Opinião (pág. 13)
Jornal de Espiritismo nº 57 · Abril 2013Página 134 min
No caso de Verónica, pelo contrário, esse processo já tinha sido despoletado anos antes, quando conhecera o Cristo. Porém, encontrava-se longe de estar concluído, pois as oportunidades evolutivas de cada encarnação são muito mais extensas do que aquelas que à partida consideramos. A história de Verónica, a mulher hemorrágica, começou assim. Verónica abandonara a sua cidade natal com a marca do ferimento humilhante.
Todos a consideravam impura ao ter sido condenada por Deus e, por tal, merecedora de desprezo por todo o judeu zeloso. Recorrera a médicos locais e forasteiros, a curandeiros, consultara sacerdotes, deixara-se exorcizar, mas a enfermidade resistia a qualquer remédio. Submetera-se a experiências várias, seguira os preceitos da lei judaica, tudo inutilmente. O seu mal era um castigo imposto pelo Deus único. Vencida por doze anos de anemia incessante, até mesmo diante dos médicos sentia o constrangimento que lhe impunha a doença.
Vivia escondida, obrigada a ocultar o seu ferimento. Sem mais esperanças e depois de ter gasto tudo quanto possuía, resolvera rumar até Cafarnaum. Ouvira falar de Jesus, de seus prodígios, de como suas mãos restituíam saúde e esperança aos enfermos. Dirigiu-se à casa de Simão, à residência dos filhos de Zebedeu, e às praias do Mar da Galileia, sem sucesso – mas que perseverança! Finalmente encontra o caminho da residência de Jairo.
Sentiu ser aquela a hora derradeira. “Cria nEle. Sentia-O invadir-lhe o íntimo…”. Na rua estreita a multidão, cada vez mais densa, abafava o seu pedido mudo de socorro. Porém, num impulso e vencendo a agonia que a dominava, como que tomada por um movimento irresistível, puxou-Lhe a ponta das vestes… e o sangue estancara! Perante a indagação do Mestre sobre quem Lhe tocara nas roupagens, a mulher respondeu: -“fui eu Senhor, que era desgraçada!
Sabia que, tocando tuas vestes, poderia recuperar a minha saúde. – Filha (…) a tua fé te salvou, vai em paz e sê curada desse teu mal.” (Trigo de Deus: 15) Os textos imortalizados pelos evangelistas dão a entender que esta mulher desaparece em definitivo do caminho do Cristo, mas tal não parece ser verdade. Ainda que o texto do historiador Eusébio de Cesaréia apresente uma versão contraditória, optamos pela proposta contida no texto apócrifo Atos de Pilatos, recordado por Amélia Rodrigues (espírito) através da psicografia de Divaldo Franco.
Para Verónica, com a saúde e a paz do corpo vieram a inquietaçãoea intranquilidade do espírito. NEle encontrara a vida e estar longe de Jesus significava estar morta. Despediu-se dos amigos e parentes que ainda à pouco a detestavam, e reencontrou o Enviado a quem passou a seguir por toda a parte, temendo pelo mal que outros que lhe quisessem fazer. E esse dia chegava na Páscoa derradeira. O cortejo que instigava o ódio para com o Mestre no derradeiro passeio, chegara à colina de Acra.
Perante a subida cruel, Jesus cedeu ao peso da cruz, escorregou e caiu. Após o auxílio de Simão o Cireneu e perante o sofrimento do Abençoado, Verónica não se conteve. Pegou na toalha de linho branco que trazia e correu ao Seu encontro, envolvendo a face ensanguentada com um carinho extremo. Ainda gritou por auxílio para que outros O socorressem, mas o pranto embargou-lhe a voz. E quando pela força a afastaram do Senhor, este olhou-a demoradamente e envolveu-a mentalmente: – vai em paz!
Lembrar-me-ei de ti. (Primícias do Reino: 14). A mulher, simples, acompanharia o Cordeiro até ao instante em que expiraria na cruz, chorando nesse momento a seus pés. O seu apostolado começaria em seguida. Para sabermos mais sobre o papel que lhe coube, retomemos o documento apócrifo intitulado Atos de Pilatos, que a espiritualidade indicia ser fonte fidedigna. Aprofundemos o contributo que coube a Verónica trazer para o despontar da doutrina cristã e consultemos um relatório que Pilatos envia ao Imperador Romano.
Nele o antigo governador da Judeia refere que Tibério César (o Imperador de Roma à época) encontrava-se acometido de grave doença. Estaria com o corpo repleto de úlceras, febres malignas e nove tipos de lepra, pelo que ordenou a Volusiano que fosse o mais rápido possível ao outro lado do Mar. Deveria requere a Pilatos que enviasse o médico chamado Jesus, que segundo o testemunho que havia escutado de Natan (um viajador oriundo da Judéia), curava somente com a palavra.
Quando Volusiano encontrou Pilatos e o informou do pedido do imperador Tibério César, este foto arquivo Verónica: de hemorrágica proscrita a apóstola do véu imortal As horas que naquela Páscoa distante antecederam o regresso do Cristo à liberdade espiritual, foram ensejo para muitas criaturas encetarem processos profundos de mudança interior. MARÇO.ABRIL 2013 Torna o mundo em que vivemos mais agressivo e menos solidário.
Um mundo mais solitário e individualista em que milhares de milhões de pessoas vivem dentro das suas bolas de sabão, procurando impedir que essas bolas de sabão toquem umas nas outras. Não é possível compreender à distância da reprovação, permanecendo na superficialidade da aparência. Para compreender é preciso fazer um esforço para nos colocarmos no lugar do outro, calçarmos as suas sandálias gastas de viajante dos tempos.
É um trabalho extremamente difícil mas se não sairmos da nossa bola de sabão, da nossa carapaça, da perspetiva egocêntrica em que nos posicionamos, para tocar as dores e dificuldades dos que nos rodeiam, nunca seremos capazes de compreender. Jesus, olhando para a mulher adúltera que todos queriam apedrejar não a identificou com o erro: viu uma mulher aflita que necessitava da sua compreensão. Jesus sabia das limitações daqueles que o rodeavam e reconhecia que as suas atitudes equivocadas eram fruto natural da ignorância que ainda prevalecia.
Não existe maior exemplo de compreensão do que as suas palavras no auge do suplício: “Perdoa-lhes Pai, eles não sabem o que fazem!” Compreender é uma expressão da caridade, braço da fraternidade.
