Opinião (pág. 15)
Jornal de Espiritismo nº 57 · Abril 2013Página 152 min
Mais tarde, poucas horas antes de ser preso à ordem dos judeus, o Bom Pastor anteviu a renegação do apóstolo; mas sábio, generoso, também antecipadamente lha perdoou. Segundo os dicionários, perdoar é desobrigarmos o ofensor do que seja seu dever para connosco – arrependimento, reparação, etc.; e em geral tem-se por muito difícil. No entanto, considerar difícil o perdão é uma perspetiva errónea: não pode ser difícil, ou não é perdão.
Entre memórias pitorescas da adolescência, destaco um professor inesquecível pela sua jovialidade e bom humor. Ao iniciarmos a primeira aula sobre equações matemáticas, ansiosos e inseguros pelo papão de dificuldade com que nos tinham amedrontado os condiscípulos de anos mais adiantados, os nossos temores esfumaram-se com a abordagem descontraída que aquele professor fez à matéria: “resolver equações não tem dificuldade; o que pode custar é pôr em equação os dados dum problema”.
No decorrer das aulas fomos verificando isso mesmo: assimilados os métodos apropriados, resolver equações, em si, não oferecia embaraço especial. Os principiantes na arte de velejar também se surpreendem ao aprender como a força do vento atua nas velas: dois terços por sucção e apenas um terço por impulsão, detalhe a levar em conta nalgumas manobras de navegação. Perdão difícil é pois questão mal colocada, pela natureza do perdãoeo modo como funciona: ele envolve paz íntima, ausência de esforço ou indecisão e angústia entre mágoa sentida e o dever moral de perdoar.
Quem haja sofrido uma ofensa, pode agradar ao ofensor e a terceiros (parentes ou amigos comuns) perdoando externa e superficialmente; todavia, guardando ressentimento (mesmo leve, género “perdoo mas não esqueço”), em verdade não perdoou; e pouco tardará que a mágoa pelo agravo “não esquecido” aflore de novo à consciência, quiçá redobrada. Orar, meditar, compreender a dinâmica do perdão e sua imensa importância para o mundo, eis a via para o “instalar” no psiquismo, funcional e espontâneo.
Mary Baker Eddy (1821-1910), admirável fundadora da “Ciência Cristã”, definiu perdão como a destruição do “pecado” (mágoa, no caso) no nosso íntimo. Desde há muito, estudos médicos interdisciplinares constatam a íntima relação entre saúde e emoções. Essa correlação fornece bases racionais seguras para se entender a grande importância do perdão e controlar as emoçõe S egundo Helen Schucman e William foto loucomotiv Jesus de Nazaré, pedagogo ímpar da Humanidade, reiterou a importância do perdão e exemplificou-o magistralmente.
Quando Pedro lhe perguntou quantas vezes deveria perdoar alguém, sugerindo sete vezes como número suficiente, o Mestre retorquiu com ênfase: não digo que perdoes sete vezes, mas setenta vezes sete vezes (Mateus 18.21s). MARÇO.
