Consultório
Jornal de Espiritismo nº 55 · Setembro 2012Página 72 min
Doença bipolar e obsessão Conhecedora em profundidade da temática espírita, Gláucia Lima é psiquiatra e dá continuidade a esta secção do jornal, denominada consultório: responde neste número a duas perguntas. NOVEMBRO.DEZEMBRO 2012 ca da Criação, sapiente até dum singelo fio dos nossos cabelos (Lucas:12.7) e desconhecendo mistérios; estes só “existem” na quase infância da razão humana, mas aqueles “clarões” diluem em evidência o nó de qualquer problema nosso: filosófico, matemático, técnico, artístico, de saúde, necessidade material, etc.
o cérebro, câmara de elaboração de inteligência racional e inteligência emocional, agia também como câmara de ressonância (suscetível de treino) de energias extrafísicas. Alguns profetas do Antigo Testamento curavam por “milagre” (meios espirituais). Os primeiros cristãos, perseguidos, despojados de direitos mas ricos da espiritualidade em que Jesus de Nazaré os iniciara, curavam pela oração. Mary Baker Eddy, precursora das igrejas pentecostais, no século XIX sarou instantaneamente dum padecimento terminal; recolheu-se três anos em estudo e meditação, quase sem vida social, até entender o mecanismo psíquico (“milagroso”) da sua cura, e passou ela mesma a curar e ensinar a curar espiritualmente.
A sua “Christian Science” alastrou no Mundo e documenta curas pelo espírito, que obtém por toda a parte. Nos nossos dias o padre dominicano Emiliano Tardif, subitamente sarado de tuberculose pulmonar, protagoniza incontáveis episódios de cura no seio do movimento carismático internacional. Nas últimas décadas do século XX, na Universidade de Harvard, o Dr. Herbert Benson demonstrou em simpósios e livros o enorme potencial terapêutico da fé (conotada ou não com religiões).
Ponderemos a traços largos o devir histórico da ideia de fé. Tertuliano, robusta coluna da teologia cristã nascente, no séc. III faz do acreditar elemento nuclear da fé, consagrando a rigidez cega do lema “credo quia absurdum“ (creio porque é absurdo); a qual, só questionada mais de mil anos depois por parte da cristandade (princípio luterano do “livre exame”), chegou a travestir-se do lastimável “crê ou morre!” inquisitorial.
Nos séculos 18 e 19, o processo religioso/científico sazonou a contradição entre FÉ (conceito ancestral, exacerbado em Pio IX com o Syllabus errorum, o dogma da infalibilidade, etc. (1)) e RAZÃO (endeusada pelo racionalismo). Tese e antítese incubaram a síntese fé raciocinada (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Paris, 1864, do académico francês Allan Kardec), que despedaçou a “incompatibilidade” entre fé e razão. Cem anos depois, “fé raciocinada” colhe aval (mesmo não intencional ou formal) no salutar princípio “liberdade de consciência”, consagrado pelo concílio Vaticano II – como saudando o pensamento teológico livre (esquecidos anátemas e dissensão, ele fulgirá na “nova Terra”), de alguns teólogos, e resgatando o luminoso adágio de Agostinho (354-430): “crede ut intelligas, intellige ut credas” (crê para entender, entende para crer).
O fenómeno da inteligência espiritual, recente na ciência académica, tem tido na História manifestações frequentes. Meio milénio antes de Cristo, Anaxágoras (não por via analítica, racional) vislumbrava algo de que se sentia seguro: “o que vemos é materialização do que não vemos; o que vemos, não é; o que não vemos, é”.
