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Crónica

Jornal de Espiritismo nº 61 · Novembro 2013Página 123 min

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“A vida são dois dias” , costuma-se dizer. “E o Carnaval são três” , costuma-se acrescentar. São expressões comuns que reflectem um modo de estar despreocupado e sob muitos aspectos sadio. Apelam a um certo desprendimento das preocupações e cuidados excessivos. Com os bens materiais, com a reputação, com a obsessiva preservação da saúde, com os melindres, e com tantas outras ninharias que nos ocupam em demasia, sobretudo se considerarmos que estamos aqui de passsagem.

E a finalidade dessa passagem. Jesus de Nazaré enunciou mais ou menos a mesma filosofia do seguinte modo: Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal. (Mateus 6.34) Todos conhecemos a alusão que o Mestre fez aos lírios do campo e às aves dos céus, Só se vive uma vez a quem Deus provê as necessidades, para nos demonstrar que é bem mais importante que busquemos antes o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas se nos acrescentarão.

É, pois uma questão de prioridades. Contudo, quem tem da vida uma noção dúplice, de Espírito e matéria, sabe atender a ambos com equilíbrio. E são justamente as prioridades que a filosofia materialista inverteu. Se “a vida são dois dias e o Carnaval são três” nos encoraja a não valorizar ofensas, a não nos apoquentarmos commiudezas, a concedermos a nós mesmos uma recompensa ou um mimo, sem complexos de culpa, já o “só se vive uma vez” encerra um certo convite ao excesso e à desresponsabilização.

Num mundo sem Deus, numa vida em que tudo vem e regressa ao Nada, num Universo caótico onde o certo e o errado são meras convenções sociais e adaptações genéticas, há que aproveitar. Como? Cultivando a paixão pelo prazer imediato e inconsequente, com excessos de toda a ordem. Se para o ateísmo-materialismo nada tem verdadeiramente sentido nem finalidade, é razoável, ou pelo menos convidativo, viver para a satisfação dos instintos básicos.

Se somos apenas matéria, há que viver para a matéria. É natural que quem não acredita ser um ser espiritual não tenha muito apreço por outros valores. As consequências para a Humanidade é que não são nada boas. O político influente governa para seu proveito. O trabalhador humilde mede a sua felicidade pelo tamanho do seu vencimentoe por isso não é feliz. O rico confunde dinheiro com felicidade e amealha dinheiro em vez de espalhar felicidade.

Os prazeres da vida passam a ser um fim em si mesmos e não um meio para retemperarmos energias e renovarmos o espírito. É o vale-tudo, porque não há ideais. É nascer, gozar o mais que se pode, e morrer. Não é saudável. Contudo, quem tem da vida uma noção dúplice, de Espírito e matéria, sabe atender a ambos com equilíbrio. Não é ir burocraticamente picar o ponto ao centro espírita, à igreja, ao salão evangélico, à sinagoga, à mesquita ou ao terreiro.

Não é cumprir algumas normas externas. É viver plenamente de acordo com a nossa crença em Deus, na imortalidade e no Bem. Além do mais, não se vive só uma vez. André Afonso foto loucomotiv NOVEMBRO.DEZEMBRO 2013 Lentamente, Pedro aprendeu a conciliar os opostos na sua intimidade e a amar a sua sombra, reconhecendo-se luz. Converteu a sua alma de tal forma vigorosa que até mesmo a sua sombra curava enfermos e obsediados (Actos 5, 14:16).

Pedro tornou-se o exemplo vivo do amor de Jesus, pois acolheu em si mesmo a aceitação dos seus limites pessoais, dos seus conflitos e das suas dores, mas sem se deixar vencer ou anular-se por eles. Pelo contrário, ele utilizava as suas fraquezas para construir a sua força. Pedro soube erguer-se da frustração de não ser ainda o que desejava sem se deixar dominar pela negação de si mesmo. Pedro foi divino porque foi humano, porque se aceitou; sedimentou a sua fé nos altos e baixos do quotidiano.

Venceu- se a si mesmo na luta diária de auto- superação e aceitação. Hoje podemos estar a caminhar sobre as águas ou a afundar-nos, podemos estar paralisados pelos sofrimentos físicos e mentais, mas para que haja plenitude não podemos esquecer que, tal como Pedro, também somos pedra sobre a qual Jesus erguerá a sua igreja (do amor universal).