma série de impressionantes “wormholes” até Vega, encontrando-se com um ser com a aparência do seu pai que lhe transmite que não estamos sós, instigando a humanidade a ver na relação com o seu semelhante o melhor antídoto para o vazio que sente.
De regresso à Terra, a viagem que para Ellie demorou cerca de 18 horas, havia durado apenas alguns segundos na Terra. Ansiosa por partilhar a sua experiência com a humanidade, ela debate-se contra a descrença generalizada, não dispondo de qualquer evidência que comprove que aquilo que viveu tinha sido real. Pela primeira vez, as suas certezas carecem de base científica. Realizado por Robert Zemeckis e baseado no romance homónimo de Carl Sagan, “Contacto” é um filme maravilhoso que nos envolve do princípio ao fim.
A trama já é suficientemente criativa e cativante mas, o filme vai muito mais além, apresentando-nos um enredo que se mantém fiel à seriedade científica, acompanhando-o pertinentes reflexões filosóficas. O que mudaria na concepção humana sobre a vida se existissem provas de que não estamos sozinhos no Universo? Se pudéssemos comprovar que a vida, ainda que preciosa e admirável, não é rara e que no Cosmos existem muitas outras civilizações inteligentes em diferentes estados de evolução, o que mudaria?
Desde o início, o filme está assente no conflito secular entre ciência e religião, personificado em Ellie (cientista) e Palmer (escritor e ex- -estudante de teologia). Ellie é céptica, racional, baseia-se naquilo que pode compreender para explicar a realidade e a sua busca íntima de um sentido para a vida. Palmer privilegia os seus sentimentos e sensações, desconfia da capacidade da ciência e da tecnologia para tornar o mundo melhor, acreditando com base na fé como uma forma de preencher o vazio existencial.
Ambos procuram atingir um objectivo: a verdade. Sendo um delicioso e sofisticado filme com uma mensagem de alcance espiritual, deve-se evitar confiná-lo a uma ótica específica ou subvertê-lo a convicções já adquiridas. Sendo uma obra de ficção, merece ser apreciado de mente aberta, para que nos deixemos embarcar na perspectiva em que o autor nos pretende colocar. Com esta obra, Carl Sagan não quis fazer uma crítica religiosa mas uma crítica à ignorância, às lógicas economicistas e a todas as formas de fundamentalismo, sejam eles religiosos ou científicos, que obstam à descoberta da verdade.
Exibido após a morte de Carl Sagan, “Contacto” é também um tributo ao grande homem e cientista. Carl Sagan, para além de um brilhante cientista, foi o maior divulgador científico do século XX. Deslumbrado pela ciência, pela natureza e pela vida, preocupava-o o desconhecimento, a ignorância, a soberba e o egoísmo como causas supremas das superstições, crenças dogmáticas e das guerras. Acreditando que a ciência era a melhor forma de pensar o mundo, dedicou-se de forma obstinada à sua divulgação por escolas, jardins-de-infância e televisões, para que esse conhecimento saísse dos laboratórios assépticos e se tornasse acessível e compreensível a toda a gente.
A forma simples e entusiasta como relacionava as mais diversas áreas do saber, a sua vontade inabalável de oferecer a sua contribuição para transformar o mundo num lugar melhor, ainda hoje é uma preciosa inspiração para todos os que procuram a verdade, qualquer que seja o caminho escolhido.
