62 — índice de conteúdos

Opinião

Jornal de Espiritismo nº 62 · Maio 2014Página 83 min

Partilhar
Idioma

Desencarnar é recomeçar O Espírito que acabara de envolver a médium há poucos minutos ainda estava confuso. Pai de família, a partir de certa altura reparou que quando falava à esposa e aos filhos, eles «não lhe respondiam», disse. Mais: já nem lhe punham prato na mesa, insistiu. A dado momento gizou na sua mente esta indagação: «Que terei feito eu de tão errado para eles nem olharem para mim quando lhes dirijo a palavra?

». Nesta reunião mediúnica, passada já há uns anos, o caso ficou na memória. A sessão realizada uma vez por semana destinava-se a ajudar espíritos desencarnados ainda em confusão depois da morte corporal. Numa conversa tranquila, através de um médium psicofónico, processava-se o esclarecimento que permitisse à entidade espiritual ver e ouvir em torno dela os amigos da Espiritualidade desejosos de a ajudar, a fim de seguir com normalidade um percurso evolutivo no plano espiritual.

A imersão da mente em pensamentos e sentimentos pouco elevados limita as perceções e isso é particularmente funcional quando já estamos desligados do corpo material por efeito da desencarnação, que mais não é do que a morte do corpo físico. Este pai de família desencarnado pertencia ao numeroso grupo de espíritos confusos que se sentiam vivos, com corpo espiritual. Estão longe de pensar, por isso, que teriam morrido – nem sequer assistiram ao seu funeral.

Estariam adormecidos, inconscientes nessa altura. Embora registe a falha de não ter tomado no momento apontamentos, deve dizer-se que o desenvolvimento que se segue decorre de uma mesa-redonda realizada no Centro Espírita Caridade por Amor, na cidade do Porto, em 25 de outubro passado. Foram ali colocadas numerosas perguntas com respostas de três pessoas, nomeadamente António Costa e Lígia Pinto. De memória tentaremos reconstituir algumas ideias.

Dói morrer? Pergunta curta e pragmática. Resposta pronta: não será a maior dor que experimentamos no percurso da vida material. E porquê? Embora o caos orgânico que leva a uma irreversível avaria da máquina biológica que é o corpo físico, uma enorme quantidade de casos atendidos através da mediunidade evidencia que muitos de nós quando partimos desta vida material nem sequer damos por isso. Tanto não damos, que se cometêssemos a desfaçatez de dizer diretamente ao espírito comunicante que já tinha morrido, ele poderia entrar em pânico depois de se rir do que lhe dizíamos.

Não é de estranhar: o corpo espiritual tem, por exemplo, braços semelhantes em forma e densidade se a entidade espiritual o tocar com as suas mãos. Continua a pensar e a sentir – morto porquê, perguntará a si próprio. A dada altura os amigos da Espiritualidade acham oportuno projetar, como se fosse um filme na sua mente, a passagem de um funeral. A entidade fica apreensiva. A imagem aproxima-se e acaba por ver o seu cadáver no féretro e fica atrapalhado: que se passa aqui?

Quem ajuda no esclarecimento nessa interação espontânea há de dizer – não te preocupes, a vida é mesmo assim; termina aqui, abre-se uma vida maior agora para ti; imagina como será bom reveres aquelas pessoas que partiram antes de ti e de quem gostavas tanto… etc. Tudo se recompõe de uma maneira ou de outra até que siga acompanhado e reconfortado pelos espíritos esclarecidos que suportam o bom funcionamento destas reuniões.

Por isso, em síntese, muitas vezes morrer não dói tanto como viver ligado ao corpo físico. Impedir e prosseguir Lá do meio da assistência, Márcia indaga: os que cá ficam podem impedir que quem parte prossiga o seu caminho? Impedir não, mas dificultar sim, mormente no caso de espíritos ainda confusos sobre o significado da continuidade da vida no plano espiritual. Quando um ente querido parte, se já tiver autonomia interior para isso, irá lamentar a dor exagerada mas compreensível do parente próximo em causa, mas face ao tempo que tudo recompõe sabe que a oportunidade passa por se equilibrar, reajustar objetivos de vida, tratar de se adaptar ao novo plano vibratório e logo que possível tornar-se útil em tarefas que sirvam o bem comum.

uma enorme quantidade de casos atendidos através da mediunidade evidencia que muitos de nós quando partimos desta vida material nem sequer damos por isso. Se não for este o caso, pode imergir no charco vibratório dos sentimentos desequilibrados, que cultivam aspetos negativos, deprimentes e inibidores de uma vida mais feliz. Em todo o caso isto não será a meta definitiva e ambos acabarão por se reerguer, saturados dessa fase, em busca de equilíbrio e paz.

Afinidades de cá e de lá Um rapaz levanta-se e indaga com curiosidade: não tenho muitos conhecimentos mas já percebi que não existe JANEIRO.