57 — índice de conteúdos

Opinião (pág. 14)

Jornal de Espiritismo nº 57 · Abril 2013Página 144 min

Partilhar
Idioma

As palavras do repórter asseguravam que o capturado era um déspota sanguinário mas as imagens mostravam um homem assustado numa posição vulnerável, vítima indefesa da agressão bárbara de uma multidão que exultava a sua sede por vingança. Confundido, o meu filho de dez anos perguntou-me: “Pai, quem são os bons e quem são os maus?” Limitar a compreensão do mundo a uma visão ingénua de bons e maus, colocando-se sistematicamente no lugar dos bons, é a forma ingénua que uma criança encontra para dar algum sentido à disparidade de atitudes e emoções que ela vai aprendendo a reconhecer.

A maturidade, a experiência e o conhecimento de nós próprios, deveria levar-nos a abandonar este preconceito maniqueísta, entendendo que será preciso muito mais do que impressões para descobrir o que é para lá daquilo que parece. No entanto, na maior parte das situações continuamos a limitar a complexidade do comportamento humano a um simplismo estranho de preto e branco, bom e mau, certo e errado, definindo aqueles que nos rodeiam pelas suas atitudes visíveis mas que acabam por ser reduzidos ao que mostram de pior.

Naturalmente indignados diante do que está mal, lamentamos e expomos verbalmente as máculas do criminoso, do delinquente, do tirano, do pedinte, do drogado, do egoísta, do invejoso e do manipulador, mas dificilmente vamos mais além dos lamentos e condenações. Dessa forma, não ficamos habilitados a compreender. Compreender não é o mesmo do que aceitar ou pactuar com os comportamentos alheios mas refletir com base em todos os elementos da explicação.

Treinar a compreensão é desenvolver uma benevolência que nos possibilita o entendimento das razões do outro, levando em linha de conta as limitações de personalidade, os obstáculos, dificuldades e os seus conflitos íntimos, reconhecendo a complexidade social, biológica e espiritual que influencia o comportamento humano. Compreender não é encontrar regozijo na justiça dos homens nem exigir a justiça de Deus mas, sensibilizar-se com o lado humano do Espírito agoniado diante da sua própria ignorância, lembrar as virtudes ocultas pelo desespero, os sucessivos enganos nas encruzilhadas do caminho, sentir o medo que o paralisa, o esforço inglório de elevação, auscultar o passado doloroso, as feridas abertas transportadas de outras existências.

Vivemos numa sociedade que está carente de compreensão. Acusamos demasiado, criticamos com muita facilidade, julgamos de forma ligeira com base em pré-juízos e ideias feitas. Esta forma de relacionamento afasta-nos uns dos outros, estimula a desconfiança, promove a discriminação, as desigualdades, as generalizações e os lugares comuns. foto arquivo escolhas erradas, a virtude ofuscada pela miséria, pela ignorância, pela dor e pelo desespero.

Agostinho da Silva, um dos maiores Compreender não é o mesmo do que aceitar ou pactuar com os comportamentos alheios mas refletir com base em todos os elementos da explicação. pensadores portugueses do século XX, dizia que uma das mais grandiosas mensagens de Jesus de Nazaré foi a de inspirar à descoberta da graça nos outros, graça essa que depois de descoberta, deveria ser soprada como quem sopra a uma fogueira que se está a extinguir.

Uma forma de relacionamento que procura ver noutro ser humano, independentemente do seu comportamento aparente, alguém que pede a nossa compreensão. É que talvez não haja maior expressão de humanidade do que conseguir ver o mundo pelos olhos daqueles que a multidão persegue e apedreja. Por Carlos Miguel Na televisão passavam imagens violentas de um velho ditador caído nas mãos daqueles a quem subjugou. MARÇO.ABRIL 2013 Thetford, professores de psicologia médica na Universidade de Colúmbia (Nova York), Deus não perdoa porque nunca condenou, devendo o nosso perdão assemelhar-se ao d’Ele: não perdoarmos, pelo íntimo saber e sentir que nada há a perdoar.

Aqueles docentes apontam o perdão como base de felicidade, o não-perdão como fonte de dor moral e física, sem pouparem técnicas mentais e exercícios para desenvolver o sentido de perdão. Fazem - -no também outros psicoterapeutas de renome; alguns, como Eckhart Tolle, evidenciam elevada espiritualidade (livre de religiões instituídas), citando amiúde, com propriedade, o Evangelho de Jesus, paradigma dos princípios que desenvolvem.

Desde há muito, estudos médicos interdisciplinares constatam a íntima relação entre saúde e emoções. Essa correlação fornece bases racionais seguras para se entender a grande importância do perdão e controlar as emoções que, além de o impedirem, nos molestam a fisiologia orgânica (ou mesmo a danificam gravemente, se a acumulação dessas energias corrosivas atingir um ponto crítico). Assim se entende perfeitamente que lançar dardos mentais de ressentimento, mágoa, rancor contra alguém começa por ser um tiro no próprio pé, antes de intoxicar o ambiente e lesar (ou não, consoante a sua vulnerabilidade psíquica) a pessoa visada.

Em contrapartida, explicam cientistas da especialidade, perdoar fomenta paz, invulnerabilidades, autoestima, amor ao próximo como a si mesmo (não confundir autoestima e amor a si mesmo, com egoísmo, caprichos, narcisismo). Que perdoar não é difícil, ilustrou grandiosamente o Modelo e Guia da humanidade, pregado numa cruz. Perdoou os verdugos sem esforço nem assomos de heroísmo, com a naturalidade duma flor que desprende o seu perfume.

Tendo poder para livrar-se das turbas desvairadas, nem pensou nisso, ou sequer em invetivar-lhes a ingratidão e crueldade, em queixar-se da injustiça monstruosa que sofria. Vendo muito além do mundo de formas e aparência, condoído e sem sentir que tivesse algo a perdoar, pedia ao Pai que lhes relevasse a insânia por ignorarem o que estavam a fazer! Minutos antes, mesmo debilitado e exangue, esplendera em misericórdia para com Dimas, o bom ladrão: tocado pela pureza do seu arrependimento, longe de lhe atirar em rosto a delinquência humildemente assumida, por que morria, o magnânimo esquecido de Si mesmo dirigiu-lhe palavras de esperança e conforto, sem lições de moral.

Trabalho e esforço, condições para o bom combate por adquirirmos o sentido precioso do perdão, não são componentes do seu operar, da sua natureza simples e fecundíssima.